Nina Fideles

Nina Fideles é jornalista e diretora-executiva do Brasil de Fato desde 2021. Fez parte da comunicação do MST, fundou a Radioagência NP e editou o Jornal Sem Terra e a Revista Caros Amigos. Graduada em Jornalismo pelo UniCeub e pós-graduada em Teorias Sociais e Produção do Conhecimento pela UFRJ em parceria com a Escola Nacional Florestan Fernandes, escreve sobre geopolítica, imperialismo e disputas de narrativa a partir da perspectiva da classe trabalhadora e dos povos do Sul Global.

Em virada histórica, Lula derrota extrema direita e se torna referência internacional

Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante discurso de reeleição, São Paulo (SP).
Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante discurso de reeleição | Crédito: Ricardo Stuckert

Povo se mobilizou nas ruas e nas redes para frear o bolsonarismo, que agora apela ao golpismo mais uma vez.

O mundo observava as eleições brasileiras com apreensão. Depositava-se muita esperança em uma reeleição de Lula, que daria sequência à política externa que o presidente construiu nos seus primeiros mandatos e buscou reconstruir nos últimos quatro anos, com o Brasil ocupando um lugar de destaque entre os países que resistem ao avanço da extrema direita pela América Latina, país após país.

Nunca antes na história do Brasil um presidente ganhou uma eleição revertendo a desvantagem do primeiro turno. Até domingo (25), em que Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito presidente da República com 51,79% dos votos válidos (64.256.232) contra 48,21% (59.826.041) de Flávio Bolsonaro (PL), uma diferença de 4.430.191 votos.

Lula se despede dos pleitos eleitorais realizando um feito histórico, como a figura política mais importante da história do Brasil. São quatro vitórias de um homem forjado no trabalho e na política, nascido no sertão nordestino e representante da classe operária. Uma biografia em muitos tomos. E que ainda não se encerrou.

As questões que são colocadas nestas eleições brasileiras não são triviais para o cenário geopolítico. Entre 2019 e 2022, o governo Jair Bolsonaro isolou o Brasil das grandes discussões globais, reduzindo o país a poucos aliados, tão mal avaliados internacionalmente quanto o próprio presidente. A democracia que se afirma em um país reverbera para todo o globo, e foi isso que se viu depois do resultado de domingo.

O ex-presidente colombiano Gustavo Petro resumiu em uma frase o que boa parte da esquerda latino-americana sentiu: “O fascismo foi detido na América Latina, no Brasil”. A presidente do México, Claudia Sheinbaum, falou em “vontade popular”. Até mandatários de direita, como o paraguaio Santiago Peña, reconheceram a vitória nas primeiras horas. Na Europa, Emmanuel Macron e Pedro Sánchez, da França e da Espanha, respectivamente, se anteciparam para reforçar a parceria estratégica com o Brasil. Sánchez chegou a escrever que “a virada do progressismo global acaba de começar”. Ainda assim, até a manhã seguinte, dois nomes relevantes seguiam em silêncio: Donald Trump, dos EUA, e o argentino Javier Milei.

Dentro do Brasil, Flávio Bolsonaro chamou de “impossível” reconhecer a vitória de Lula e anunciou que pediria à Justiça Eleitoral a anulação do segundo turno. Seu próprio partido, o PL comandado por Valdemar Costa Neto, chegou a apagar uma nota publicada nas redes que evitava admitir a derrota e reconheceu formalmente a reeleição de Lula, ainda que cobrando “esclarecimentos” sobre o que chamou de gastos públicos “eleitoreiros”. Nem entre os derrotados a eleição terminou unida.

Prova disso é a falta de consenso em torno da carta golpista divulgada na última quarta-feira (28) por Flávio Bolsonaro após sua chegada aos EUA, que não encontrou, naquele momento, eco na direita brasileira. Nem o próprio ex-candidato parece haver coerência consigo mesmo, já que ele que mudou a versão do texto duas vezes, retirando o trecho em que se dizia “o verdadeiro presidente do Brasil”.

Outro escândalo relacionado ao documento golpista apareceu numa versão prévia publicada pelo aliado da família que vive nos EUA, Paulo Figueiredo. Tal versão trazia um emblema da República com os dizeres: “Estados Unidos do Brazil”. Ora, o país não se chama assim desde 1967 e Brasil não se escreve com “z” desde 1931. Desconhecimento ou submissão ao imperialismo, fato é que até aptidão técnica parece faltar a esse campo político.

