Pesquisa que cruza os 5.570 municípios mostra que dependência econômica, vulnerabilidade e tipo de trabalho explicam a geografia do voto em 2022 e 2026 e indicam onde o segundo turno pode mudar.
No dia 4 de outubro, conforme os resultados do primeiro turno eram divulgados, o país se surpreendeu com a distância entre os números oficiais e a maior parte das previsões das pesquisas. Uma hora depois do fim da votação, o resultado parcial indicava diferença de mais de 10 pontos percentuais (p.p.) entre Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT). Ao final da apuração, essa distância caiu para menos de 2 p.p.
A explicação está, em boa medida, na localização das urnas apuradas primeiro: a imensa maioria estava no Paraná, no Mato Grosso do Sul e no Distrito Federal, estados onde o PL venceu com folga. O episódio mostra a importância da geografia do voto e, sobretudo, de uma leitura mais informada sobre suas origens sociais, para além da evolução da apuração. A relação entre território, economia, classe e voto ajuda a entender os processos de fundo em curso e o que está em jogo no segundo turno, neste domingo, 25 de outubro.
Primeiramente, é importante lembrar que o voto tem endereço e classe. Em 2022 e em 2026, a distância entre Lula e o campo bolsonarista está fundamentalmente relacionada a três aspectos: o quanto o município está ligado aos circuitos tendencialmente mais internacionalizados do capital, o tipo de trabalho que ele concentra e o grau de vulnerabilidade de quem vive ali. Em 2026, essas conexões estruturais praticamente se mantiveram. O que mudou foi onde ela deixou de funcionar, e é nesses lugares que a eleição poderá ser decidida.
Os dados e análise vêm do relatório “A Urbanização Dependente nos Municípios e Regiões: Alicerces da Dependência Brasileira e Suas Variações Subnacionais”, do Grupo Dependência, Urbanização e Política nas Cidades (DePoliCi), do núcleo Rio de Janeiro do INCT Observatório das Metrópoles, que será divulgado nos próximos meses. O estudo cruza mais de 150 indicadores municipais da Base Municipal de Urbanização Dependente, incluindo agora a votação presidencial de 2022 e 2026. Quatro achados se destacam.
1. Quanto mais ligado aos circuitos, mais internacionalizados de acumulação, menos lulista é o voto do município
Em 2022, quanto mais um município estava inserido nos grandes circuitos de acumulação mundial, menor tendia a ser a votação de Lula. A associação é substantiva: −0,47 em uma escala que vai de −1 a +1 (coeficiente de Spearman — quanto mais próximo dos extremos, mais forte a associação). Para Jair Bolsonaro, em 2022, o sinal é o inverso (+0,45), e para Flávio, em 2026, segue parecido (+0,41). Em outras palavras, o voto lulista cresce nos municípios menos diretamente “conectados” a essa dinâmica.
O que é o Índice de Integração Dependente (IID)? É uma nota de 0 a 1 que mede o quanto a economia de um município está ligada a seis mecanismos que, na leitura da pesquisa, ancoram a dependência brasileira: exportações, importações, crédito, ativos financeiro-imobiliários, compra de propriedade intelectual estrangeira e presença de setores que tendem a remeter lucros ao exterior. Quanto mais perto de 1, mais intensa a presença desses mecanismos.
A atividade que mais gera riqueza no município também conta. Comparando municípios do mesmo estado, Lula foi mais votado em 2022 onde predominavam administração, saúde e educação públicas, ou a agricultura e a pecuária. O campo bolsonarista foi melhor onde o principal setor era o de demais serviços ou a indústria de transformação.
2. Onde predominam os trabalhos manuais, Lula vai melhor
Municípios mais integrados à acumulação internacionalizada tendem a ter economias mais complexas, com divisão do trabalho mais sofisticada e estrutura social mais hierarquizada. A melhor janela para ver isso são as áreas de ponderação (APONDs) do Censo 2022, bairros ou conjuntos de bairros com amostras de diversas informações, inclusive relacionadas ao mercado de trabalho. Considerado o universo de 3.085 APONDs que compõem 302 municípios em 14 regiões metropolitanas (Belém, Fortaleza, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Vitória, Rio de Janeiro, São Paulo, Campinas, Baixada Santista, Curitiba, Porto Alegre, Goiânia, Distrito Federal), os profissionais das ciências, da saúde, do direito e da administração passam de 6,7% dos ocupados no terço de municípios menos integrado para 11,8% no mais integrado. Os dirigentes vão de 3,0% para 5,0%, e as ocupações de finanças, de 0,5% para 1,4%. No sentido inverso, as ocupações manuais, que envolvem da construção à limpeza e ao transporte, caem de 47% para 38%.
A análise dos 47 grupos ocupacionais do Censo 2022 deixa o desenho mais nítido. A cada desvio-padrão a mais de integração (a diferença entre um município típico e um claramente mais integrado), há mais profissionais do direito e das ciências sociais (1,3 ponto percentual a mais), da administração (1,2), da saúde (1,1) e engenheiros e cientistas (0,7). Há também menos trabalhadores qualificados da construção (1,5 ponto a menos), ocupações elementares da mineração, da construção e dos transportes (1,6), da agropecuária (1,6) e da limpeza (0,9). Já os vendedores e trabalhadores dos serviços pessoais, que são um em cada seis ocupados, estão em toda parte e quase não variam com a integração.
De forma bem demarcada, o voto acompanha essa divisão. Nas áreas do decil com menos profissionais — uma agregação ocupacional ampla correspondente ao grande grupo de ocupações profissionais de nível superior/especializado —, Lula teve cerca de 51% em 2022; nas do decil com mais, perto de 41%. Entre os dirigentes, a diferença é ainda maior, de 52% para 38%. Assim, onde as ocupações menos valorizadas e mais populares são relativamente mais presentes, o voto lulista tende a ser maior. Já nos territórios com maior concentração de ocupações superiores, o bolsonarismo encontrava condições mais favoráveis. Portanto, há indícios de uma clivagem de classe bem marcada nos bairros das metrópoles.
O padrão tem exceções. Entre as famílias ocupacionais do topo da hierarquia, médicos, docentes do ensino superior e artistas se afastam do comportamento dos demais grupos, já que nesses grupos a associação negativa com o voto em Lula não aparece. Uma hipótese que daí emerge é a de que frações de classe com mais capital cultural se diferenciem do padrão geral. Essas exceções também variam de uma região metropolitana para outra.
3. A vulnerabilidade é o melhor termômetro do voto
A pesquisa calculou, com dados do Censo 2022, quatro indicadores de vulnerabilidade para cada município: a superexploração aguda, a precarização do trabalho, a parcela de pardos, pretos e indígenas e o PIB per capita. Reunidos em um índice, são eles que mais se associam ao voto. Lula tem coeficiente de correlação de Spearman de 0,80 com o índice de vulnerabilidade no primeiro turno de 2022, e Bolsonaro, de −0,79. Bolsonaro foi melhor nos municípios relativamente mais ricos, com menos pobreza extrema e precariedade e maior percentual de brancos. Os indicadores que mais pesam nessa associação são a superexploração aguda e a parcela da população parda.

