Em outubro, mais de 150 milhões de eleitores brasileiros vão às urnas para decidir o que pode ser uma das eleições mais polarizadas da história recente do país, e uma das mais observadas fora dele, com consequências diretas nas disputas geopolíticas em curso no mundo. Além disso, está marcada por ser a última disputa de Lula (do Partido dos Trabalhadores), que busca seu quarto mandato.
O resultado vai definir se o Brasil segue como um dos poucos grandes países do Sul Global comandados por um projeto popular, com todas as suas contradições e limites internos, ou se passa a integrar, em definitivo, o arco de governos de extrema direita que hoje se articula da Argentina aos Estados Unidos.
Nessa montanha-russa geopolítica do continente, que já teve suas ondas mais progressistas, podemos estar vivendo um novo impulso da mesma lógica que remonta à Doutrina Monroe, do século 19, e que, décadas depois, ganhou forma sangrenta na Operação Condor, a aliança das ditaduras latino-americanas. Essa trajetória permite concluir que a atuação dos Estados Unidos no continente é, historicamente, arbitrária e opressora, voltada a garantir seus interesses nacionais, com investimentos pesados em grupos armados, conluios, golpes e desinformação. Para quem acompanha a região de fora, entender essa disputa é entender também para onde caminha a correlação de forças na América Latina e no mundo.
Podemos dizer que, desde os protestos de junho de 2013, no Brasil, e de forma mais marcada nas eleições de 2018 e 2022, uma polarização entre projetos e ideias distintas vem ganhando corpo no país. A nova extrema direita começou a se aglutinar e crescer nesse período e encontrou em Jair Bolsonaro e sua família sua personificação mais bem-acabada, acompanhada de um discurso antissistema que colocou em xeque as principais instituições do país. Foi um processo que passou pelo golpe parlamentar, midiático e jurídico que destituiu a então presidenta Dilma Rousseff, em 2016, pela prisão de Lula em 2018 e culminou na eleição de Bolsonaro naquele mesmo ano, seguida por quatro anos de desmonte de políticas públicas, de estruturas do Estado e das estatais, e de uso da máquina pública para fortalecer as narrativas e os esquemas do grupo então no poder. O resultado disso ainda reverbera no Brasil.
Nas urnas de 2026, a polarização entre esses dois projetos está bem nítida. De um lado, o campo que se organiza em torno do presidente Lula, buscando o que seria seu quarto mandato à frente do Palácio do Planalto. Do outro, o senador Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL), que herda o capital político construído por seu pai, hoje gerido à distância, já que Jair Bolsonaro cumpre pena em regime fechado por tentativa de golpe após o resultado das urnas de 2022. Um terceiro discurso, de tom antissistema e “aparentemente” sem conexão com os outros dois lados, também ganha corpo, mas ainda não se equipara ao peso real dos dois projetos que concentram a disputa pelo Executivo federal.
O Brasil no tabuleiro global
Essa disputa interna carrega, em 2026, um peso internacional que não existia com a mesma força em 2018 e 2022. A ingerência dos Estados Unidos sobre processos eleitorais latino-americanos não é novidade, mas desta vez ela se estendeu também à própria condenação da família Bolsonaro. Vale registrar um contraste importante: foram os governos Lula e Dilma, entre 2003 e 2016, que devolveram ao Brasil relevância no cenário internacional, do pagamento antecipado da dívida com o Fundo Monetário Internacional (FMI) à mediação de conflitos e à liderança em fóruns multilaterais, um capital político que o país reconstrói agora, sob pressão.
O ponto de inflexão mais recente veio em julho de 2025, quando o governo dos Estados Unidos, sob Donald Trump, anunciou tarifas de até 50% sobre uma série de produtos brasileiros, citando explicitamente, no texto oficial da medida, o que classificou como uma “caça às bruxas” contra Jair Bolsonaro. Analistas e a imprensa internacional descreveram o episódio como um uso inédito da política comercial; nunca antes um presidente estadunidense havia imposto tarifas citando explicitamente o julgamento de um aliado político em outro país. O chamado “tarifaço” acabou produzindo um efeito político interno que empurrou o governo Lula a reforçar um discurso de soberania nacional.
