Paulo Nogueira Batista Jr.

Economista, foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai, de 2015 a 2017, e diretor executivo no FMI pelo Brasil e mais dez países em Washington, de 2007 a 2015. Publicou pela editora LeYa o livro O Brasil não cabe no quintal de ninguém, segunda edição, 2021.

O Brasil não cabe no quintal de ninguém?

No audio source provided.

Amazônia
Virada Cultural Amazônia de Pé é uma campanha de preservação da floresta amazônica, que tem como tema da quinta edição “Cada voto pela Amazônia conta”. | Crédito: Foto: Fernando Frazão/ Agência Brasil

Soberania e integridade nacionais estão ameaçadas como nunca. Porque concorre à Presidência da República um Flávio Bolsonaro, que cabe no quintal de qualquer um

Em seu discurso na ONU, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva soltou a frase: “O Brasil não cabe no quintal de ninguém!”. E foi interrompido por aplausos. Fiquei honrado com o fato de ele ter recorrido ao título de um livro meu, de 2019. A frase parece estar se tornando um slogan da campanha eleitoral. Quase desmaiei, cravejado de brilhantes, como diria Nelson Rodrigues.

Mas a frase é muito mais do que um slogan. Ela alude, primeiramente, às dimensões do nosso país, que é um dos gigantes do mundo. Temos o quinto maior território do planeta, a sétima maior população e a oitava economia do mundo. O Brasil faz parte de um grupo de apenas cinco países, juntamente com China, Índia, Rússia e Estados Unidos, que integram a lista das dez maiores nações em termos territoriais, demográficos e econômicos.

Temos, também, imensas reservas de terras raras e minerais críticos, urânio, petróleo, minério de ferro, entre outros minerais. A maior biodiversidade do mundo. E, além disso, uma belíssima tradição cultural nacional, que suscita a admiração de outros países. E, como se não bastasse, temos os brasileiros, um povo admirável em muitos sentidos, entre os quais humanidade, simpatia, cordialidade, criatividade e capacidade de trabalho. 

E, no entanto, o leitor ou leitora há de ter reparado que eu coloquei um ponto de interrogação no título deste artigo. Por quê? É que a soberania e a integridade nacionais estão ameaçadas como nunca. Por dois motivos interligados. Primeiro, porque concorre à Presidência da República um Flávio Bolsonaro, que cabe no quintal de qualquer um. E disputa com chance de vencer, a julgar pelas pesquisas.

Trata-se de um político que, entre muitos defeitos graves, se apresenta, sem nenhuma vergonha, como candidato a vassalo dos EUA de Trump! Basta lembrar que ele ofereceu generosamente criar, em caso de vitória eleitoral, “uma equipe de transição à disposição do governo americano”! Por incrível que possa parecer, essas foram as palavras textuais de uma carta de agradecimento de Marco Rubio, Secretário de Estado de Trump.

Há um agravante – e este é o segundo motivo do ponto de interrogação. A fase em que se encontram os EUA, que seguem um imperialismo agressivo e intervencionista, que tem sido referida por alguns analistas, entre eles Vijay Prashad, como hiperimperialismo. Basta lembrar o que aconteceu na Venezuela, transformada em protetorado dos EUA.

O governo Trump não esconde, antes proclama, as suas intenções. Afirmou em documentos oficiais e diversos pronunciamentos do presidente e seus ministros que o Hemisfério Ocidental, da Groenlândia à Patagônia, é sua área de influência exclusiva. Essa hegemonia sobre o hemisfério não estará completa sem a submissão do Brasil, o maior país da América Latina. 

A forma mais fácil de alcançar esse objetivo é eleger um Flávio Bolsonaro. O Brasil será conquistado sem a necessidade de disparar um tiro sequer!

Caso Lula se eleja, o problema não estará resolvido. A verdade é que não estamos bem preparados para enfrentamentos militares. O problema é antigo. Escrevi a respeito em um dos capítulos de “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”, sob o título “Um país desarmado”.

Suponho que Lula e sua equipe estejam totalmente conscientes da urgência de reforçar a defesa nacional. Imagino que o esforço já tenha começado, ao menos em 2026, depois do que vimos na Venezuela, em Cuba e no Irã. Com base em nossos próprios recursos, reforçados por cooperação militar e tecnológica com países como França, Turquia, Irã, Rússia e China, e com um esforço concentrado do governo e do país, teremos condições de superar essa vulnerabilidade estratégica.

E retirar o ponto de interrogação da frase.

*Paulo Nogueira Batista Jr. é autor, economista e escritor. Foi vice-presidente e fundador do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai, de 2015 a 2017, e diretor executivo no FMI pelo Brasil e mais 10 países em Washington, de 2007 a 2015. Publicou em 2019, pela editora LeYa, o livro “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”.

*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato

Editado por: Rodrigo Gomes

|

Newsletter