Observatório das Metrópoles nas Eleições do Rio

Há mais de 25 anos o INCT Observatório das Metrópoles vem trabalhando sobre os desafios metropolitanos colocados ao desenvolvimento nacional através da sua rede de pesquisa, organizada em 18 núcleos regionais. Esta coluna se relaciona com os esforços atuais da nossa rede de reflexão e incidência sobre as Eleições 2024, visando contribuir para um futuro urbano mais justo e sustentável das cidades que compõem a Região Metropolitana do Rio de Janeiro (RMRJ).

Do Enem às urnas: que política de cuidados está em disputa no Rio de Janeiro?

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O trabalho invisível das mulheres é tema do Caminhos da Reportagem - O trabalho do cuidado é exercido majoritariamente por mulheres. Foto: Frame/TV Brasil© Frame/TV Brasil
O trabalho do cuidado é exercido majoritariamente por mulheres | Crédito: Frame/TV Brasil

No Brasil, são sobretudo as mulheres que cuidam e, entre elas, mulheres negras e empobrecidas enfrentam as maiores sobrecargas.

À memória de Amelinha Teles, que tanto lutou pelo feminismo e pelas creches no Brasil, endurecendo sem perder a ternura jamais. 

Em 2023, o tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) — “Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil” — pegou muita gente de surpresa. Afinal, que trabalho é esse, como permanece invisível e por que falar de cuidado é falar de mulheres? Naquele mesmo ano, enquanto milhões de estudantes enfrentavam essas perguntas, o Governo Federal começava a respondê-las com política pública. Foram criadas estruturas dedicadas ao tema nos ministérios do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS) e das Mulheres (MMulheres), que lideraram um Grupo de Trabalho Interministerial, reunindo vinte ministérios, responsável pela construção da primeira Política Nacional de Cuidados do país.

A resposta dada pela Política Nacional começa por tornar visível aquilo que, durante muito tempo, foi tratado como “natural” das mulheres ou das famílias. O Marco Conceitual da Política Nacional de Cuidados do Brasil previu que cuidar é trabalho — remunerado ou não remunerado — e que abarca atividades diretas, como alimentar uma criança, apoiar uma pessoa com deficiência ou acompanhar uma pessoa idosa, e indiretas, como preparar alimentos, limpar a casa ou organizar a rotina doméstica. É o trabalho de cuidado que sustenta a vida e do qual todas as pessoas dependem, ainda que em diferentes intensidades ao longo do curso de vida. Cuidado é, portanto, trabalho e necessidade, e deveria ser reconhecido como um direito.

No Brasil, porém, são sobretudo as mulheres que cuidam e, entre elas, mulheres negras e empobrecidas enfrentam as maiores sobrecargas. O Diagnóstico da Organização Social dos Cuidados no Brasil mostra que as brasileiras dedicam, em média, quase o dobro do tempo dos homens aos trabalhos domésticos e de cuidados não remunerados. As mulheres negras dedicavam 20,8 horas semanais a essas atividades, ante 19,3 horas das brancas — diferença que, acumulada ao longo de 2022, correspondeu a 75 horas adicionais de trabalho.

Ao mesmo tempo, a insuficiência da provisão pública e privada faz com que grande parte das necessidades de cuidado continue sendo respondida pelas famílias e comunidades. Produz-se, assim, uma dupla desigualdade: sobrecarrega quem cuida e condiciona o acesso ao cuidado a recursos, vínculos e redes de que cada pessoa dispõe. O desafio colocado pelo Enem era, portanto, maior do que tornar esse trabalho visível: era enfrentar uma organização social dos cuidados desigual, injusta e insustentável, atravessada por intersecções entre gênero, raça, etnia, classe, curso de vida, deficiência e território. Isso exige redistribuir responsabilidades tanto entre gêneros quanto entre famílias, Estado, setor privado e comunidade.

Essa resposta ganhou força institucional em dezembro de 2024, com a Lei nº 15.069, que instituiu a Política Nacional de Cuidados e reconheceu o cuidado como direito de cuidar, de receber cuidados e de exercer o autocuidado. A política propõe reorganizar progressivamente as responsabilidades pelo cuidado entre Estado, famílias, comunidade e setor privado e entre mulheres e homens. Em 2025, esse compromisso foi instrumentalizado pelo Plano Nacional de Cuidados — Brasil que Cuida —, que reúne 79 ações federais de 2025 a 2027 e mobiliza cerca de R$ 25 bilhões.

