Priscilla Brito

Priscilla Brito é cientista política, feminista e escritora.

O voto das mulheres vale muito

Crédito: Edilson Rodrigues / Agência Senado
O ataque ao direito ao voto para mulheres passou a ser uma das principais pautas da extrema direita | Crédito: Edilson Rodrigues / Agência Senado

A extrema direita fala em abolição do voto feminino porque sabe que ele vale a democracia e faz a diferença nas eleições

Na coluna de setembro, contei sobre uma campanha de incentivo ao voto feminino da qual participei em 2022.  Mais do que promover determinadas candidaturas ou apelar para um slogan simples como “vote em mulheres”, a proposta era convocar as mulheres a votar nas propostas para questões cotidianas da vida delas. Os gastos com o mercado, o acesso à saúde, a possibilidade de os filhos estudarem e melhorarem de vida, tudo isso está na ordem do dia e até aparece no discurso dos candidatos, mas nem sempre eles se importam na prática. O voto tem um alto valor, nesse sentido, porque é a forma de as pessoas demonstrarem massivamente o que querem.

No segundo turno das eleições presidenciais deste ano, a virada histórica de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) teve, de novo, a ver com as mulheres. Segundo as primeiras análises, elas foram uma força decisiva para a eleição, um fenômeno sobre o qual já havia escrito em 2022. Embora em 2026 tenha chamado atenção a imensa aliança geracional de jovens e idosos, essa mobilização não teria sido suficiente se as mulheres não tivessem se incomodado com a postura agressiva e desrespeitosa de Flávio Bolsonaro nos debates, o que enterrou o esforço da campanha dele de tentar comunicar as pautas de interesse desse eleitorado.

Somos a maioria do eleitorado (52,8% do total de eleitores aptos a votar em 2026) e isso é tão importante que, hoje, mesmo a extrema direita se beneficia do apelo ao voto feminino e da necessidade de eleger mulheres, como mostra a eleição de lideranças femininas do PL com votações recordes em diversos estados. Aliás, algumas mulheres se destacam pela adesão ao discurso da extrema direita, vocalizando pautas antifeministas. Nas últimas eleições, uma influenciadora conservadora foi eleita com uma votação expressiva e chamou atenção nas redes ao se declarar contra o voto feminino.

É um aspecto central da dominação masculina essa necessidade de subjugar a cidadania das mulheres, atribuindo a elas uma suposta incapacidade de votar de forma racional.

A ideia de abolir o voto feminino voltou a chamar atenção nos Estados Unidos, onde alguns influenciadores passaram a propor um modelo de voto “familiar”, contado por domicílio, em substituição ao voto individual. A discussão apela para a revogação da chamada 19ª Emenda, que instituiu o voto para as mulheres em 1920. O motivo é o que os especialistas vêm chamando de “gender gap”: mulheres estadunidenses, de maneira geral, tendem a preferir os Democratas, e os homens, os Republicanos. Estamos mais propensas a discursos mais inclusivos, com atenção às minorias e à diversidade de gênero, e a uma agenda pautada por políticas públicas, enquanto eles apoiam um discurso mais agressivo, baseado em uma agenda econômica ultraneoliberal. Por isso, essas figuras da extrema direita falam que as mulheres “votam mal” e deveriam perder o direito de exercer sua cidadania nas eleições.

Diferente dos Estados Unidos, onde o voto feminino é garantido por uma emenda à Constituição, sendo, portanto, mais facilmente contestado, no Brasil o voto direto, secreto, universal e periódico é uma das cláusulas pétreas da Constituição brasileira. Ou seja, não pode ser alterado sem a elaboração de uma nova Carta do zero.

No segundo turno, Flávio Bolsonaro (PL) falou em propor uma nova Constituição. Com maioria no Congresso e um contexto bem diferente do pós-ditadura que marcou a Constituinte de 1988, o resultado poderia ser desastroso. Ainda bem que não foi. Viramos.

*Priscilla Brito é cientista política, feminista e escritora.

**Este é um artigo de opinião. A visão das autoras não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato – DF.


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Editado por: Clivia Mesquita

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