Observatório das Metrópoles nas eleições: um outro futuro é possível

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Na rota das terras raras: o futuro do Planalto Vulcânico também está nas urnas 

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Os empreendimentos avançam sob resistência popular e questionamentos sobre impactos socioambientais | Crédito: Mídia Ninja

Brasil está no centro da corrida por alternativas ao fornecimento chinês

Por Nathália Francisco

Conhecida pelas águas termais, pelo café cultivado em solos de origem vulcânica e por suas paisagens, Poços de Caldas integra o Planalto Vulcânico, onde a convivência com as águas, a produção agrícola e o turismo são centrais à identidade e à economia local. Recentemente, esse território passou a ser apresentado como uma das grandes fronteiras mundiais de exploração de terras raras, atraindo interesses que o inserem nas disputas entre potências pelo controle de minerais e tecnologias estratégicas. 

Poços de Caldas, no Sul de Minas, no centro do mundo. Entre negociações internacionais e disputas eleitorais, cabe perguntar: quem tem decidido o futuro desse território e como as urnas poderão orientar a exploração de terras raras no Brasil? 

O Brasil possui a segunda maior reserva de terras raras do mundo, estimada em 21 milhões de toneladas, atrás apenas da China. Esta concentra etapas fundamentais da cadeia produtiva: em 2024, respondeu por 60% da extração e 91% do refino das terras raras utilizadas em ímãs de alto desempenho, empregados em carros elétricos, turbinas eólicas e tecnologias bélicas. 

Essa combinação coloca o Brasil no centro da corrida por alternativas ao fornecimento chinês. A produção comercial nacional, entretanto, ainda é pequena, concentrada nas operações da Serra Verde, em Minaçu, Goiás, adquirida pela estadunidense USA Rare Earth em setembro de 2026. A disputa pelos minerais brasileiros já se materializa no controle empresarial da produção. 

No Planalto Vulcânico, destacam-se Caldeira e Colossus, das australianas Meteoric e Viridis, ainda sem extração comercial, mas com licenças prévias concedidas. A dimensão dos depósitos, os teores de terras raras e sua ocorrência em argilas de adsorção iônica, com possibilidades de processamento menos custoso, ajudam a explicar o voraz interesse empresarial pela região. 

Os empreendimentos avançam sob resistência popular e questionamentos sobre impactos socioambientais cumulativos em um território que já convive com passivos ambientais e radioativos das Indústrias Nucleares do Brasil. No Colossus, as críticas abrangem cavas, pilhas de rejeitos e uma unidade de tratamento químico de minério próxima à Zona Sul de Poços de Caldas. Estão em disputa a proteção dos mananciais, a qualidade de vida e a segurança de moradores e comunidades escolares. 

Outros projetos ampliam essa pressão territorial: Morro do Ferro, da Power Minerals; Poços Rare Earth Project, da Enova; e Caldas Project, da Axel REE, também australianas. O Planalto permite compreender como interesses geopolíticos e escolhas nacionais se traduzem em conflitos sobre ecossistemas, atividades econômicas e condições de vida. 

A articulação internacional é explícita 

Em outubro de 2025, em meio à guerra comercial com os Estados Unidos e às restrições chinesas à exportação de terras raras, Donald Trump e o primeiro-ministro australiano, Anthony Albanese, assinaram um acordo bilionário sobre minerais críticos, associando a segurança do abastecimento à fabricação de tecnologias de defesa. Nesse arranjo, destaca-se a australiana Lynas Rare Earths, que mantém contratos com o Departamento de Defesa dos Estados Unidos para instalações de processamento no Texas. 

No início de outubro de 2026, a Lynas anunciou um acordo para adquirir a Meteoric, responsável pelo Projeto Caldeira, conectando diretamente o Planalto Vulcânico a essa cadeia de interesses. A empresa realiza parte do processamento na Malásia, onde suas operações são alvo de denúncias e protestos relacionados aos resíduos radioativos. Sua associação com o Departamento de Defesa estadunidense também provocou reações de entidades locais, que denunciam o uso das terras raras processadas no país para abastecer a indústria bélica americana. 

O anúncio ocorreu cerca de duas semanas após Lula sancionar a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (Lei 15.506/2026). A lei estabelece agregação de valor e mecanismos de controle sobre operações internacionais, mas também incentivos financeiros e prioridade no licenciamento ambiental. Instrumentos importantes dependem de regulamentação posterior: a disputa sobre sua aplicação permanece aberta. A eleição presidencial é, portanto, decisiva para definir quais interesses terão primazia e quais limites serão impostos à expansão minerária. 

Eleição decisiva

Flávio Bolsonaro assume o consenso discursivo de agregar valor à produção nacional. Seu posicionamento, porém, revela subserviência aos interesses estadunidenses. Na Conservative Political Action Conference (CPAC), conferência conservadora realizada em março de 2026, apresentou as terras raras brasileiras como solução para reduzir a dependência americana da China, vinculando-as à manutenção da superioridade tecnológica e militar dos Estados Unidos. 

É preocupante que um candidato à Presidência apresente nossas riquezas como instrumento de sustentação do poder de uma potência estrangeira. Associada à proposta de acelerar o licenciamento, essa postura aponta para a subordinação dos territórios brasileiros às prioridades de Washington. 

Proteger os mananciais e esclarecer riscos radiológicos exige tempo, transparência e capacidade pública de fiscalização, em tensão com a pressão por acelerar empreendimentos. A eleição de Flávio representaria, nessa perspectiva, um retrocesso nas agendas socioambientais e de soberania nacional e popular na mineração. 

A eleição de Lula não assegura proteção integral dos povos e territórios, nem representa automaticamente a política mineral de que precisamos. A legislação sancionada por seu governo também pode impulsionar a expansão predatória. Entretanto, eleger Lula oferece melhores condições para disputar essa política mediante organização social e cobrança pública. 

Essa escolha exige participação popular efetiva, respeito aos povos tradicionais e limites sociais e ambientais à mineração. Diante da subordinação anunciada aos interesses estadunidenses, reeleger Luiz Inácio Lula da Silva é uma necessidade, acompanhada da exigência de que os territórios participem das decisões sobre seus futuros. O futuro do Brasil e do Planalto Vulcânico de Poços de Caldas também está nas urnas – e continuará sendo disputado depois delas. 

Nathália Francisco é doutoranda do Núcleo de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais (NPGAU/EA-UFMG) e pesquisadora do Núcleo RMBH do Observatório das Metrópoles. 

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Leia outros artigos sobre cidades e desenvolvimento urbano na coluna Observatório das Metrópoles no Brasil de Fato.

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Este é um artigo de opinião, a visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

Editado por: Elis Almeida

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