Observatório das Metrópoles nas Eleições de Salvador

O Observatório das Metrópoles reúne pesquisadores sobre as cidades em todas as regiões do Brasil, tendo um núcleo na Região Metropolitana de Salvador. As colunas tratam de temas como mobilidade, moradia, segurança e urbanismo. Um olhar crítico e propositivo sobre o desenvolvimento de Salvador e sua região metropolitana, visando contribuir para um futuro urbano justo e sustentável.

Desenvolvimento urbano em tempos de neoliberalização: que cidades queremos construir?

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O horizonte de um desenvolvimento social e urbano mais pleno exige recolocar no centro do debate a construção do nosso futuro | Crédito: Observatório das Metrópoles Salvador

As eleições deste ano definirão um período decisivo para a sociedade brasileira e seus espaços urbanos

Por Rafael de Aguiar Arantes*

O Brasil passou, nas últimas décadas, por pelo menos três rodadas de um amplo processo de neoliberalização, que moldou múltiplos aspectos da sociedade brasileira, das subjetividades à atuação do Estado, da saúde mental ao processo de desenvolvimento urbano das nossas cidades. Longe de se restringir à adoção de determinadas políticas econômicas ou à simples retração do Estado, esse processo envolveu transformações nas formas de regulação das relações entre Estado, mercado e sociedade e nas racionalidades que orientam a ação dos governos, das empresas e dos indivíduos. Os rumos desse processo e seus impactos sobre nossas cidades estarão novamente em jogo nas eleições presidenciais deste ano.

Como argumenta Daniel Andrade, a primeira rodada de neoliberalização no Brasil ocorreu nos anos 1990, sob a globalização financeira e comercial, e pode ser compreendida tanto a partir de um momento de desmonte das institucionalidades anteriores como, sobretudo a partir de 1995, a partir da construção de um novo modelo regulatório baseado numa maior conexão entre Estado e mercado. A segunda rodada de neoliberalização ocorreu durante os governos de Lula e Dilma, quando se produziu uma hibridização entre a racionalidade neoliberal e elementos social-democratas e neodesenvolvimentistas. Luiz César Ribeiro e Orlando Santos Junior chegaram a caracterizar essa combinação, provocativamente, como um “keynesianismo neoliberal”, que combinava políticas redistributivas no nível federal com o avanço do empreendedorismo urbano no nível municipal.

A partir de 2016, iniciou-se uma terceira e mais radical rodada de neoliberalização no Brasil, quando o hibridismo foi progressivamente substituído pelo ataque à democracia e pelo desmonte generalizado. Especialmente durante o governo Bolsonaro, o neoliberalismo se implantou como uma “guerra civil”, para utilizar a expressão de Pierre Dardot e seus colaboradores.

Essas três rodadas atingiram diretamente as cidades brasileiras. A descentralização e a municipalização ampliaram a competição entre governos locais; avançaram as privatizações e concessões de infraestrutura urbana; houve uma transformação na política habitacional e no crédito imobiliário, estimulando a financeirização do setor; e difundiu-se um modelo empresarial e estratégico de planejamento urbano. Inovações jurídico-institucionais favoreceram a expansão de mecanismos de mercado, como a Lei das Parcerias Público-Privadas. O Programa Minha Casa Minha Vida, ao mesmo tempo em que promoveu uma política habitacional de enorme alcance, atribuiu em seu desenho grande centralidade à ação das grandes empresas. Avançaram ainda mudanças na regularização fundiária rural e urbana, programas de desestatização e o Novo Marco Legal do Saneamento.

Houve alterações nas formas de produção, gestão, regulação e apropriação dos espaços urbanos, conformando expressões de um desenvolvimento urbano neoliberalizado: a expansão de uma urbanização regional e difusa, a internacionalização do mercado imobiliário, a criação de novas centralidades e o esvaziamento de centros antigos, reformas e renovações urbanas, processos de gentrificação, a proliferação de enclaves fortificados e o avanço da hiperperiferização.

Houve também impactos diretos sobre as condições de vida da população. A valorização imobiliária e a crescente mercantilização das cidades contribuíram para o aumento dos custos de vida e de moradia, para a expulsão das populações mais pobres em direção às periferias e para processos de despossessão de espaços centrais. A crescente orientação da ação estatal para a criação de ambientes favoráveis aos negócios direcionou recursos públicos para investimentos de interesse dos agentes privados, em detrimento de políticas voltadas ao bem-estar social. O resultado foi a reprodução e o aprofundamento das desigualdades socioespaciais que historicamente caracterizam as cidades brasileiras.

