Este é provavelmente o último artigo que escreverei antes do segundo turno da eleição presidencial. É, repito, a eleição mais arriscada das nossas vidas. Já tentei explicar por que em artigos e entrevistas anteriores.
Hoje, queria fazer algo diferente: falar do papel de cada um de nós na eleição. Quem somos “nós”? Acredito que a maioria esmagadora dos que estão lendo este artigo seja de esquerda ou centro-esquerda. E que a maioria vote em Lula. É com vocês que quero conversar hoje.
Um parêntese: se houver, por um acaso, um bolsonarista arraigado perdido por esta página, peço gentilmente que se retire. Trata-se de uma conversa estritamente particular.
Continuo. As pessoas que costumam me ler estão conscientes do desastre que representaria uma vitória de Flávio Bolsonaro e a volta da extrema direita ao comando do Executivo, especialmente depois do Congresso que resultou do primeiro turno. O risco é multidimensional — o bolsonarismo ameaça a soberania nacional, a democracia e o povo brasileiro.
Sob um eventual governo Flávio Bolsonaro, quem paga a conta do ajuste fiscal?
Antes de falar do nosso papel na última semana da campanha, gostaria de abordar os efeitos sociais nocivos de certas políticas que serão provavelmente adotadas em caso da volta do bolsonarismo à Presidência.
Pode-se presumir que o ajuste fiscal programado pelas forças que apoiam Flávio Bolsonaro recairá principalmente, talvez exclusivamente, sobre os pobres e a classe média baixa. O corte de gastos atingirá, tudo indica, os programas sociais, a educação e a saúde. Acabará a política de aumento real do salário mínimo. As pensões e aposentadorias serão desvinculadas do salário mínimo e podem sofrer redução em termos reais.
O candidato não explicita esses pontos no seu programa de governo e até nega que recorrerá a esse tipo de medida. Mas quem acredita nas palavras de um mentiroso contumaz? Os seus assessores econômicos falam, por exemplo, em economizar com medidas como a diminuição do número de ministérios, reforma administrativa e cortes nos supersalários. Ainda que defensáveis, essas providências não serão nem remotamente suficientes para alcançar o resultado global que tem sido anunciado pela equipe bolsonarista, algo como 1,5% do PIB ou R$ 200 bilhões nos primeiros 12 ou 18 meses do governo. Para alcançar esse resultado, um eventual governo Flávio Bolsonaro teria que recorrer às medidas mencionadas no parágrafo anterior, uma vez que certamente não tocará nas rendas e privilégios dos ricos e super-ricos, nem nas emendas parlamentares.
O impacto perverso do ajuste fiscal planejado decorre do fato de que a redução do déficit público virá pelos cortes na área social, isto é, dos gastos que beneficiam sobretudo os pobres e a classe média baixa. Já os ricos e super-ricos continuarão no bem-bom, beneficiando-se de juros extravagantes — o paraíso dos rentistas — e contribuindo relativamente pouco para o pagamento dos tributos — o paraíso fiscal dos ricos e super-ricos. Ou seja: com Flávio Bolsonaro virá um ajuste regressivo que trará mais concentração da renda e da riqueza no Brasil.
O impacto recessivo de um ajuste fiscal drástico
Mas há um agravante. Tudo indica que o “tesouraço” prometido por Flávio Bolsonaro provocará também uma recessão na economia brasileira, aumentando o desemprego e atingindo, também por essa via, os trabalhadores do país. E reparem que os economistas ligados ao mercado financeiro já estão dizendo que um ajuste de 1,5% do PIB não será suficiente. Querem um ajustamento fiscal ainda mais drástico.
Os defensores desse tipo de ajustamento alegam que o impacto recessivo seria pequeno ou inexistente. O argumento teórico, muitas vezes desmentido na prática, é que um choque fiscal restabeleceria a confiança nas contas públicas e no país, levando a uma diminuição imediata das taxas de juro. A queda nos juros estimularia o consumo e o investimento do setor privado, compensando ou anulando o efeito do choque fiscal em termos de contração da demanda. É a chamada “fada da confiança”. Alguns economistas mais extremados chegam a sustentar que essa fada é tão poderosa que um choque fiscal seria expansionista em termos de atividade econômica, e não recessivo.
A experiência não confirma essas teorizações. Os juros podem até cair com o choque fiscal, mas a queda será provavelmente insuficiente para compensar o efeito recessivo do corte de gastos — inclusive porque esses cortes reduzirão a renda dos mais pobres, que têm elevada propensão marginal a consumir.
