Por Ronaldo Teodoro
Você já pensou que o corte abrupto no orçamento público prometido por Flávio Bolsonaro é uma política concreta de morte e desesperança? Não é apenas uma medida econômica. É o corte de planos de pessoas simples, que almejam ter um filho, fazer a festa de quinze anos da filha, de ser empreendedor em uma loja de roupas ou comprar uma moto para entregas.
Mas, mais do que isso: a política já anunciada por Flávio Bolsonaro é uma política que vai afetar a condição das pessoas se manterem vivas.
Não é difícil compreender que existe uma relação direta entre o corte prometido e a redução do acesso a medicamentos gratuitos, a leitos hospitalares e o impacto nos anos de vida da população idosa, sobretudo. No caso da população em idade de trabalho, o aumento do desemprego e a piora na alimentação das famílias talvez seja o impacto mais imediato. A política de cortes anunciada atingirá ainda os anos de escolaridade almejados por jovens brasileiros, frustrando o plano de muitas famílias.
Há inúmeros estudos epidemiológicos, de economia, sociologia e teoria política que nos permitem afirmar que o corte prometido por Flávio Bolsonaro é uma declaração de morte a crianças brasileiras. Em estudo recente, pesquisadores de diferentes universidades calcularam que a manutenção de medidas severas contra o Bolsa Família e o SUS poderiam resultar em até 20 mil mortes evitáveis a crianças menores de 5 anos até 2030.
O mesmo estudo demonstrou matematicamente que “a preservação e a ampliação do orçamento de programas estratégicos, como a Estratégia Saúde da Família do SUS e o Bolsa Família, teriam a capacidade de mitigar esses óbitos adicionais, protegendo as populações mais vulneráveis em momentos de crise econômica”. O estudo foi publicado na prestigiada revista PLOS Medicine.
A relação do SUS com a vida dos brasileiros é concreta. Trabalhando com dados anteriores à pandemia, a mesma pesquisa aponta que, no caso dos idosos, os cortes de gastos na saúde poderiam gerar 50 mil mortes prematuras até 2030, tendo em vista a redução da atenção primária à saúde. Além disso, o estudo aponta que cortes na economia estão diretamente ligados à fila de cirurgias e à dificuldade de internações.
Política de desalento
A declaração de Flávio Bolsonaro é uma política de desilusão, desalento e desespero.
É incrível que a intenção de Flávio Bolsonaro seja divulgada por meios de comunicação como uma ideia de modernização do Brasil, de mais prosperidade, que levará à diminuição do preço dos alimentos e do custo de vida.
Este espelho invertido guarda um segredo antigo no Brasil: vender ideias de uma classe de privilegiados (banqueiros; financistas; grandes empresários) como se fossem de interesse das pessoas que vivem do trabalho suado, microempreendedores, entregadores, frentistas de postos de gasolina, trabalhadoras de supermercado.
Soma-se a essa promessa de tormento já anunciado por Flávio Bolsonaro, a declaração de que mudará a Constituição brasileira.
Está escrito no capitulo 5º da Constituição a garantia dos direitos fundamentais à vida e à igualdade entre brasileiros. No artigo 196 estão às garantias básicas à saúde, de onde se sustenta o SUS como direito público, gratuito e como dever do Estado. É isto também está em risco concreto.
A poucos dias das eleições não é difícil compreender que, se eleito, Flávio Bolsonaro irá atacar frontalmente esta proteção aos brasileiros. Se o fizer, um flagelo de proporções bíblicas está colocado.
A escolha é de cada um dos brasileiros e das brasileiras. São pais, mães, avós, tios, enteados, enfim, é a família brasileira como um todo que se verá em dificuldades sem precedentes para realizar minimamente seus sonhos básicos. De forma muito direta, é preciso dizer que sem futuro, e sem esperança, não há vida no tempo presente.
Em um cenário como este não é difícil imaginar o grau de violência urbana que se pode alcançar.
Definitivamente, não se trata de uma eleição como outra qualquer. Estamos falando de uma definição de futuro. De como existimos enquanto povo brasileiro.
Ronaldo Teodoro é cientista político e professor no Instituto de Medicina Social (UERJ).
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Leia outros artigos sobre saúde na coluna O SUS no seu Cotidiano no jornal Brasil de Fato
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Este é um artigo de opinião, a visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.


