A virada de Lula no dia 25 de outubro de 2026 reforça uma ideia às vezes esquecida: a política com “P” maiúsculo, ou a grande política, se faz também desafiando probabilidades e tendências consolidadas, em vez de simplesmente se conformar a elas. Agora, é preciso que essa ideia não volte ao esquecimento depois da eleição, mas se torne uma referência para o governo reeleito. Uma leitura atenta dos registros da virada histórica no segundo turno pode contribuir para isso.
Há quase quinze anos, o cientista político André Singer identificou como característica central do lulismo o encontro entre a imagem de um líder político de origem popular, Lula, e uma fração de classe específica, o subproletariado, entendido como um numeroso contingente da população historicamente submetido à extrema pobreza e precariedade das condições de trabalho e moradia. Esse encontro teria sido impulsionado, sobretudo, pelas políticas de combate à miséria e à fome implementadas após a eleição presidencial de 2002, quando a base eleitoral petista ainda apresentava uma composição mais marcadamente de classe média.
O cruzamento dos resultados das duas últimas eleições presidenciais com mais de 150 variáveis e indicadores econômicos, sociais, políticos e ambientais produzidos para os 5.570 municípios brasileiros pelo grupo Dependência, Urbanização e Política nas Cidades (DePoliCi), do INCT Observatório das Metrópoles, reafirma a atualidade da tese de Singer. A análise, desenvolvida com base no relatório de pesquisa “A Urbanização Dependente nos Municípios e Regiões”, que será lançado no dia 12 de novembro no site do INCT Observatório das Metrópoles, mostra que, em 2022, quanto maior era a proporção de trabalhadores de um município com remuneração inferior ao valor da cesta básica calculada pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), maior tendia a ser o percentual de votos válidos obtidos por Lula. Também há associações positivas entre o voto lulista e a precarização do trabalho (medida pela participação de ocupados sem vínculo formal ou por conta própria), bem como a presença de pessoas pretas, pardas e indígenas na população local. Em sentido inverso, o PIB per capita municipal apresentou associação negativa com o desempenho do candidato petista. Um índice sintético de vulnerabilidade, construído a partir dessas quatro dimensões da desigualdade, também se associou fortemente à votação em Lula, tanto em 2022 quanto em 2026. Essas relações, porém, descrevem padrões territoriais e não permitem inferir como votou cada indivíduo.
Tais clivagens também aparecem na divisão ocupacional. No universo de 14 regiões metropolitanas (Belém, Fortaleza, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Vitória, Rio de Janeiro, São Paulo, Campinas, Baixada Santista, Curitiba, Porto Alegre, Goiânia e Distrito Federal), os municípios com maior participação de ocupações do topo da hierarquia profissional, particularmente dirigentes e gerentes, tenderam a registrar proporções maiores de votos nos adversários de Lula. Em contrapartida, os que têm maior presença relativa de trabalhadores em ocupações elementares, de serviços e em parte das atividades manuais tenderam a apresentar melhor desempenho petista. Não se trata de uma divisão homogênea, pois diferentes frações ocupacionais e regiões metropolitanas apresentam exceções e nuances importantes. Mesmo assim, a tendência se confirma também em escalas mais locais, como a dos bairros. No Rio de Janeiro, por exemplo, algumas das maiores favelas, como Rocinha, Vidigal e Complexo do Alemão, estão entre os bairros com maior proporção de votação petista no segundo turno.


Contudo, a permanência dessas clivagens convive com transformações decisivas, que ajudam a compreender as flutuações das preferências eleitorais e as reviravoltas recentes. De um lado, o padrão geral mostrou expressiva estabilidade nas quatro votações realizadas nos primeiros e segundos turnos de 2022 e 2026, como demonstra a Figura 3. A vulnerabilidade, a precarização e a presença de trabalhadores com remuneração extremamente baixa continuaram positivamente associadas à votação lulista; já a integração dos municípios aos circuitos mais internacionalizados de acumulação e o PIB per capita mantiveram associações negativas.

Por outro lado, como explicar uma virada tão expressiva entre os turnos de 2026, inclusive o fato de 213 municípios terem passado da liderança de Flávio Bolsonaro à de Lula como candidato mais votado? A resposta exige olhar para duas mudanças na dinâmica da disputa: o grau de participação da população nas eleições e a ampliação relativa do voto petista em territórios nos quais ele tradicionalmente encontrava maior resistência, conforme já havia sido indicado em outro texto recente.