Esse embate ficou explícito na abertura da 81ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, em 22 de setembro de 2026. Discursando pela última vez no cargo antes da eleição, Lula chamou aquele de “o momento mais crítico” da instituição desde sua primeira fala no mesmo púlpito, em 2003, criticou o tarifaço, declarou que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém” e condenou a classificação de facções criminosas brasileiras como organizações terroristas. Horas depois, Donald Trump prometeu “poderio militar inigualável” para “erradicar os cartéis” e “trazer ordem” à região, citando como prova o sequestro, chamado por ele de detenção, do venezuelano Nicolás Maduro, hoje preso em Nova York à espera de julgamento por narcotráfico. Mencionou ainda um acordo de petróleo com a Venezuela avaliado em 65 bilhões de barris, lançou farpas a Cuba e reafirmou a disposição de agir militarmente contra quem, a seu ver, não combater sozinho o narcoterrorismo na região.
É nesse contexto que ganha peso a decisão dos Estados Unidos de classificar as facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, em junho de 2026, com sinalização de formalizar a medida mais adiante. O governo brasileiro rejeitou o pedido, temendo o precedente jurídico que ele abre. Organizações criminosas movidas por lucro, sem motivação política ou ideológica e, portanto, fora da definição clássica de terrorismo, passam a poder ser tratadas, na ótica estadunidense, como alvo legítimo de ação extraterritorial, a mesma lógica usada meses antes para justificar a entrada militar dos EUA em Caracas, rotulando um adversário como narcoterrorista para abrir caminho a uma intervenção sem respaldo no direito internacional. Para o Brasil e para toda a região, o precedente venezuelano é um alerta explícito sobre até onde essa narrativa pode chegar.
Do outro lado, o governo Lula tem investido na projeção do Brasil como voz do Sul Global. Ampliou a articulação dentro do Brics, reforçou o Mercado Comum do Sul (Mercosul) e sediou, em novembro de 2025, a Conferência das Partes da Convenção do Clima, a COP 30, em Belém, no coração da Amazônia, colocando o país, ainda que entre os limites da própria conferência e de seus desdobramentos concretos, como protagonista do debate climático internacional. São dois projetos de inserção do Brasil no mundo tão distintos quanto os projetos que disputam a vida material do trabalhador brasileiro. Um aposta no alinhamento automático a Washington e ao ideário da nova extrema direita internacional; o outro, na autonomia e na cooperação Sul-Sul.
O tempo e a renda como direito
Algumas pautas históricas da classe trabalhadora avançaram neste governo de Lula, o que poderia se traduzir em maior adesão à própria candidatura à reeleição. A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que reduz a jornada para 40 horas semanais, sem corte de salário, nasceu de uma mobilização social ampla e foi assumida pelo governo Lula como bandeira própria, tendo avançado no Senado. O campo de Flávio Bolsonaro tratou a proposta com resistência, em favor do empresariado. O candidato do PL criticou a PEC em maio de 2025, alegando risco de aumento de custos e desemprego. É um argumento que a produção acadêmica contraria, por exemplo, no “Dossiê 6×1”, da Universidade de Campinas (Unicamp), que estima a geração de 4,5 milhões de novos empregos com a redução da jornada.
No campo da renda, o governo sancionou, em novembro de 2025, a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil por mês, com desconto escalonado até R$ 7.350, mudança que, desde janeiro de 2026, isentou ou reduziu o imposto de mais de 15 milhões de contribuintes, compensada por uma tributação mínima sobre rendas anuais acima de R$ 600 mil. É uma medida de redistribuição direta, chamada pelo movimento sindical de “vitória da classe trabalhadora”, que se soma à recuperação do poder de compra do salário mínimo.
Ainda assim, esses avanços não vêm se traduzindo automaticamente em tranquilidade na campanha de Lula, que busca, pesquisa atrás de pesquisa, ajustar as rotas para obter maior adesão na sociedade em geral.