O cuidado também chegou à disputa eleitoral. Sua presença nos programas das duas principais candidaturas à Presidência mostra que o tema ganhou relevância, mas não significa que exista consenso sobre como enfrentá-lo. A experiência uruguaia ajuda a dimensionar a importância dessa entrada na agenda eleitoral: a mobilização da então Red Familia y Género, hoje Red Pro Cuidado, contribuiu para comprometer partidos políticos com a criação de um Sistema Nacional Integrado de Cuidados, posteriormente instituído no país, a partir de um consenso suprapartidário.

No programa de governo de Lula, os cuidados são apresentados como a “nova fronteira de um Estado de Bem-estar Social”, articulando enfrentamento às desigualdades, desenvolvimento, envelhecimento populacional e transformações nas famílias e no mundo do trabalho. A proposta é fortalecer e ampliar a Política Nacional de Cuidados, preservando seus fundamentos de cuidado como direito e corresponsabilização social e de gênero. Entre as iniciativas estão a ampliação de creches e da educação em tempo integral, apoio às Cuidotecas, formação de pessoas cuidadoras e investimentos em infraestruturas sociais e comunitárias de cuidado.

Já o programa de governo de Flávio Bolsonaro também reconhece a sobrecarga do cuidado sobre as mulheres e propõe ampliar creches em tempo integral e criar uma Rede Nacional de Cuidado para pessoas idosas e com deficiência, com centros-dia e atendimento domiciliar. A diferença aparece na forma de organizar as responsabilidades. O programa afirma que o Estado não deve assumir o cuidado “no lugar da família”, mas dividi-lo com ela, e associa fortemente a oferta de cuidados à possibilidade de as mulheres trabalharem, estudarem ou empreenderem. Para enfrentar a falta de vagas em creches públicas, propõe ainda um voucher-creche, pelo qual recursos públicos financiariam temporariamente o acesso à rede privada credenciada.

Assim, a presença do cuidado nos dois programas revela também uma disputa sobre o seu significado. No programa de Lula, a referência é à Política Nacional de Cuidados e à sua proposta de redistribuir responsabilidades entre Estado, famílias, comunidade e setor privado e entre mulheres e homens. No de Flávio Bolsonaro, embora haja ampliação prevista da oferta e reconhecimento da sobrecarga feminina, a família permanece explicitamente como referência central da provisão, recorrendo também à provisão privada financiada com recursos públicos. Mais do que perguntar se o cuidado entrou na agenda eleitoral, portanto, importa perguntar que organização social dos cuidados cada projeto pretende construir.

Até aqui, temos parte da resposta sobre o caminho percorrido desde que estudantes escreveram sobre cuidados no Enem. Mas a pergunta que nos interessa neste artigo nos faz olhar para frente e para um contexto específico: se o cuidado finalmente entrou na agenda das políticas públicas nacionais, que lugar ocupa na agenda política do Rio de Janeiro?

O estado do Rio de Janeiro se antecipou na organização dessa agenda em diálogo com a Política Nacional de Cuidados. Primeiro, pela instituição, em 2025, do Comitê Gestor Intersetorial do Cuidado, responsável por elaborar propostas para a Política e o Plano Estadual de Cuidados, incluindo um diagnóstico e a identificação de políticas e serviços existentes. Com coordenação da Secretaria de Estado da Mulher, o Comitê reúne áreas como políticas para mulheres, juventude e envelhecimento, desenvolvimento social, direitos humanos e saúde, além do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher e da Fundação Leão XIII.

Poucos meses depois, uma lei estadual avançou na institucionalização dessa agenda, estabelecendo princípios, diretrizes e objetivos para políticas públicas de apoio à economia do cuidado. Um aspecto especialmente importante e alinhado ao princípio da interdependência da Política Nacional é o reconhecimento simultâneo de quem necessita de cuidados e de quem cuida. Não há política de cuidados capaz de enfrentar desigualdades se a proteção de quem precisa de cuidado continuar dependendo da sobrecarga e da desproteção de quem cuida.