No contexto de permanência das grandes clivagens de classe, o primeiro fator foi a participação eleitoral. Depois de um primeiro turno relativamente morno em termos de campanha de rua, a reação à possibilidade de vitória de Flávio Bolsonaro foi acompanhada de intensa mobilização petista nas ruas e nas redes. Os resultados são compatíveis com a hipótese de que essa movimentação contribuiu para ampliar o comparecimento às urnas, embora os dados territoriais, isoladamente, não permitam medir seu efeito causal. O segundo turno de 2026 registrou o menor índice de alienação eleitoral (soma das abstenções, dos votos brancos e dos votos nulos em relação ao eleitorado apto) de toda a série das eleições presidenciais iniciada em 2002. Depois de atingir 28,83% em 2018, o indicador recuou para 24,23% em 2022 e chegou a 21,84% em 2026, uma redução de quase sete pontos percentuais em oito anos. Em números absolutos, foram aproximadamente 34,7 milhões de eleitores que deixaram de comparecer às urnas ou optaram por votos brancos e nulos, contra 42,5 milhões em 2018. Trata-se de uma reversão expressiva do crescimento da alienação eleitoral observado em parte importante da série histórica recente.

Essa queda, porém, não foi maior onde Lula é mais forte. Entre os dois turnos de 2026, a abstenção caiu 2,4 pontos percentuais nos municípios menos vulneráveis e 0,6 nos mais vulneráveis, além de ter subido na região Norte. O que mudou em relação a 2022 foi o padrão, já que naquele ano a abstenção aumentou do primeiro para o segundo turno, sobretudo nos municípios mais vulneráveis (coeficiente de 0,40 com o índice de vulnerabilidade), enquanto que em 2026 essa associação diminuiu (0,26), como mostram as Figuras 6 e 7.


O segundo fator, não menos importante, foi a ampliação relativa do voto petista em territórios onde ele é historicamente mais fraco, isto é, nos municípios menos vulneráveis e mais populosos, especialmente no Sudeste. É significativo que os municípios mais vulneráveis, situados nos quatro decís superiores do índice de vulnerabilidade, não tenham alcançado o máximo de votação lulista no segundo turno de 2026, mas no de 2022. A vitória mais recente, portanto, não decorreu simplesmente de um aumento uniforme do apoio nas bases populares. Houve também mudanças nas associações ocupacionais, já que áreas com maior presença de profissionais de nível superior, e sobretudo de técnicos de nível médio e trabalhadores administrativos, apresentaram uma inclinação relativamente mais favorável ao PT do que em 2022, ainda que a clivagem geral de classe tenha permanecido.




Há, entretanto, movimentos na direção contrária que precisam ser considerados. Áreas com maior participação de trabalhadores da agropecuária e de operadores de máquinas passaram a apresentar associações menos favoráveis ao voto lulista, enquanto os territórios com maior presença de dirigentes e gerentes continuaram fortemente refratários ao PT. Além disso, os municípios em que a agropecuária constitui a atividade econômica de maior valor adicionado vêm registrando retrações importantes na proporção do voto em Lula. Essas tendências lembram que a ampliação da coalizão eleitoral não ocorreu de maneira uniforme entre os distintos segmentos da classe trabalhadora e entre as atividades econômicas.

Assim, foi a combinação entre o aumento do comparecimento, com menos abstenção diferencial nos municípios mais vulneráveis do que em 2022, e avanços substantivos da votação petista em territórios menos propensos a essa preferência que ajudou a produzir a virada histórica. A mobilização popular nas ruas e nas redes mostrou a possibilidade de contrariar tendências políticas persistentes, inclusive a expansão da alienação eleitoral, sem que as grandes clivagens sociais do voto tenham desaparecido.
Como ensinou Antonio Gramsci, construir hegemonia exige conquistar apoio e direção política para além dos limites imediatos do próprio grupo social. Resta saber se a condução do novo governo será capaz de transformar a energia eleitoral em uma articulação política mais abrangente, preservando as conquistas voltadas ao subproletariado identificado por Singer, mas dialogando também com outras camadas da classe trabalhadora brasileira, inclusive as vinculadas à agropecuária, onde o apoio petista perdeu intensidade, e à indústria de transformação, onde isso ocorreu no primeiro turno, sem deixar de demarcar as diferenças de interesse que a separam, ou deveriam separar, das classes dominantes. A eleição mostrou que as estruturas sociais condicionam a política, mas não encerram suas possibilidades. O desafio agora é fazer dessa abertura uma orientação duradoura de governo, para além do que Singer chamou de pacto conservador e reformismo fraco.
*Erick Omena é professor do IPPUR/UFRJ e coordenador do Grupo Dependência, Urbanização e Política nas Cidades (DePoliCi), sediado no núcleo Rio de Janeiro do INCT Observatório das Metrópoles.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.