Um novo front de desgaste institucional ganhou força em 2026 com o escândalo do Banco Master. A prisão do banqueiro Daniel Vorcaro, apontado como líder de uma fraude bilionária, abriu uma investigação que chegou a Flávio Bolsonaro e a outros políticos e parlamentares de direita. Mas foi por ter alcançado também ministros do Supremo Tribunal Federal, entre eles Alexandre de Moraes, relator dos processos que levaram à condenação e à prisão de Jair Bolsonaro pela trama golpista, que a oposição vem tentando transformar o caso em desgaste para o governo Lula, na aposta de que atacar a credibilidade do ministro ajuda a deslegitimar a condenação do ex-presidente.
Os limites do campo popular e por que o bolsonarismo resiste
E por que o bolsonarismo segue competitivo mesmo depois de um golpe frustrado, de uma condenação histórica de seu símbolo maior, Jair Bolsonaro, e de indicadores sociais que, em várias frentes, melhoraram sob o governo Lula? Essa é uma pergunta da qual o campo popular brasileiro e o de outros países da região que enfrentam desafios semelhantes não podem escapar. E considerar uma profunda autocrítica me parece algo que não podemos nos dar ao luxo de evitar.
Ao longo desse último período da história recente do país e da América Latina, é possível enxergar uma crise institucional profunda e uma disputa de sentidos e sentimentos que afastou grande parte da população da política. Quando o discurso antissistema ganha espaço, isso significa que parte da população deixou de acreditar nas instâncias políticas estabelecidas e na própria cultura de fazer política, afastando-se do debate sobre o futuro. Essa parcela da população tornou-se, em boa medida, apolítica, sem esperança na capacidade da política de transformar sua vida concreta.
Uma das fragilidades do campo popular é a comunicação. O governo Lula vem construindo, há mais de vinte anos, políticas públicas que ampliaram renda, criaram programas e reduziram a fome e a pobreza, mas tem dificuldade em fazer essas conquistas chegarem, na linguagem certa, a quem mais se beneficia delas, e em ajudá-las a compreender como funcionam os sistemas políticos e as próprias políticas públicas, como acessá-las, como questioná-las e como participar delas. Existe hoje uma geração inteira que é fruto de políticas públicas bem-sucedidas dos anos 2000, mas que não reconhece na ação do Estado nenhum papel na transformação da própria vida, um imaginário hoje ocupado pelo discurso da meritocracia. Não é por acaso que a extrema direita brasileira construiu, nos últimos dez anos, uma máquina de comunicação digital super eficiente, inclusive com participação e apoio das big techs, capaz de transformar dado econômico favorável em sensação de piora, e de manter viva, mesmo com a liderança presa, uma identidade política, estética, afetiva e de pertencimento, mobilizada por redes de influenciadores, igrejas e grupos de mensagens.
Uma segunda fragilidade é institucional. O presidencialismo de coalizão brasileiro obriga o governo Lula a negociar, no Congresso, com uma maioria de centro-direita, o chamado Centrão, que trava ou dilui reformas estruturais mais profundas, da tributária à das forças de segurança.
E tudo isso culmina em uma fragilidade simbólica. A percepção de insegurança e de crise moral, fortemente alimentada por igrejas evangélicas neopentecostais em crescimento acelerado no país, pesa hoje tanto quanto, ou mais, do que os indicadores econômicos objetivos. Criando inclusive, um movimento antipetista, que afeta a relação entre o governo e a população. Entender essa desconexão entre dado e percepção, e disputar esse terreno simbólico e cognitivo, é hoje um dos principais desafios não só do Partido dos Trabalhadores e do campo popular de esquerda, mas de qualquer projeto progressista que queira, na América Latina, não apenas vencer uma eleição, mas conter o avanço da extrema direita a médio prazo.
Há, por fim, uma pergunta que excede o calendário eleitoral, mas que ao mesmo tempo exige construir, agora, as condições favoráveis para vencer uma eleição que coloca tanto em jogo. Como construir consciência política para além dos períodos eleitorais? A democracia dos nossos tempos foi sendo reduzida ao ato de votar a cada dois ou quatro anos, o que limita a capacidade de transformação da realidade e a própria formação política do povo. Reinventar essa relação, e não apenas vencer a próxima eleição, é o desafio que o campo popular latino-americano tem pela frente. Ganhando ou perdendo.