Esses dois movimentos indicam uma aposta na transversalidade e na intersetorialidade, ambas necessárias, mas nada simples. Diferentes políticas públicas carregam concepções, prioridades e formas próprias de compreender o cuidado; articulá-las em torno de um projeto comum é parte do desafio.

Os dois marcos também incorporam a dimensão racial. O decreto determina atenção às desigualdades de gênero, raça, etnia, deficiência, ciclos de vida e território; a lei inclui sexo e raça na concepção da economia do cuidado e prioriza pessoas trabalhadoras do cuidado, remuneradas ou não, especialmente mulheres. Esse reconhecimento é fundamental, mas precisa ganhar materialidade. Não basta mencionar raça como princípio ou diretriz: é preciso fazer da desigualdade racial uma chave para compreender como o cuidado é organizado, quem o realiza, em quais condições e quem consegue acessá-lo. Se as mulheres negras ocupam posição central na provisão dos cuidados, precisam também ocupar lugar central no processo dessas políticas.

A entrada do cuidado na agenda pública fluminense deve, portanto, ser reconhecida como avanço, mas não tratada como simples conquista administrativa. Trata-se de um campo de disputa e, simultaneamente, de uma oportunidade para construir uma política de cuidados comprometida com o enfrentamento das desigualdades interseccionais de gênero, raça, etnia, classe, deficiência, curso de vida e território.

Nesse sentido, é importante assinalar que essa agenda não nasceu do Estado. Organizações da sociedade civil, movimentos sociais, lideranças territoriais, mulheres cuidadoras e universidades vêm nomeando problemas, produzindo conhecimento, organizando demandas e pressionando o poder público para que aquilo que por muito tempo foi tratado como assunto privado seja reconhecido como questão pública. Afinal, o cuidado já acontece diariamente nos territórios, muitas vezes onde a presença do Estado é insuficiente.

A Casa Fluminense, por exemplo, incluiu os cuidados entre as prioridades da Agenda Rio 2030 e, em 2025, promoveu a formação “Lideranças que Cuidam”, com 21 lideranças de favelas e periferias da Região Metropolitana, além de lançar a “Cartografia do Cuidado”. Na Maré, IPPUR/UFRJ e Redes da Maré – organização que integra o Comitê Estratégico do Plano Nacional – desenvolvem um Laboratório de Inovação em Cuidados, articulando extensão universitária e conhecimento produzido no território. No mesmo ano, audiência pública na Alerj reuniu poder público, sociedade civil, pesquisadoras e cuidadoras para discutir os desafios da implementação da política estadual.

Mas e o cuidado na agenda eleitoral do Rio? 

É justamente por já existir uma agenda em construção que as próximas eleições importam. As candidaturas ao governo do estado não partem do zero: encontram marcos legais aprovados, um processo de articulação intersetorial em curso e demandas que vêm sendo formuladas nos territórios. O desafio agora é saber que continuidade, prioridade e direção política pretendem dar a esse caminho.

Por isso, não basta perguntar se o cuidado aparecerá nos programas de governo. É preciso perguntar o que cada candidatura – para o Executivo e para o Legislativo – entende por cuidado e como pretende transformar esse entendimento em política pública. Haverá compromisso com uma Política e um Plano Estadual de Cuidados? Como serão articuladas intersetorialmente saúde, assistência social, educação, trabalho, mobilidade, habitação e políticas para mulheres? Como municípios, sociedade civil e territórios participarão dessa construção? E, sobretudo, como as desigualdades interseccionadas de gênero, raça, etnia, classe, deficiência, idade e território serão enfrentadas na prática?

O cuidado entrou na agenda pública brasileira e começou a ganhar institucionalidade no Rio de Janeiro. O próximo passo não está dado de antemão. As eleições são uma oportunidade para tornar visíveis as escolhas em disputa e cobrar das candidaturas não apenas promessas de cuidar, mas compromissos concretos sobre quem cuida, quem é cuidado, em quais condições e com quais responsabilidades do poder público. Se em 2023 o Enem perguntou por que o trabalho de cuidado realizado pelas mulheres permanecia invisível, em 2026 cabe também perguntar às candidaturas: que política de cuidados querem construir para o Rio de Janeiro?

*Mariana Mazzini Marcondes é pesquisadora do Núcleo Rio de Janeiro do INCT Observatório das Metrópoles e professora do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPPUR/UFRJ).

**Thamires da Silva Ribeiro é professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

***Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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