Voto em Lula por decil de vulnerabilidade dos municípios, 2022 e 2026. Fonte: TSE e Censo 2022 (IBGE).
Como a vulnerabilidade foi medida? A superexploração aguda mensura a dimensão salarial da superexploração, conforme teorizada por Ruy Mauro Marini, identificando a proporção de trabalhadores ocupados que ganham menos que a cesta básica local levantada pelo Dieese em julho de 2022 ou estimada regionalmente a partir do mesmo levantamento. A precarização é a proporção de trabalhadores sem carteira assinada ou por conta própria. Os dois indicadores vêm do Censo 2022, do IBGE.
O padrão sugere uma lógica: a integração dependente acompanha territórios com perfis de classe diferentes, esses perfis se traduzem em ocupações, rendas e condições de vida distintas, e as diferenças aparecem no voto.
4. 2026 mantém a mesma estrutura, mas com fissuras no Sul e no Centro-Oeste
O primeiro turno de 2026 teve mais continuidades do que rupturas. A correlação Spearman do voto em Lula com a integração passou de −0,47 para −0,43; com a vulnerabilidade, de 0,80 para 0,81; com a precarização, de 0,63 para 0,61. Mas, para além das permanências, as mudanças registradas foram decisivas para a sorte da candidatura petista.

Gráfico 3. Correlação entre o percentual de votos e indicadores municipais, 2026. Fonte: TSE e Censo 2022 (IBGE).
Onde a economia local pesa
Comparando municípios do mesmo estado, o vínculo do voto lulista com cidades onde predomina a Administração Pública quase não mudou: +10,2 pontos percentuais em 2022 e +9,3 em 2026, sempre em relação aos municípios onde predomina o setor “demais serviços”. Nos municípios onde predominam a agricultura, a pecuária e a produção florestal, a queda foi maior, de cerca de 2 pontos. Mais precisamente, foi onde as atividades primárias predominam que o campo bolsonarista mais avançou e Lula mais recuou. Em 2022, Lula tinha 5,1 pontos percentuais a mais nos municípios agrícolas do que nos de “demais serviços” do mesmo estado; em 2026, essa vantagem caiu para 2,9.