A neoliberalização alcançou também as formas de vida e as subjetividades, disseminando uma racionalidade empreendedora que atravessa o mundo do trabalho, as formas de sociabilidade e religiosidade, as mobilidades, as práticas culturais urbanas e os usos dos espaços públicos; uma neoliberalização urbana que se realizou “desde baixo”, nas práticas cotidianas e nas formas pelas quais os indivíduos passam a se relacionar consigo mesmos, com os outros e com a cidade.

Entretanto, esse processo não foi linear e homogêneo. As reformas orientadas pelo mercado encontraram institucionalidades preexistentes e relações sociais historicamente constituídas, produzindo trajetórias distintas e combinações particulares. Mesmo durante a primeira rodada de neoliberalização, os anos 1990 foram também um período de fortalecimento de algumas experiências democráticas e populares no âmbito municipal, muitas delas relacionadas à agenda da Reforma Urbana, o chamado “ciclo virtuoso das prefeituras democráticas e populares”. A Constituição de 1988 e o Estatuto da Cidade, por sua vez, representaram também importantes marcos institucionais que tensionaram o avanço da neoliberalização da política urbana brasileira.

A convivência entre esses movimentos contraditórios ajuda a compreender por que a neoliberalização brasileira deve ser pensada como um processo variegado, marcado pela dependência de trajetória, por hibridizações, disputas, resistências e movimentos de contraneoliberalização, nos termos da abordagem proposta por Neil Brenner, Jamie Peck e Nik Theodore.

Essa perspectiva é particularmente importante para compreendermos o momento atual. A eleição de Lula em 2022 interrompeu a experiência mais radical da terceira rodada de neoliberalização, o que não significa que a racionalidade neoliberal tenha simplesmente desaparecido. Por vezes, as declarações do próprio presidente Lula parecem identificar o neoliberalismo fundamentalmente com a redução ou a ausência do Estado, uma leitura parcial desse processo. O neoliberalismo não implica necessariamente “menos Estado”, mas uma mudança de suas formas de atuação e de suas prioridades. Como nos ajuda a compreender Loïc Wacquant, ele opera através de uma transformação do campo burocrático e da ação estatal, cada vez mais orientada para impor a lógica do mercado e da concorrência sobre diferentes esferas da vida social.

No terceiro governo Lula, instrumentos e racionalidades neoliberais continuam presentes, por exemplo, no novo arcabouço fiscal, nas políticas de parcerias de investimentos, mas essas orientações aparecem hibridizadas com outras racionalidades e formas de atuação do Estado. No campo do desenvolvimento urbano, uma iniciativa merece destaque: a reconstrução dos espaços institucionais de participação social e, especialmente, a realização da 6ª Conferência Nacional das Cidades. O Observatório das Metrópoles acompanhou de perto esse processo, participando dos debates e produzindo reflexões sobre seus resultados, posteriormente reunidas no livro “Gestão democrática e esferas públicas de participação: reflexões e desafios da 6ª Conferência Nacional das Cidades”, organizado por Taísa Sanches, Orlando Alves dos Santos Junior, Thiago Trindade e Letícia Miguel Teixeira.

A conjuntura que se abre com as eleições de 2026 torna essa discussão ainda mais relevante. Novamente, estarão em disputa projetos bastante distintos para o Estado, para a sociedade e, consequentemente, para nossas cidades. A experiência das últimas décadas mostra, entretanto, que talvez seja insuficiente compreender essa disputa simplesmente como uma oposição entre neoliberalismo e não neoliberalismo. Estaremos, mais uma vez, diante de formas distintas de neoliberalização: de um lado, uma perspectiva mais radical, associada ao aprofundamento da mercantilização, ao desmonte de direitos e de políticas públicas e contrária aos interesses populares; de outro, uma perspectiva que, por sua história e por sua maior porosidade às lógicas políticas progressistas, de base e populares, ainda hibridiza a racionalidade neoliberal com outras formas de atuação estatal, redistribuição, participação e reconhecimento de direitos.

As eleições deste ano definirão um período decisivo para a sociedade brasileira e seus espaços urbanos. É nas cidades que ainda se concentra a maior parte da população brasileira e parcela decisiva de seus recursos econômicos, políticos e culturais, mas é também nelas que se expressam alguns dos maiores desafios da nossa questão social. O horizonte de um desenvolvimento social e urbano mais pleno exige recolocar no centro do debate a construção do nosso futuro: se queremos continuar produzindo competição, exaustão, sofrimento, espoliação e aprofundamento das desigualdades ou finalmente ampliar o acesso aos direitos sociais e ao direito à cidade, promovendo maior qualidade de vida e bem-estar para nossa população.

*Rafael de Aguiar Arantes é professor do Departamento de Sociologia e do Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais da UFBA. Coordenador do Centro de Estudo e Pesquisas em Humanidades da UFBA. Pesquisador do núcleo Salvador do Observatório das Metrópoles.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Jamile Araújo

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