A frota de veículos automotores na grande São Luís chega a meio milhão de unidades. Entre eles estão carros, motos, ônibus e caminhões, mas um tipo de veículo é incômodo na paisagem e no arranjo espacial da cidade: o carro-pipa, utilizado para suprir a necessidade infinita de água para os habitantes citadinos, um paliativo que ajuda a abastecer toda a urbe, principalmente os condomínios fechados que não param de expandir.
São Luís possui nítidas diferenças em seu espaço intraurbano, delimitadas por distinções infraestruturais e de serviços, por raça e renda, resultado das relações de poder e da apropriação da riqueza do território por parte de uma minoria. Embora se notem estas contradições, há problemas onipresentes na totalidade do município e causa espanto a omissão dos poderes instituídos, que parecem alheios às adversidades.
Os carros-pipa resultam do deficitário abastecimento d’água na ilha, composta por mais três municípios além de São Luís, são eles São José de Ribamar, Paço do Lumiar e Raposa. Existem três sistemas de abastecimento interligados (Italuís/Sacavém-Batatã/Paciência I e II), são duas Estações de Tratamento de Água Convencional (Italuís e Sacavém), duas Estações de Tratamento de Água com Fluxo Ascendente (Olho D’Água e Cururuca) e 312 poços tubulares profundos. Mas São Luís padece com falta de água em milhares de lares cotidianamente. Não é raro, por exemplo, que tubulações do Sistema Italuís – que abastece 60% da capital maranhense – sofram rupturas, afetando a vida de milhares de pessoas.
A venda de água via carros-pipa se transformou em negócio lucrativo na cidade em virtude das graves falhas no abastecimento. Para se ter uma ideia, há um terreno de onde saem todos os dias dezenas destes carros cheios de água, localizado numa das áreas mais urbanizadas e valorizadas da cidade do ponto de vista urbanístico, o bairro do Renascença. É curioso, para não dizer revoltante, esta questão, pois o comércio de água de hoje é semelhante ao que acontecia na São Luís do século XIX, quando Ana Jansen, figura poderosa da aristocracia e da política maranhense, era detentora do monopólio da água na cidade, período em que seus escravizados vendiam água em carroças, oriunda das fontes de suas propriedades nas áreas do Apicum e do Vinhais.
Não bastassem as deficiências no abastecimento de água, São Luís sofre por não tratar grande parte de seu esgoto. De acordo com os dados do Sistema Nacional de Informação sobre Saneamento (SINISA), São Luís possuía 41,8% da cidade ligada à rede coletora em 2024, ou seja, menos da metade da cidade está coberta pelos serviços de esgotamento sanitário; são 632.665 habitantes sem este serviço importante. E, segundo o Instituto Trata Brasil (2026), apenas 15,78% do esgoto do município é tratado. Isto significa que, das 100 maiores cidades brasileiras analisadas no estudo, a capital do Maranhão ocupa a 90ª posição. Quem sofre mais são as populações que residem nas proximidades dos rios e córregos da cidade, verdadeiros esgotos a céu aberto, com destaque para as bacias dos rios Anil, Paciência, dos Cachorros e as microbacias do litoral, situadas entre a Ponta d’Areia e o Araçagy. Não à toa, a balneabilidade das praias na cidade se encontra em estado quase sempre crítico, imprópria, a maior parte do ano, para o banho.

Independentemente do bairro, proliferam na cidade bueiros estourados, às vezes sem tampas, ruas e avenidas esburacadas, esgotos a céu aberto sem manutenção, galerias insuficientes para o escoamento das águas pluviais, além de fundos de vale aterrados e rios poluídos. Os eventos climáticos extremos recentes, como variações bruscas entre calor, umidade e chuvas torrenciais, além de ventanias e ciclones localizados, provocam inundações e prejuízos, e só contribuem para piorar a situação.
A cidade se fragmenta em meio ao aumento das desigualdades; o solo urbano – principalmente nos bairros dos antigos conjuntos habitacionais e outros territórios que estão situados ao norte do município – se tornou uma mercadoria com preços altíssimos, o que possibilita a presença de um estoque de vazios urbanos murados que não param de valorizar pela especulação, além de empreendimentos habitacionais prontos que não conseguem ser vendidos facilmente. Isto provocou um direcionamento de loteamentos e construções de novos condomínios e habitações para os municípios vizinhos de São José de Ribamar e Paço do Lumiar, por meio de avenidas como a General Arthur Carvalho e também a Holandeses/MA-203, territórios onde os estoques de terra são maiores e mais baratos. Por outro lado, esse processo determinou o afastamento ainda maior de populações pauperizadas que residem em lugares cada vez mais distantes e deficitários de transportes, saneamento e outros equipamentos urbanos.
