Observatório de Política Externa Brasileira

O OPEB (Observatório de Política Externa Brasileira) é um núcleo de professores e estudantes de Relações Internacionais da UFABC que analisa, de forma crítica, a inserção internacional brasileira contemporânea. Atuando como think tank, o Observatório promove cursos e palestras, publica livros e uma newsletter quinzenal estruturada em grupos temáticos coordenados por especialistas em suas respectivas áreas: Brasil–China (Ana Tereza Marra), América Latina (Alexandre Lucchesi), Desigualdades e Diversidades (Bruna Muriel), Oriente Médio (Bruno Mendelski e Mohammed Nadir), Multilateralismo Econômico (Diego Azzi, Lucas Tasquetto, Marcelo Monteiro e Vivian Rocha), Grande Estratégia, Política de Defesa e Segurança Internacional (Elias David Morales Martinez e Flávio Rocha de Oliveira), Relações com a África (Flávio Thales), Geopolítica e Economia Política Internacional da Energia (Giorgio Romano Schutte e Igor Fuser), Participação Social na Política Externa (Gilberto M. A. Rodrigues), Imprensa e Política Externa (Ismara Izepe e Ivan Fernandes), Direitos Humanos (Jana Silverman), Brasil–EUA (Nathalia Henrich), Meio Ambiente, Clima e Agricultura (Olympio Barbanti Jr.) e Migrações Internacionais (Roberta Peres).

Celeiro ou refém do mundo: como a dependência de compradores e fertilizantes ameaça as metas climáticas do Brasil

Plantação de soja
Plantação de soja | Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O Brasil consolidou sua posição como superpotência agroalimentar ao igualar e superar os Estados Unidos na exportação de commodities

Em 2005, os Estados Unidos faturaram 137% a mais com exportações agrícolas que o Brasil. Duas décadas depois, a distância praticamente desapareceu: em 2025, os estadunidenses venderam US$ 171 bilhões em produtos agrícolas, contra US$ 169,2 bilhões brasileiros, uma diferença de apenas 1,2%, segundo levantamento do Financial Times. Com o recorde de US$ 87 bilhões exportados pelo agronegócio no primeiro semestre de 2026, alta de 6%, o Brasil pode se tornar ainda este ano o maior exportador agrícola do planeta. A notícia chega no momento em que Lula, reeleito em 25 de outubro, prepara seu quarto mandato. E chega embalada por um discurso conhecido: de que o agronegócio seria a prova da potência nacional.

Os números, no entanto, contam outra história. A ascensão brasileira deve menos a um projeto de desenvolvimento do que à erosão da posição estadunidense provocada pela guerra comercial com a China, iniciada em 2018. As tarifas de Washington e a retaliação de Pequim desviaram as compras chinesas de soja e algodão para a América do Sul, e o desvio tornou-se estrutural. No primeiro semestre de 2026, a China absorveu 69,5% da soja exportada pelo Brasil, segundo o Conselho Empresarial Brasil-China. Do outro lado, o próprio Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) projeta que as vendas agrícolas estadunidenses para a China caíram de US$ 16,2 bilhões para US$ 12 bilhões no ano fiscal de 2026, enquanto a soja dos EUA segue sujeita a uma tarifa retaliatória de 10%.

O resultado é um campo agrícola norte-americano em crise. O USDA prevê um déficit na balança agrícola dos EUA de cerca de US$ 25 bilhões, e a American Farm Bureau Federation projeta prejuízos de US$ 138 por acre na soja e de US$ 167 no milho. Nem os cerca de US$ 23 bilhões em subsídios distribuídos por Washington em 2018 e 2019 recuperaram os clientes perdidos. “Já não somos mais o fornecedor mundial de soja. Somos o fornecedor residual”, resumiu ao Financial Times um produtor de Iowa. A liderança brasileira, portanto, é em grande medida emprestada: resulta da disputa entre as duas maiores economias do mundo, e não de escolhas e projetos de desenvolvimento feitos em Brasília.