Gráfico 4. Coeficientes de regressão do voto em Lula (%) por atividade de maior VAB em 2021,e votações de 2022 e 2026. Fonte: TSE, IBGE (Contas Regionais); cálculos da pesquisa.
Quem mudou de lado
Nas 14 regiões metropolitanas, a forte associação negativa de Lula com dirigentes e gerentes, profissionais das ciências e intelectuais e forças armadas, policiais e bombeiros diminuiu bastante. Operadores de máquinas passaram a se associar positivamente ao voto bolsonarista, e operários e artesãos qualificados deixaram de se associar ao voto lulista.

Gráfico 5. Correlação entre a participação de grandes grupos ocupacionais e votos, 2022 e 2026. Fonte: TSE e Censo 2022 (IBGE).
Entre os 47 grupos ocupacionais, os que parecem ter migrado do lulismo para o bolsonarismo são: os operadores de instalações fixas e máquinas; os operadores de máquinas não especificados; os trabalhadores elementares da agropecuária, pesca e florestas, os trabalhadores florestais qualificados, pescadores e caçadores; e os operários de alimentos, madeira e vestuário. Ainda que sejam grupos mais abaixo na hierarquia social, detêm alguma qualificação e não necessariamente estão no piso da pirâmide ocupacional. Esse dado é fundamental para formular a seguinte hipótese: o bolsonarismo tende a avançar cada vez mais sobre os estratos e territórios mais vulneráveis, mas que não são aqueles tão diretamente associados à tradicional base lulista mais agudamente precarizada.
Onde mudou
A maior parte da variação entre 2022 e 2026 se explica pela geografia. Entre os 3.376 municípios em que Lula liderava em 2022, mais de 700 passaram à liderança do campo bolsonarista, sendo que nenhum deles fez o caminho inverso. Tal mudança ocorreu de forma concentrada, pois 72% dos municípios do Sul e 70% dos do Centro-Oeste onde Lula liderava mudaram de lado, contra 36% no Sudeste, 19% no Norte e menos de 1% no Nordeste. Nos bairros das metrópoles, o quadro é o mesmo: dos 1.520 em que Lula liderava, 361 mudaram de lado, sendo que 318 deles estão em apenas quatro estados (São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Goiás).
Em votos absolutos, Lula perdeu 1,8 milhão no Sudeste e quase 1 milhão no Sul, mas apenas 0,26 milhão no Nordeste e nada no Norte. O campo bolsonarista ganhou 1,6 milhão no Nordeste e 1,4 milhão no Sudeste. O Nordeste não foi um bloco imune, mas é onde Lula mais manteve seu eleitorado. Como o campo bolsonarista cresceu ali muito mais do que Lula perdeu, o avanço parece ter vindo de outros candidatos, da abstenção ou de novos eleitores, e não da troca de lado de quem votou em Lula em 2022. Os dados, entretanto, não permitem confirmar de onde vieram esses votos.

Gráfico 6. Variação absoluta de votos entre 2022 e 2026 por grande região. Fonte: TSE.
Dos 48% da variação na mudança do voto em Lula que o modelo consegue explicar, 33,5 pontos vêm do território (estado, tamanho e densidade do município) e só 8,5 da classe. E a região também muda a própria inclinação da classe, pois no Sul, cada desvio-padrão a mais de vulnerabilidade valia 10,2 pontos de voto em Lula em 2022 e 8,0 em 2026; mas no Norte, subiu de 10,4 para 11,9.
O mapa mostra a mesma geografia: as maiores perdas de Lula (de 10 a 30 pontos percentuais, em 649 municípios) se concentram em manchas contínuas do Centro-Oeste, sobretudo Goiás, e do Sul, além de partes do Sudeste e do Norte. Grande parte do Nordeste aparece nas faixas de perda menor. A classe define quem tradicionalmente vota em quem; mas o território demonstra por onde o campo bolsonarista avançou.

