Por Bruno Lazzarotti, Pedro Soares, Marina Pinheiro
No final de Outubro deste ano, uma ação polêmica do governo federal foi a proibição das bets no Brasil, por meio de medida provisória. A decisão gerou debates na sociedade civil. De um lado, clubes de futebol, influenciadores e casas de apostas alegaram que a medida teria impactos negativos na economia, considerando os rendimentos gerados por patrocínios, publicidade e apostas.
Do outro, entidades civis e representantes dos setores comercial e da saúde defenderam a proibição, argumentando que o vício em jogos de azar representa um risco social, sobretudo para os mais vulneráveis.
Segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), entre 2023 e 2024, cerca de R$ 144 bilhões foram destinados às casas de apostas, recursos que poderiam ser direcionados ao comércio de alimentos, bens de consumo e etc. Diante da controvérsia, o STF convocou uma audiência pública para discutir a legitimidade da medida.
Entretanto, a composição da audiência suscitou questionamentos. Dos 30 convidados com direito à fala, 27, já excluídos aqui parte dos órgãos governamentais, possuem vínculos econômicos diretos com as bets, entre clubes de futebol, associações e confederações esportivas. Entre os participantes estavam clubes como Flamengo, Fluminense, Botafogo, Cruzeiro e São Paulo, que, estes, somados aos outros 15 clubes de maiores receitas de 2025, segundo levantamentos da Sports Value, arrecadaram aproximadamente R$1,2 bilhão em patrocínios de bets em 2025.
A desigualdade também aparece no tempo de exposição: os favoráveis à liberação das bets tiveram 230 minutos de fala, enquanto os contrários dispuseram de apenas 80 minutos. Considerando exclusivamente os representantes da sociedade civil, a oposição contou com apenas 30 minutos, conforme o despacho da ADI 8.027, sob relatoria do ministro Luiz Fux.
Diante desse cenário, questiona-se até que ponto a audiência proporcionou uma representação plural dos interesses sociais. Embora a participação dos setores econômicos seja legítima, a predominância de entidades financeiramente beneficiadas pelas bets evidencia um possível conflito de interesses. Assim, um espaço destinado ao debate democrático corre o risco de privilegiar a posição dos que se beneficiam do mercado de apostas, em detrimento dos setores críticos ou negativamente afetados por ele.
Custo para economia, a família, a saúde e o trabalho
Afinal, tanto se fala sobre “o dinheiro das bets”, mas de onde vem e para onde vai esse dinheiro?
O dinheiro apostado não desaparece apenas das contas individuais: ele deixa de circular em outras partes da economia. A notícia de que os gastos em supermercados cresceram 6,5% após a proibição das bets, segundo a Abras, ajuda a dimensionar essa disputa pelo orçamento familiar. O dado não prova que a proibição explique toda a alta, mas suscita uma pergunta incômoda aos defensores do setor: quanto do faturamento das plataformas corresponde a compras que deixam de ser feitas?
Em simulações, o Made, da FEA-USP, estimou que as apostas teriam deslocado entre R$117 bilhões e R$141 bilhões da atividade de outros setores em 2025. Não são perdas observadas diretamente, mas cenários que contestam a associação entre crescimento das bets e prosperidade econômica.
O impacto é cruel para quem já vive com a renda comprometida. Dinheiro perdido em apostas pode ser o valor que falta para comprar alimentos, pagar o aluguel ou manter as contas em dia. A pesquisa Mulheres & Bets, mostra que as consequências alcançam também quem nunca apostou: mulheres que absorvem dívidas, conflitos e responsabilidades deixadas por familiares. Num país marcado pela insegurança financeira, a promessa de ganhos rápidos se alimenta de necessidades legítimas.
O desejo de melhorar de vida torna-se oportunidade comercial, enquanto o risco e as consequências quase certas da perda permanecem dentro de casa.
Esse custo também aparece na saúde e no trabalho. Segundo levantamento do G1 com dados da Previdência, 377 benefícios por afastamento decorrente de ludopatia foram concedidos até agosto de 2026, superando o total do ano anterior. O IEPS, no dossiê “A saúde dos brasileiros em jogo”, estima em R$38,8 bilhões anuais os custos sociais associados a apostas e jogos de azar, sobretudo os relacionados à saúde.
Embora se trate de estimativa baseada em parâmetros internacionais, e não de despesa registrada pelo SUS, o valor dimensiona danos ausentes das campanhas publicitárias: sofrimento psicológico, desgaste das relações familiares e necessidade de atendimento. Chamar tudo isso de simples entretenimento é transferir para o indivíduo e sua família a responsabilidade pelos efeitos de um mercado organizado para iludir, induzir comportamentos impulsivos e não refletidos, impor perdas e criar dependência.
É legítimo considerar os empregos, os tributos e os patrocínios movimentados pelas bets. O problema começa quando esses benefícios recebem toda a atenção, enquanto os prejuízos são tratados como episódios isolados de falta de controle pessoal, como se fossem uma fraqueza individual ou, pior, um problema de caráter. Uma atividade econômica não pode ser avaliada apenas pelo que arrecada ou pelo que rende aos investidores: importa saber o que retira do cotidiano das pessoas e quais custos impõe à sociedade.
A controvérsia no STF não se resume à liberdade de exploração de um negócio. Está em jogo a escolha de quais interesses terão maior peso na decisão. Se o lucro é concentrado, mas as perdas atingem famílias, trabalhadores e serviços públicos, a saúde coletiva e a proteção social precisam ocupar o centro do julgamento, não suas margens.
Bruno Lazzarotti Diniz Costa é doutor em Ciências Humanas: Sociologia e Política pela UFMG.
Pedro Henrique Soares Cavalcante é graduando do curso de Administração Pública pela Fundação João Pinheiro e extensionista no Observatório das Desigualdades.
Marina Diniz Ferreira Pinheiro é bolsista no Observatório das Desigualdades e estudante da Fundação João Pinheiro
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Leia outros artigos do Observatório das Desigualdades em sua coluna no Brasil de Fato MG
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Este é um artigo de opinião. A visão dos autores não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.


