Mario Leal Lahorgue e Paulo Roberto Rodrigues Soares*
O Rio Grande do Sul será o primeiro estado brasileiro a reduzir o número de habitantes. Segundo as projeções do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), estamos no último ano de crescimento populacional. Tudo indica que em 2027, pela primeira vez (desde que temos números e levantamentos confiáveis), a quantidade de moradores no RS será menor do que no ano anterior. E agora? Quais são as consequências disso? Como planejar o estado e as nossas cidades para esta nova realidade?
E tem mais: esta redução está associada ao envelhecimento da população. Segundo um estudo recém divulgado, neste ano atingimos 20% da população com 60 anos ou mais, enquanto os jovens (menos de 15 anos) são apenas 17,7% dos habitantes (DEE-RS, 2026).
A população não só está mais idosa, como vive mais. O IBGE calcula que a expectativa de vida ao nascer, na média brasileira, chegou a 76,6 anos em 2024. Para o estado do RS, essa média é maior, chegando a 79,6 anos.
Este fenômeno tem causas diversas e traz consequências econômicas, políticas, sociais e até culturais para nosso estado. Trata-se da continuidade de uma transição demográfica iniciada na década de 1980, com a diminuição do ritmo de crescimento da população, que se confirmou nos levantamentos censitários seguintes, assim como no Censo de 2022, quando 58% dos municípios gaúchos tiveram redução populacional, especialmente os pequenos.
Ou seja: quem acompanha os censos já percebia que muitas regiões e municípios estavam apresentando transformações profundas relacionadas à perda populacional. A grande novidade mostrada pelo último censo é que isto deixou de ser característica apenas de cidades pequenas, com características de economia rural, e passou a fazer parte também de grandes cidades. Porto Alegre (diminuição de mais de 70 mil habitantes) é o maior exemplo, ainda que não o único no estado.
Esta nova fase demográfica do RS tem diversas explicações. À semelhança de nossos vizinhos Uruguai e Argentina, temos um contexto socioeconômico e cultural semelhante: forte urbanização antiga, melhor acesso à saúde e educação desde o século 20 e queda precoce da taxa de fecundidade. Além disso, o RS, desde a década de 1970, se tornou um estado de emigração (sai mais gente do estado do que entra), com os gaúchos colonizando o oeste catarinense, o oeste do Paraná, MS, MT, Goiás e, mais recentemente, oeste baiano, Tocantins e Piauí. Também passamos por um processo de urbanização e as pessoas têm menos filhos nas cidades, pelo mercado de trabalho, pela presença feminina na força de trabalho e pelo custo da vida urbana, mais elevado que o da rural.
A própria vida rural está se transformando, com convergências com o modo de vida urbano (há quem diga com a dominação do modo de vida urbano sobre o rural). Nas zonas rurais o ritmo de crescimento vegetativo já não é o mesmo. A mecanização do campo torna menos necessários os braços para o trabalho nas propriedades familiares e, especialmente, nas grandes propriedades.
Esta soma de fatores leva à diminuição da população e suas consequências. A tendência é em algum momento começar a faltar mão-de-obra. Classicamente, todos os lugares que passaram pela transição demográfica com baixa natalidade e envelhecimento da população precisaram compensar isso com imigração. E já vemos isso acontecendo em alguns setores econômicos, com venezuelanos, senegaleses, haitianos e cubanos, entre outros, que estão escolhendo o RS para viver.
Isto tudo levanta a questão da reorganização dos serviços sociais. Nas décadas anteriores, muitos destes serviços foram pensados priorizando o atendimento de uma população de maioria de crianças e jovens (por exemplo, construindo escolas). A partir de agora vamos ter que pensar os serviços que atendam necessidades de um público substancialmente diferente, uma população que não só é mais idosa, como vive mais tempo que a média do passado.
E isto significa um investimento público importante, em um estado onde nas últimas gestões têm sido dominante o imperativo da austeridade fiscal e do corte de gastos (investimentos, na verdade) públicos. Como dar conta dos novos serviços sociais, dos novos profissionais que serão necessários para o cuidado desta população, com a ideologia neoliberal de austeridade dirigindo o estado? É uma questão importante neste período eleitoral.
Por estas razões todas, também é importante pensar que o planejamento urbano deve considerar os termos desta transformação. Embora tenhamos mais idosos do que jovens no estado, ainda estamos no ‘bônus demográfico’: a razão entre o contingente de pessoas aptas a trabalhar, dos 15 aos 64 anos, e o contingente de pessoas consideradas fora da força de trabalho é o melhor da história. Parece contra intuitivo, mas não é: lembre que os antigos jovens se tornaram adultos. Então, hoje temos um grande contingente de pessoas em idade de trabalhar, o que deveria ser aproveitado exatamente para construirmos o futuro para todos. As políticas públicas deveriam aproveitar esse momento para se preparar para quando o peso desse envelhecimento for maior.
Entretanto, pelo que constatamos, o planejamento urbano não é realizado com base nessa realidade. No novo Plano Diretor de Porto Alegre as questões demográficas não foram levadas em consideração. Ele foi pensado na dinâmica clássica de que as cidades crescem e que precisamos organizar o crescimento (ou seja, tudo ao contrário, já que a população deixou de crescer). Também aposta no mercado imobiliário como o principal agente produtor e organizador da cidade. E pensando nas atuais características da produção imobiliária de Porto Alegre, será que a população idosa necessita de studios de 25m² para viver? Será que esta população se adaptaria a viver em edifícios de 30 ou 40 andares? Não se leva em conta a baixa população nem o envelhecimento nestes empreendimentos. E o sistema de mobilidade? Transporte público (ônibus), as calçadas – permitem que idosos se locomovam de modo seguro na e pela cidade? Construímos cidades pensando que um dia envelheceremos? Isto não seria, exatamente, planejar? Pensar como nossas cidades serão amanhã e nos prepararmos para isso?
Algumas soluções, como edifícios multiuso, com serviços apropriados para a população 60+ já estão disponíveis no mercado, mas são tratados como investimento e ausentes das políticas públicas de habitação. São inacessíveis para a maioria desta população, de menor renda (cerca de 60% das aposentadorias são de um salário-mínimo).
A nova realidade demográfica que se avizinha exigirá novas políticas sociais, urbanas e habitacionais. Esperamos que nossos entes políticos estejam atentos para esta situação, encarando esta parcela da população como cidadãos e não apenas como eleitores.
* Professores do Departamento de Geografia da UFRGS e pesquisadores do Observatório das Metrópoles, Núcleo Porto Alegre.
** Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato.