Há ainda uma ressalva que o entusiasmo costuma ignorar: as estatísticas comparadas não medem exatamente a mesma coisa. As cifras brasileiras costumam vir de séries de “agronegócio”, que incluem produtos florestais como a celulose, enquanto o USDA trabalha com outra definição de produto agrícola e com o ano fiscal norte-americano, que vai de outubro a setembro. Por esse critério, o USDA projeta exportações de US$176,5 bilhões para 2026. A ultrapassagem pode ou não se confirmar, a depender da base escolhida. Ela é, em parte, uma construção estatística mobilizada politicamente, e o seu valor simbólico supera o seu significado econômico.

O que os números revelam com clareza é a dupla dependência do modelo. O Brasil concentra suas vendas em poucos compradores e poucos produtos básicos: a China levou 53% da carne bovina exportada no primeiro semestre e, ainda assim, impôs em 2026 uma salvaguarda que corta mais de 200 mil toneladas da cota brasileira e aplica tarifa extra de 55% sobre o excedente. O Irã, destino de cerca de 20% do milho brasileiro em 2025, tornou-se um mercado de guerra. Além disso, o país importa mais de 85% dos adubos que consome e cerca de 41% da ureia importada em 2025 atravessou o Estreito de Ormuz. Até vozes do setor reconhecem o problema. O ex-presidente da Embrapa, Celso Moretti, advertiu que “uma liderança baseada apenas em toneladas será sempre mais vulnerável”. O celeiro do mundo segue, assim, refém do mundo: depende do gás e do enxofre alheios para produzir e da demanda e das regras alheias para vender. É nesse terreno que a política externa ambiental do Lula IV terá de operar.

O meio ambiente como moeda comercial

O Brasil consolidou sua posição como superpotência agroalimentar ao igualar e superar os Estados Unidos na exportação de commodities como soja, carne bovina, milho e algodão. Sob a gestão do terceiro governo de Lula, a ampliação do crédito via Plano Safra e a expansão do comércio com importantes parceiros, como a China e a União Europeia, reforçaram o papel do país na busca por ampliar a sua participação no abastecimento alimentar mundial. Contudo, essa forte presença no mercado global ampliou a exposição do setor agrícola brasileiro ao controle e às exigências socioambientais impostas pelos países compradores.

No cenário atual, a expansão contínua da cultura da soja sobre os biomas da Amazônia e do Cerrado impulsiona o aumento das taxas de desmatamento e a perda de vegetação nativa. Esse avanço expõe um impasse entre a produção agrícola e a conservação: o modelo agroexportador brasileiro, por exemplo, é completamente contrário ao Acordo de Paris. Entre diversos fatores, a expansão da fronteira agrícola por supressão florestal impede o cumprimento das metas nacionais e internacionais de combate à mudança do clima. Além disso, a própria dependência do uso extensivo da terra compromete a sustentabilidade das safras no longo prazo e contrapõe o crescimento econômico às obrigações ecológicas assumidas pelo Estado.

Essa incompatibilidade entre o ritmo de produção crescente e a preservação ambiental tímida transformou a regulação climática em uma exigência comercial indispensável. Normas de rastreabilidade, como o Regulamento de Desmatamento da União Europeia (EUDR), operam como barreiras não tarifárias que condicionam o acesso aos mercados internacionais ao desmatamento zero. Com isso, o controle ambiental deixa de ser uma questão exclusivamente doméstica e passa a determinar a competitividade e a precificação dos produtos brasileiros no comércio exterior.

Paralelamente a essas exigências externas, o cenário político interno reflete tensões legislativas. A atuação da bancada ruralista e de entidades representativas do agronegócio no Congresso Nacional negligenciam a urgência climática e têm impulsionado propostas de flexibilização do licenciamento ambiental, alterações no Código Florestal e restrições à demarcação de terras indígenas e Unidades de Conservação. Ao desestruturar os marcos regulatórios de proteção no nível nacional, o setor produtivo fragiliza a diplomacia brasileira e fornece justificativas regulatórias para que os blocos compradores apliquem sanções e restrições à compra de bens brasileiros.