Mapa 2. Variação do percentual de votos em Lula nos municípios, 2022 a 2026. Fonte: TSE.
5. Segundo turno: o que pode mudar
O primeiro turno de 2026 pode ser lido em duas camadas. Na primeira, mais estrutural, a classe, moldada pela forma como cada território se liga à economia nacional e mundial, continua definindo quem vota em quem, com a mesma intensidade de 2022. Na segunda, mais conjuntural, Lula perdeu cerca de 3 pontos percentuais e o campo bolsonarista ganhou cerca de 4, de forma desigual, muito mais no Sul, no Centro-Oeste e em partes do Sudeste do que no Nordeste e no Norte. A diferença final, de 53,8 milhões de votos para Lula e 56,1 milhões para Flávio, cerca de 2,3 milhões ou menos de 2 pontos percentuais, é pequena diante do tamanho dessas duas camadas.
A geografia ajuda a dizer onde a disputa será decidida, mas não a prever o resultado. Nesse sentido, dois fatores devem pesar mais.
Qual será o destino dos votos dos outros candidatos?
Foram 9,3 milhões de votos, cerca de 8% dos válidos. Eles se concentram nos municípios menos vulneráveis e mais urbanos. Foram 9,2% dos votos válidos no terço de menor vulnerabilidade, contra 4,3% no de maior vulnerabilidade; 9,9% nas cidades com mais de 1 milhão de habitantes; e, no caso de Caiado, 12% em Goiás e 6,8% no Centro-Oeste, contra 1,2% no Nordeste. Esses são os territórios onde Flávio Bolsonaro já vai melhor (53% dos válidos no terço menos vulnerável, contra 38% de Lula). Se esses eleitores votarem como o território em que vivem, a tendência é de que a maior parte vá para o campo mais forte ali, mas isso é hipótese, não dado.
A conta aritmética, sem mudança na abstenção, mostra o tamanho do desafio: Lula precisaria de cerca de 62% dos votos dos demais candidatos para empatar. O número cai para cerca de 57% se 5 milhões de novos eleitores votarem 60% nele e 40% em Flávio.

Gráfico 7. Simulação: quanto dos votos dos demais candidatos Lula precisaria para empatar. Fonte: TSE; cálculos da pesquisa.
Quem irá votar?
A abstenção ficou praticamente estável no país (20,9% em 2022 e 21,08% em 2026), mas a geografia por trás desse fato mudou. Ela caiu 1,4 ponto percentual no Norte e 1,0 no Nordeste, e subiu 1,1 no Sul, 0,8 no Sudeste e 0,4 no Centro-Oeste. Além disso, o não-voto caiu 2,1 pontos nos municípios mais vulneráveis e subiu 0,8 nos menos vulneráveis. A ida às urnas cresceu nos territórios de base popular, onde Lula é mais forte, e recuou onde ele é mais fraco.

Mapa 3. Variação do percentual de abstenção nos municípios, 2022 a 2026. Fonte: TSE.
Se esse padrão se repetir, o segundo turno será disputado em um território em que a classe vale menos e a geografia vale mais. Se se inverter, a base popular de Lula tem espaço para ampliar a vantagem onde é maioria.
Portanto, a estrutura social do voto não deve mudar de uma semana para outra. O que pode mudar é quem vota e onde, e é aí que a disputa final poderá ser decidida: nos municípios do Sul e do Centro-Oeste que trocaram de lado, nos 9,3 milhões de votos que ainda não têm dono e nas urnas que as bases populares do Norte e do Nordeste levarem ou não a votar.
Entre a estrutura social e a disputa política
A geografia eleitoral brasileira revela, portanto, duas tendências simultâneas. De um lado, a persistência de profundas clivagens socioeconômicas, uma vez que os territórios mais vulneráveis continuam constituindo a principal base eleitoral de Lula, conforme originalmente observado por André Singer sobre as bases sociais do lulismo, enquanto o bolsonarismo mantém maior força relativa nos municípios relativamente mais ricos e mais integrados aos circuitos internacionalizados de acumulação. De outro, a capacidade de essas relações estruturais conviverem com deslocamentos políticos importantes, concentrados em regiões e atividades econômicas específicas.
Essa combinação ajuda a compreender por que a persistência das desigualdades sociais não se traduz necessariamente em estabilidade dos resultados eleitorais. A composição de classe e as modalidades de inserção econômica dos territórios importam, mas não determinam mecanicamente as escolhas políticas. Entre as condições materiais de existência e o voto intervêm disputas ideológicas, formas de organização, relações de poder e processos de mobilização que assumem características distintas nas diferentes regiões do país.
É nesse terreno que se desenvolverá a segunda rodada da eleição. A distribuição dos votos dos demais candidatos e as mudanças no comparecimento podem alterar o equilíbrio entre os dois campos, mas seus efeitos dependerão de como se distribuírem social e territorialmente. O resultado permanece aberto, e os dados disponíveis não autorizam uma previsão segura.
O que a pesquisa permite afirmar é que compreender a disputa política brasileira exige olhar para além das pesquisas de intenção de voto e dos acontecimentos imediatos da campanha. A dinâmica eleitoral está profundamente relacionada às formas desiguais pelas quais a economia, o trabalho e a reprodução social se organizam no território nacional. Mas essa estrutura não elimina a contingência da política. O que está em disputa não é apenas uma soma nacional de votos: é também a capacidade de diferentes forças políticas de mobilizar populações que vivem, trabalham e reproduzem suas condições de existência em territórios profundamente desiguais.
*Erick Omena é professor do IPPUR/UFRJ e coordenador do Grupo Dependência, Urbanização e Política nas Cidades (DePoliCi), sediado no núcleo Rio de Janeiro do INCT Observatório das Metrópoles.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.