Em meio ao aumento das desigualdades urbanas, refletido no crescimento expressivo de favelas e comunidades urbanas, nas quais a capital maranhense possui uma vergonhosa posição de destaque em escala nacional, a Câmara dos Vereadores aprovou a proposta de Lei nº 77/2026, que versa sobre a Lei de Zoneamento, Parcelamento, Uso e Ocupação do Solo de São Luís no último dia 15 de setembro. O atraso desta lei é de 34 anos. A proposta derivada do Conselho da Cidade (CONCID) foi descaracterizada pelo Executivo municipal, que incluiu 133 emendas, a fim de favorecer o lobby oriundo do mercado construtor e imobiliário para intensificar usos e especulações no solo urbano, num processo financeirizado, “a fim de transformar a propriedade imobiliária em uma mercadoria compatível com as lógicas do mercado de capitais”, segundo Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro em “As metrópoles e o Direito à Cidade na inflexão ultraliberal da ordem urbana brasileira”.
Pelo exposto, é de assustar como candidatos ao parlamento e às cadeiras do poder executivo, de uma forma geral, se recusam a fazer propostas concretas e viáveis na questão da segurança hídrica e do saneamento básico. E parece que é uma regra no Brasil, com as devidas exceções. No caso dos candidatos à presidência, essas questões são tratadas de forma quase sempre genérica, com destaque para uma quase total indiferença por parte de candidaturas mais à direita e à extrema-direita e mais cuidado por parte de candidaturas mais progressistas.
No caso do Maranhão, a situação não é diferente. O Estado amarga os piores índices em saneamento do Brasil: quase três milhões de pessoas não têm acesso à água potável e aproximadamente seis milhões não possuem atendimento de coleta de esgoto, segundo os dados do Instituto Trata Brasil (2026). Mas o debate, nem de longe, é central para os candidatos ao governo. É possível até observar um diagnóstico sobre a questão da água e do saneamento básico nos planos de governo no Maranhão, mas não se veem propostas mostrando de onde sairão os recursos, como será essa operacionalização e de que forma isto impactará na economia, na saúde e no desenvolvimento urbano dos territórios no Estado.
Na realidade, sucessivas gestões governamentais no Maranhão, seja no nível municipal ou estadual, não têm dado importância a essas questões porque os investimentos são altos, mas é provado que o retorno é mais vantajoso, sobretudo na economia em saúde. É preciso investir pesadamente em Educação Ambiental, no fortalecimento das políticas dos comitês de bacias hidrográficas, como no zelo em relação aos cursos de água no Estado, composto por rios caudalosos. Mas que vem sofrendo com imensos despejos de efluentes in natura, comprometendo a balneabilidade, o abastecimento, a pesca, a navegação, o lazer e o turismo. Há uma mentalidade política atrasada e mesquinha no Maranhão. Ainda imperam as relações clientelistas e patrimonialistas. Portanto, os objetivos por parte de prefeitos e governadores são outros, alheios, na maioria das vezes, aos anseios e reais necessidades das populações.
O fato é que a questão do tratamento de esgoto e do acesso à água, tanto no Maranhão, quanto no Nordeste e no Brasil, deve ser prioridade no que tange à questão das políticas urbanas. O “novo” marco legal do saneamento básico (Lei nº 14.026/2020) ainda não avançou como o esperado, mesmo com a possibilidade para investimentos privados, muito embora os aportes financeiros na área tenham avançado mais no governo Lula do que no governo anterior, de Bolsonaro. Além disso, é preciso um esforço hercúleo no sentido de debater, articular e efetivar políticas urbanas de acesso à água e ao tratamento de esgoto, de forma prioritária, de modo a levar qualidade de vida às populações excluídas nos tecidos urbanos.
Pelo exposto, voltando para São Luís, é preciso afirmar que quem pode pagar por água na cidade possui rede coletora de esgoto e tem carros-pipa à disposição, como os moradores dos condomínios fechados da chamada “Península” da Ponta D’areia, território de maior valorização imobiliária do meio-norte brasileiro. Ao contrário dos moradores da periferia urbana ludovicense, onde não há rede coletora de esgoto, nem mesmo abastecimento de água eficiente, territórios onde a população anda muito ao carregar, todos os dias, baldes e toneis pesados.
E a tendência nos próximos meses em relação ao abastecimento de água em São Luís é de piora, isto porque as temperaturas na cidade e no Estado (segundo semestre em curso e primeiro semestre de 2027) devem aumentar por influência do fenômeno do Super El Niño, responsável também por afetar negativamente os aportes pluviométricos em todo o Maranhão, o que ocasionará uma diminuição dos volumes dos aquíferos e os níveis do leito do rio Itapecuru, fontes de abastecimento na ilha. E as diferenças de classe persistirão, pois, mesmo com deficiências no abastecimento de água, classes abastadas têm à sua disposição carros-pipa, geláguas e água mineral, ao contrário das populações marginalizadas no espaço urbano, muitas delas desprovidas de banheiros em suas humildes casas, onde esgotos correm a céu aberto em suas portas e bairros, e que todos os dias lutam com dificuldades por acesso a comida e água.
*Luiz Eduardo Neves dos Santos é geógrafo, professor associado na Universidade Federal do Maranhão (UFMA), no curso de graduação em Ciências Humanas – Geografia (CCPi) e no curso de pós-graduação em Cultura e Sociedade (Mestrado e Doutorado/PGCult). Coordenador regional do Núcleo São Luís do INCT Observatório das Metrópoles.
**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.