Amazônia, interferência e big techs

Uma das pautas que mais mobiliza globalmente sobre o Brasil é a preservação da Amazônia. Nos anos Bolsonaro, uma frase resumiu a intenção do governo com a floresta. Em reunião ministerial de 22 de abril de 2020, Ricardo Salles, então ministro do Meio Ambiente, disse que era hora de aproveitar a cobertura de imprensa tomada pela pandemia para “ir passando a boiada e mudando todo o regramento” ambiental.

A frase expõe uma prática concreta: a abertura de floresta nativa para pastagem, movida por um agronegócio que faz do Brasil um dos maiores exportadores de carne bovina do mundo. Os números confirmam o efeito do “passar a boiada”. Entre 2019 e 2022, o desmatamento médio anual na Amazônia foi de mais de 11 mil km², com pico de 13 mil km² em 2021, total de 45.612 km² no período.

Nos primeiros anos do terceiro governo Lula, a média anual caiu para 6.162 km², chegando a 3.335 km² entre agosto de 2025 e julho de 2026, a menor taxa da série histórica do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), iniciada em 1988. Em termos concretos, a Amazônia perdeu, em média, 690 mil árvores a mais por dia sob Bolsonaro do que sob Lula.

Outro ponto importante, que transborda as fronteiras brasileiras, é a interferência dos Estados Unidos e da Meta nas eleições. O debate sobre como as redes sociais interferem nos processos democráticos não é de hoje, mas nesta eleição ele ganhou um grau de descaramento maior. E esse tipo de atuação não se restringe ao Brasil. Muitos outros processos eleitorais foram laboratórios para essas interferências.

Trump é aliado histórico da família Bolsonaro, chegou a declarar apoio à reeleição de Jair Bolsonaro já em 2022, a mesma eleição em que o trumpismo espalhou, sem provas, as mesmas teorias sobre fraude nas urnas eletrônicas que tinha usado nos Estados Unidos em 2020, teorias que ajudaram a inflar o movimento golpista que culminou nos ataques de 8 de janeiro de 2023 em Brasília (DF).

Na segunda-feira seguinte ao segundo turno, Trump disse a jornalistas que a eleição brasileira “pareceu fraudada”, sem apresentar provas, e mirou especificamente a decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), de prorrogar a votação até as 19h em todo o país, embora tenha feito questão de dizer, no mesmo fôlego, que gosta de Lula e tem com ele uma relação muito boa.

A prorrogação solicitada pelo STF foi motivada pelos casos ocorridos em São Paulo (SP) e em Salvador (BA), de frotas de ônibus paradas enquanto filas de eleitores tentavam chegar aos colégios eleitorais. Ambos os partidos, PL e PT, pediram a prorrogação do horário de votação, com receio de que muitas pessoas não fossem chegar às urnas e isso fosse alterar o resultado final. Entre o pedido de Zanin e a execução da ordem pelo ministro Kassio Nunes Marques, nome indicado por Bolsonaro ao STF e hoje presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), passaram-se horas de silêncio, o que gerou, dado o horário em que a ordem finalmente chegou, confusão sobre as regras em vigor em cada seção eleitoral. É uma responsabilidade que recai sobre a presidência do TSE.

No caso da Meta, o padrão documentado foi de favorecimento sistemático. Levantamento da Secretaria Nacional de Comunicação do PT mostrou que a página de Flávio Bolsonaro teve, em média, quase três vezes mais engajamento que a de Lula, mesmo tendo 17,2% menos seguidores. Nas plataformas da Meta, o deputado bolsonarista Nikolas Ferreira chegou a ter alcance 12 vezes maior do que o de celebridades internacionais como Cristiano Ronaldo e Beyoncé. Observadores da ONU relataram interrupções temporárias de contas de campanha, diferenças de alcance e de contagem de visualizações entre os dois lados, e tratamento desigual na geração de imagens por inteligência artificial. A IA do WhatsApp chegou a se recusar a gerar imagens associando Lula ao número 13 no primeiro turno, enquanto produzia normalmente peças que associavam Flávio ao 22. A Meta reconheceu as restrições aplicadas ao conteúdo de Lula e de seus apoiadores, atribuiu o problema a “falhas técnicas” e negou interferência direta. O TSE, por unanimidade, proibiu qualquer alteração no alcance de conteúdo político na reta final do segundo turno.

De onde veio a virada

Houve mobilização social em torno de pautas caras à classe trabalhadora, e foi ela que garantiu a vitória. E isso mostra que mobilizações mudam rumos e que a figura do Lula atravessa gerações. Além das ruas tomadas nos 21 dias entre os turnos, nas redes as narrativas foram disputadas entre as brechas contra a máquina digital da extrema direita.

