Nenhum psicodélico ou biocultura substitui um Estado presente. Escrevo sobre esse tema há uma década. Mas, quando cheguei a Beijing, na China, comecei a ter uma percepção que não me abandonou durante as duas semanas em que estive estudando cultura e comunicação, entre a capital chinesa, Chengdu e Xizang.
Ver um Estado que cuida de verdade da sua população é perceber que o cuidado social atua numa dimensão que nenhuma biocultura, psicodélico, medicamento ou ritual alcança sozinho. Não porque substitua essas ferramentas, mas porque enfrenta parte das condições que produzem sofrimento em escala coletiva.
Segurança, educação, saúde, moradia, transporte e trabalho digno não eliminam a depressão. Seria desonesto afirmar isso. Os índices de depressão da China estão dentro da média mundial da Organização Mundial da Saúde (OMS), mas, sem dúvida, reduzem o peso de viver em permanente estado de alerta, diminuem a insegurança cotidiana e oferecem uma base concreta para que a vida aconteça com mais dignidade.
Foi justamente isso que comecei a sentir andando pelas ruas daquelas cidades. Ou melhor: foi a ausência de uma sensação que carrego desde sempre: o medo. Sou formada numa sociedade que não é segura, e esse trauma coletivo não desaparece depois de trinta horas de viagem para o outro lado do mundo. Eu andava com a mão na bolsa, evitava tirar o celular do bolso na rua, afinal, quem mora em São Paulo sabe o risco de caminhar olhando o telefone, principalmente perto de bicicletas, e havia bicicletas por toda parte. Mesmo num lugar seguro, meu alarme interno continuava ligado. Mas era só o meu e dos meus colegas latino-americanos que compartilharam da mesma experiência.
Isso não significa romantizar a China, nem defender que se reproduzam aqui as ações chinesas. O que me interessa é por que insistimos em tratar substâncias como solução para problemas que, na raiz, são estruturais e coletivos?
Sei que pode vir alguém dizer: “Mas, Carol, lá todas as substâncias são proibidas.” Para quem está dentro de um conceito de liberdade forjado para atender interesses externos, isso soa um absurdo. Recomendo estudar a Guerra do Ópio e entender como a China enxerga essa questão dentro do próprio país. Dizer só que é “proibido” e parar por aí é leviano. Qualquer informação sobre a China sem contexto vira superficial e ajuda a construir um ideário sobre a política chinesa que só atende interesses de países como os Estados Unidos.
A fé que sobra quando o Estado falta
Todo mundo acredita em alguma coisa, à sua maneira. Ter fé não é um problema. O problema é quando ela deixa de ser parte da vida para se tornar a única rede de proteção disponível. Quando o Estado garante educação, saúde, segurança, transporte, moradia e condições mínimas de dignidade, a espiritualidade ocupa um certo lugar.
Quando essas garantias desaparecem, ela passa a ocupar boa parte dos lugares, inclusive o da política, sem que muita gente questione, porque isso é tão estrutural na vida das pessoas que fica difícil enxergar o quanto é nocivo as religiões se meterem no Estado do jeito que acontece no Brasil e em outros países da América Latina.
É essa desesperança crônica no amanhã, parafraseando os Garotos Podres, que empurra muitos de nós para diferentes formas de anestesia: religiosa, farmacológica, terapêutica e, cada vez mais, também para as bioculturas e os psicodélicos.
Expandir a consciência individual não significa ampliar, por tabela, a consciência política coletiva. Vejo pessoas profundamente interessadas em autoconhecimento, espiritualidade e expansão da mente, mas cada vez mais distantes das discussões sobre trabalho, desigualdade, racismo, colonialismo e distribuição de poder. É como se não falar de política fosse sinal de evolução espiritual. Não é. Nenhuma transformação individual substitui a construção coletiva de uma sociedade mais justa. Isso é uma armadilha do capitalismo. Vigia!
Os tentáculos do capitalismo
O capitalismo, turbinado por décadas de propaganda e doutrinação ideológica estadunidense, nos ensina que liberdade, sucesso e cura são conquistas individuais.
Essa lógica também alcançou o universo das bioculturas e dos psicodélicos, com cursos, certificações, mentorias, turismo espiritual e novas empresas surfando nessa onda caleidoscópica. É esse mesmo capitalismo que decide, na prática, quem pode e quem não pode ser, ter, existir plenamente, e dali se desdobram, por exemplo, o racismo e a misoginia, que não passam de mecanismos de seleção. É o capitalismo escolhendo quem vai ter dinheiro, quem vai ter condições de acessar qualquer coisa minimamente benéfica, terapêutica, digna.
Mas nenhuma substância ou ritual produz distribuição de renda, constrói escolas, garante saneamento básico ou substitui políticas públicas. Continuo acreditando na importância das bioculturas e dos psicodélicos, mas hoje me parece ainda mais evidente que a luta principal está em outro lugar. Como resume o professor João Carvalho: “o capitalismo falhou, falha e falhará em cada sociedade onde ele colocar seus tentáculos”. Não é diferente no mundo das bioculturas e dos psicodélicos..
Talvez esse seja o maior aprendizado que trouxe da China: a liberdade cognitiva importa, mas não pode ocupar o lugar da luta por direitos sociais. O que nos aproxima não é a substância que usamos, a religião que seguimos ou a terapia que escolhemos, é uma condição bem mais concreta: somos trabalhadores. Dependemos de transporte, saúde, educação, moradia, segurança, alimentação e direitos para viver com dignidade.
Enquanto continuarmos procurando só soluções individuais para problemas produzidos coletivamente, seguiremos confundindo alívio com transformação. As bioculturas e os psicodélicos podem aliviar dores, abrir perguntas e transformar trajetórias. Mas nenhuma delas substitui a tarefa mais urgente da política: construir uma sociedade em que viver não seja, todos os dias, um exercício permanente de sobrevivência.
Que a gente lute contra o que nos adoece com a mesma voracidade com que luta pelo direito de usar aquilo que analgesia as dores de uma civilização que não deu certo.
*Caroline Apple é jornalista há quase 20 anos, com passagem por alguns dos principais veículos do país. Sua trajetória é marcada pela cobertura de temas ligados à política e aos Direitos Humanos, com ênfase nos últimos 10 anos na causa indígena e nas disputas culturais, políticas e simbólicas em torno das bioculturas e dos psicodélicos. É uma das primeiras jornalistas no Brasil a se especializar na cobertura da cannabis para fins medicinais.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

