Imagine ser doutora em Imunologia, professora e chefe de laboratório e, ao descrever sua pesquisa para os seus colegas do Instituto Feinstein de Pesquisa Médica, em Nova York, ouvir de um deles um “eca, que nojo”. Foi o que aconteceu com a Dra. Christine Metz, que nem estava apresentando nada sobre fezes ou algo do tipo. Sua pesquisa é sobre sangue menstrual.
A pesquisadora é codiretora do inovador Estudo ROSE, focado na análise de fluidos menstruais para o diagnóstico precoce e não invasivo da endometriose. O “nojo” do colega, no entanto, é bem representativo da forma como a ciência e a medicina tratam as questões ligadas ao corpo feminino. E é ilustrativo da nossa ignorância, enquanto humanidade, sobre o que acontece no organismo e como podemos avançar no tratamento de doenças complexas ligadas ao útero, principalmente na fase em que elas ainda são pouco visíveis e mais facilmente tratáveis.
O mais impressionante é pensar que, historicamente, sempre houve financiamento e interesse massivo da ciência e da medicina em campos como o da estética, focados em moldar o corpo feminino para ser magro, jovial e bonito. Enquanto isso, o funcionamento interno, as dores crônicas e as patologias ligadas ao ciclo reprodutivo foram empurradas para a invisibilidade do gender data gap (a lacuna de dados de gênero).
No livro Útero, a parteira britânica Leah Hazard descreve a entrevista com Christine Metz e outras pesquisadoras, anunciando tanto as boas notícias nos estudos ligados ao útero quanto detalhando as dificuldades que elas têm para conseguir recursos e investimentos para seguir trabalhando.
No Brasil não é diferente, mas temos uma boa notícia. Em junho, o Ministério da Saúde anunciou um investimento inédito em pesquisas para a produção de conhecimento científico, novas tecnologias e soluções voltadas para a endometriose, dor pélvica e saúde menstrual no Sistema Único de Saúde (SUS). Serão R$ 60 milhões para uma série de ações, sendo a principal uma chamada pública do CNPq estruturada em cinco eixos: prevenção/causa, diagnóstico, tratamento, biorrepositório e impacto social. O Instituto Alana também se comprometeu a estruturar uma rede nacional de pesquisa integrada que visa aprimorar o atendimento público de saúde voltado às mulheres.
A ideia é acelerar diagnósticos, melhorar o acolhimento médico e promover a dignidade menstrual. Deu gosto de ler a notícia e ver que o governo decidiu investir na ciência como uma ferramenta para a inclusão social e a melhoria da qualidade de vida das mulheres brasileiras.
A iniciativa é um desdobramento importante das ações que estão sendo realizadas sobre o tema, incluindo a disponibilização de um curso e a distribuição de absorventes no Programa Farmácia Popular, desde o lançamento do Programa Dignidade Menstrual, em 2023. Escrevi sobre isso no último texto desta coluna.
Saúde reprodutiva
É uma excelente notícia. Ainda mais porque a garantia da saúde menstrual envolve ter informações sobre o nosso ciclo menstrual e o nosso corpo, incluindo sinais de alerta sobre doenças e possíveis problemas, mas muitas vezes simplesmente não temos as informações.
Se considerarmos que somos 104,5 milhões de mulheres no país e que a estimativa é que 30% de nós estejam sofrendo com endometriose, o problema tem uma dimensão significativa para a saúde pública. Hoje, a maioria das mulheres brasileiras leva de sete a nove anos para ter um diagnóstico correto de endometriose. Sim, sete a nove anos sangrando excessivamente, sentindo dores, fazendo tratamentos errados ou tendo seu relato deslegitimado por ignorância dos profissionais e falta de acesso a exames.
A endometriose é um dos problemas mais graves quando falamos em saúde menstrual. Além de ser uma doença crônica altamente subdiagnosticada, pode levar a outros problemas, inclusive sociais — como, por exemplo, o absenteísmo escolar ou laboral feminino. O Instituto Alana, parceiro do Ministério da Saúde, vem fazendo um trabalho muito interessante nesse tema, com divulgação de dados e informações, tentando diminuir os tabus e promover uma percepção mais positiva do assunto.
O anúncio do Ministério da Saúde gera a expectativa de que o Brasil pode fazer parte da mudança de paradigma liderada por pesquisadoras como Metz e por novas frentes de biotecnologia, o que vai além do ganho clínico. Promover a ciência ligada à menstruação e à saúde das mulheres é um avanço na saúde reprodutiva de todas nós.
*Priscilla Brito é cientista política, feminista e escritora.
**Este é um artigo de opinião. A visão das autoras não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato – DF.
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