Nesse contexto, para garantir a sustentabilidade econômica e a autonomia geopolítica, o Brasil precisa alinhar sua produção às exigências climáticas globais. Isso exige distanciar a expansão agrícola do desmatamento por meio do aumento de produtividade, da recuperação de pastagens degradadas e da ampliação da integração lavoura-pecuária-floresta. O fortalecimento de sistemas transparentes de rastreabilidade, combinado com a aplicação atual da legislação socioambiental, permitirá ao país preservar seu espaço nos mercados centrais, cumprir os compromissos climáticos internacionais e consolidar sua liderança agrícola sem comprometer a estabilidade dos biomas nacionais.

Previsões para o governo Lula IV

Para o quarto mandato de Lula, a tendência é de que a política externa brasileira, voltada à agenda ambiental, continue ocupando um espaço estratégico na tentativa de consolidar o país como liderança nas negociações internacionais. O presidente tem como objetivo alcançar o desmatamento líquido zero até 2030, meta indicada durante a sua campanha eleitoral com a finalidade de associar a preservação ambiental, desenvolvimento econômico sustentável e o protagonismo diplomático. Contudo, avançar com esse compromisso e obter resultados concretos exigirá mais do que apenas uma transformação nas políticas de manutenção, uma vez que a nossa competitividade internacional permanece estritamente atrelada à expansão das exportações de commodities agrícolas, caracterizando-a como a principal contradição no modelo econômico.

A partir dessa perspectiva, as decisões ambientais de Brasília poderão estar submetidas a pressões políticas e econômicas, tanto no nível doméstico quanto no cenário internacional. No mercado nacional, setores do agronegócio tendem a pressionar o governo por condições favoráveis à produção e flexibilização de exigências ambientais, enquanto, no internacional, instrumentos regulatórios como o Regulamento Europeu sobre Produtos Livres de Desmatamento (EUDR) evidenciam que não basta uma política nacional de desmatamento líquido zero, mas também deve haver a comprovação de que cada produto contemplado pela regulamentação não foi produzido em áreas desmatadas após 31 de dezembro de 2020. Assim, as exigências de rastreabilidade e comprovação da origem dos produtos comercializados demonstram que a questão ambiental deixou de ser exclusivamente uma pauta diplomática e passou a fazer parte das condições para ter acesso a determinados mercados. Com isso, a política ambiental assume também um papel comercial, preservando a reputação internacional do Brasil e evitando que a competitividade das suas exportações seja comprometida.

Diante desse cenário, a atmosfera econômica desse desafio fica evidente quando observamos que, em 2025, o agronegócio respondeu por 48,5% das exportações brasileiras, alcançando US$ 169,2 bilhões em vendas externas, enquanto a relevância dos mercados internacionais também se manifesta no crescimento de 14,8% das exportações do setor para a União Europeia entre maio e setembro de 2026, em comparação com o mesmo período do ano anterior, totalizando US$ 12,21 bilhões. Esses números demonstram a importância estratégica do mercado europeu para o agronegócio brasileiro e reforçam que a adequação às exigências socioambientais não representa apenas uma questão regulatória, mas também uma condição relevante para preservar e ampliar a participação brasileira no comércio internacional.

Com isso, a tendência é que a política externa ambiental do governo Lula IV continue marcada pela tentativa de conciliar a expansão da capacidade agroexportadora brasileira com o fortalecimento de sua posição como liderança ambiental internacional. O desafio principal será demonstrar que o crescimento econômico do setor pode caminhar junto à preservação ambiental, sem que os compromissos assumidos internacionalmente se tornem barreiras à competitividade nacional e sem que os interesses comerciais se sobreponham à agenda climática. O Brasil terá que enfrentar uma questão que ultrapassa a dimensão ambiental: como transformar sua crescente relevância no comércio agrícola mundial em maior autonomia internacional, mesmo diante da dependência das condições comerciais e regulatórias estabelecidas pelos principais parceiros comerciais.

*Giovana Amorim Plácido, Lucca León Franco, Márcio Rocha da Silva Filho e Pedro Henrique Bezerra da Silva são membros do Observatório de Política Externa Brasileira.

*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Gia Matheus Almeida

|

Newsletter