Mas de onde veio mesmo a virada? Um estudo independente publicado em 26 de outubro pela Estel Tecnologia, cruzando os resultados oficiais do TSE por zona eleitoral e por município, permite ir além da descrição e mostrar exatamente onde essa mobilização aconteceu.

Lula precisou de 6,65 milhões de votos líquidos a mais entre o primeiro e o segundo turno para reverter uma desvantagem de 2,22 milhões e fechar com a vantagem de 4,43 milhões. Em uma disputa tão polarizada, a troca direta de voto entre os dois finalistas era quase impossível; quem tinha escolhido Flávio Bolsonaro no primeiro turno dificilmente escolheria Lula no segundo, e vice-versa. A virada estava no eleitor indeciso, em quem se absteve e nos votos dos candidatos eliminados no primeiro turno.

A virada inteira veio de fora da disputa entre os dois candidatos, de 9,3 milhões de eleitores que, no primeiro turno, tinham votado em algum dos outros candidatos eliminados, de quase 2 milhões que tinham votado em branco ou nulo e, dessa vez, escolheram um nome, e de quase 3 milhões de pessoas a mais que foram às urnas no segundo turno, levando o comparecimento de 78,92% para 80,78% entre as duas rodadas.

Os dois candidatos mais votados entre os eliminados no primeiro turno, Augusto Cury e Ronaldo Caiado, declararam apoio público a Flávio Bolsonaro antes do segundo turno, mas seus eleitores não seguiram a orientação. Lula cresceu em 5.567 dos 5.571 municípios brasileiros, em todos os 27 estados, um padrão nacional. Nenhuma pesquisa acertou o resultado. Datafolha, Quaest e AtlasIntel davam Flávio na frente, todas errando no mesmo sentido e por margem parecida.

São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro somaram, juntos, mais votos na virada do que os nove estados do Nordeste combinados, uma lembrança de que o crescimento de Lula não ficou restrito à sua base histórica. Ainda assim, foi no Nordeste, onde Lula já era mais forte, que ele cresceu mais em proporção ao eleitorado. As duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo, e juntas descrevem uma mobilização nacional, não regional.

O que já foi feito, o que falta fazer

O que já foi entregue, e o que ainda está em promessa, ajuda a entender por que essa mobilização não pode parar agora. Nos quatro anos que se encerram, o governo recuperou o valor real do salário mínimo acima da inflação, ampliou o Bolsa Família e o Gás do Povo, e isentou de Imposto de Renda quem ganha até R$ 5 mil por mês, com desconto escalonado até R$ 7.350, beneficiando mais de 15 milhões de contribuintes, em um projeto financiado por uma tributação mínima sobre rendas acima de R$ 600 mil ao ano. Na véspera do segundo turno, em 14 de outubro, o Senado aprovou, por 75 votos a 1, a PEC que acaba com a escala 6×1 e reduz a jornada semanal para 40 horas, sem redução salarial, uma pauta histórica da classe trabalhadora.

Para o mandato que começa em janeiro, Lula registrou no TSE um plano de 13 eixos que promete aprofundar, não apenas manter, o que já foi feito: nova ampliação do Bolsa Família, aceleração da titulação de territórios quilombolas, demarcação de terras indígenas, conclusão de 30 Casas da Mulher Brasileira, um novo Ministério da Segurança Pública voltado a sufocar o financiamento das facções criminosas e a meta de alfabetizar 80% das crianças na idade certa. São promessas que dependem, quase todas, de aprovação de um Congresso que, a partir de 2027, estará mais à direita do que em qualquer momento desde a redemocratização.

Aproveitar o capital político que essa disputa gerou será fundamental para definir os próximos anos, não só os quatro que vêm, mas o futuro em décadas. Pressionar para que o governo se mova mais à esquerda em pautas como a tributação dos super-ricos, a tarifa zero, a reforma agrária e a demarcação de terras indígenas, entre outras, é uma tarefa.

Essa foi uma vitória de todos os trabalhadores e trabalhadoras brasileiras. Jovens que tomaram as ruas, idosos que saíram de casa para votar, caravanas de povos indígenas de todas as regiões indo coletivamente às urnas. É esse povo que merece, lado a lado de Lula, em seu último governo, escrever a história do Brasil nos próximos quatro anos. Que esses quatro anos alterem rotas, ajustem injustiças e sejam marcados como os mais representativos da classe trabalhadora.

*Este texto foi publicado em parceria com a Fundação Rosa Luxemburgo.

Editado por: Rafaella Coury

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