O que ensina a evidência empírica de muitos países? Dois pontos: a) a relação de causalidade do déficit público para os juros é tênue e incerta; mas b) o que é líquida e certa é a relação de causalidade oposta — dos juros para o déficit público.
Quando a dívida governamental é elevada e de prazo relativamente curto, como no caso do Brasil, a correlação entre juros e déficit é muito alta. Nessas condições, a correlação corresponde a uma relação de causalidade dos juros para o déficit. Qualquer variação mais expressiva da taxa de juros e, portanto, do custo da dívida pública, provoca efeito de grande magnitude sobre o déficit e a dívida. Se a turma da bufunfa quisesse realmente reduzir o “risco fiscal”, apoiaria uma diminuição da taxa de juros por meio de um abrandamento da política monetária do Banco Central.
Portanto, um ajustamento drástico das contas do governo, à la Javier Milei, levaria provavelmente a uma recessão. Tanto mais que a economia já está em desaceleração em 2026 por força dos juros muito altos praticados pelo Banco Central no governo Lula 3. A combinação de política monetária restritiva com um choque fiscal derrubaria a atividade econômica, geraria desemprego e redução dos salários.
Em resumo, o “tesouraço” proclamado por Flávio Bolsonaro atingirá: I) os programas sociais de que se beneficiam os brasileiros de menor renda e II) será recessivo, provocando desemprego e queda de salários e prejudicando, também assim, o povo brasileiro.
O que fazer?
Com as grandes manifestações pró-Lula que vêm ocorrendo nas ruas do Brasil, parece claro que a eleição não está perdida. Cabe agora a cada um de nós dar a sua pequena contribuição, dentro dos nossos limites pessoais, para assegurar a vitória. Não é pelo Lula, vejam bem, mas pelo Brasil e pelo povo brasileiro. Lula é um instrumento, o único que temos agora, para evitar que nosso país caia no abismo bolsonarista.
O que podemos fazer? Algumas coisas. Primeiro, participar das manifestações que acontecerão até o segundo turno. Tomar conta das ruas fortalece a candidatura de Lula e constitui, além disso, um aviso à turma da bufunfa e aos donos do poder. É como se disséssemos: “Membros da elite predatória, vejam bem a crise social e política que vocês estão contratando ao apoiar Flávio Bolsonaro”. Lula é um fator de moderação e equilíbrio. Um governo bolsonarista suscitará uma grande confrontação no país, ameaçando até mesmo a casta de privilegiados que dão as cartas no Brasil.
Segunda tarefa nossa: intensificar a ação nas redes sociais. As big techs são basicamente contra nós, mas podemos mesmo assim causar impacto e reduzir a hegemonia da extrema direita nesse campo. Muitos jovens de esquerda, com forte presença digital, foram eleitos para o parlamento e constituem exemplos de como se pode prevalecer mesmo com o viés de plataformas digitais como Meta, YouTube, TikTok e X.
Terceira tarefa, não menos (talvez mais) importante, é o corpo a corpo nas interações pessoais com eleitores incautos de Flávio Bolsonaro, com os indecisos ou com aqueles que não votaram no primeiro turno. Nas redes sociais, excetuados os que têm muitos seguidores, falamos basicamente com a nossa bolha e pregamos para convertidos. A gente se incentiva mutuamente, mas não ganha muito voto. O que importa é sensibilizar os que estão em cima do muro e mesmo alguns eleitores desavisados de Bolsonaro. Muitos brasileiros mais pobres votaram nele e estarão entre as vítimas do ajuste fiscal que ele planeja.
Por estes e muitos outros motivos, devemos explicar aos eleitores não-radicais de Flávio Bolsonaro, aos vacilantes ou àqueles que querem se abster, por que não se deve ficar neutro e, muito menos, votar pela volta do bolsonarismo. Precisamos deixar claro aos que pretendem votar nulo ou deixar de votar que eles também serão responsáveis pelo desastre de uma eventual vitória bolsonarista.
Portanto, mãos à obra. É guerra! Os próximos dias serão decisivos para o futuro do nosso país, das nossas famílias e dos nossos filhos e netos. Vamos deixar de lado tudo que puder ser adiado e concentrar esforços em trazer votos para Lula.
*Paulo Nogueira Batista Jr é autor, economista e escritor. Foi vice-presidente e fundador do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos Brics em Xangai, de 2015 a 2017, e diretor executivo no FMI pelo Brasil e mais 10 países em Washington, de 2007 a 2015. Publicou em 2024, pela Editora Contracorrente, o livro Estilhaços.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.


