Após enfrentar a ditadura militar, ser preso e torturado, escritor e liderança daimista se manifesta sobre as eleições.
Alex Polari de Alverga tinha 20 anos quando foi preso pela ditadura militar brasileira. Militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), organização que combatia o regime pela luta armada, ele conheceu a tortura e os porões da repressão, além de presenciar o assassinato de seu companheiro Stuart Angel, filho da famosa estilista Zuzu Angel.
A experiência do cárcere marcou sua vida e sua escrita. Em 1978, ainda preso, publicou “Inventário de cicatrizes”, livro de poemas que transformou a violência política em testemunho e ajudou a registrar a memória daqueles que enfrentaram a ditadura.
Sua história, no entanto, tomaria outros caminhos. Depois de deixar a prisão, Polari se aproximou do Santo Daime, tradição religiosa amazônica que utiliza a ayahuasca em seus rituais. Passou a viver na Amazônia, tornou-se escritor e liderança daimista e construiu uma trajetória ligada à espiritualidade, à liberdade religiosa e aos conhecimentos tradicionais da floresta.
Procurei Polari para uma entrevista sobre um áudio público que ele divulgou sobre seu posicionamento político neste período eleitoral. Ele me informou que está cuidando da saúde e não poderia conversar neste momento, mas autorizou que eu escrevesse este artigo sobre seu pronunciamento. Resolvi partir de suas próprias palavras para contextualizar sua manifestação e recuperar a trajetória de um homem cuja vida é marcada pela literatura, pela tradição ayahuasqueira e pela luta contra a ditadura.
No pronunciamento, Polari aborda uma questão fundamental para compreender as relações entre religião e política. Em parte das comunidades espiritualistas, persiste a ideia de que a espiritualidade deve permanecer apartada das escolhas que fazemos como cidadãos, como se assumir uma posição política fosse, de alguma forma, incompatível com a prática da fé. Mas o ex-guerrilheiro propõe outra compreensão. Para ele, o compromisso espiritual não exige neutralidade diante dos rumos do país, mas permite que cada pessoa faça suas escolhas políticas a partir dos valores que orientam sua própria caminhada.
“Não há como a gente fugir de uma escolha, nem também da responsabilidade de encarar as consequências da nossa escolha para o futuro”, afirmou no áudio.
E essa frase ganha um significado ainda maior quando lembramos que estamos falando de alguém que viveu a repressão política durante a ditadura militar. Sua própria trajetória foi marcada pela violência de um Estado autoritário, pela prisão e pela tortura. É a partir dessa experiência que ele declara estar ao lado de quem defende a democracia e rejeita a apologia do ódio, da intolerância e da tortura.
“Como alguém que na juventude viveu uma ditadura e conhece bem seus porões e todos os crimes e as coisas abjetas que ali aconteceram, eu fico do lado, obviamente, de quem defende essa nossa frágil democracia.”
Polari também fala a partir de sua posição e condição como cristão, escritor e ser humano, defendendo a inclusão, a justiça social, a atenção às populações mais pobres, o respeito às questões de gênero e minorias e a valorização da riqueza cultural brasileira. Como alguém que viveu por quase três décadas na Amazônia, segundo seu próprio relato, Alex associa a preservação da floresta à responsabilidade com as próximas gerações.
Autonomia e respeito
Embora tenha vínculo com a ICEFLU (Igreja do Culto Eclético da Fluente Luz Universal Patrono Sebastião Mota de Melo), linha que tem grande participação na expansão da ayahuasca para fora da floresta, Polari não fala em nome da instituição. Ele reconhece que a organização religiosa possui seus próprios fundamentos e ressalta que cada integrante tem o direito de fazer suas escolhas políticas. Mesmo sendo uma figura proeminente na comunidade, seu posicionamento é pessoal e não deve ser confundido com uma declaração oficial da instituição, além de deixar claro que também não representa todos os daimistas.
Ao abordar as eleições, Polari descreve duas visões de mundo que considera profundamente diferentes. No áudio, o ex-guerrilheiro não revela nominalmente seu candidato à Presidência, mas deixa sua preferência implícita ao afirmar que já escutou a própria consciência e que não precisa dizer em quem votará. Sua manifestação se concentra nos valores que apresenta como critérios para essa escolha, entre eles a democracia, a justiça social, a preservação ambiental e a liberdade religiosa.
Espiritualidade x realidade
Existe uma resistência em setores das próprias comunidades ayahuasqueiras de reconhecer que a vida espiritual não está apartada da política. Como se falar de democracia, território, direitos indígenas ou justiça social dentro de uma comunidade religiosa fosse uma tentativa de instrumentalizar o sagrado para fins partidários. Essa reação merece uma reflexão mais profunda.
Ninguém precisa transformar o daime ou a ayahuasca em instrumento de disputa eleitoral para reconhecer que as condições políticas de uma sociedade afetam diretamente a continuidade de suas práticas espirituais. Não se trata de manipular a fé de ninguém, impor uma candidatura ou exigir que todos pensem da mesma maneira: isso aí é coisa do bolsonarismo. Trata-se de compreender o mundo em que vivemos e assumir a responsabilidade coletiva pelas condições que tornam possível a nossa existência e segurar a bronca das críticas quando fizer escolhas que atentem contra isso.
Separar o sagrado de tudo aquilo que é humano pode parecer uma forma de protegê-lo, mas também pode servir para afastar a comunidade das responsabilidades que ela tem diante da realidade.
Uma sociedade monocultural, como a proposta pelo bolsonarismo, que não reconhece a legitimidade de diferentes formas de existência, religiosidade e relação com o território, representa um desafio concreto para tradições que dependem da liberdade de consciência, do respeito aos povos indígenas e da preservação dos conhecimentos ancestrais.
Não é preciso concordar com Alex Polari em todos os aspectos para reconhecer a legitimidade de sua reflexão. O que está em jogo é a capacidade de distinguir a instrumentalização da fé de uma reflexão legítima sobre os direitos e as condições de existência de uma comunidade.
No encerramento de seu pronunciamento, Polari recomenda que as pessoas se afastem por um momento do ruído das redes sociais, das notícias falsas e das polêmicas para escutar a própria consciência. O convite é de fazer uma escolha consciente que exige mais do que repetir palavras de ordem ou seguir a posição de um grupo.
E você, já examinou sua consciência direitinho?
*Caroline Apple é jornalista há quase 20 anos, com passagem por alguns dos principais veículos do país. Sua trajetória é marcada pela cobertura de temas ligados à política e aos Direitos Humanos, com ênfase nos últimos 10 anos na causa indígena e nas disputas culturais, políticas e simbólicas em torno das bioculturas e dos psicodélicos. É uma das primeiras jornalistas no Brasil a se especializar na cobertura da cannabis para fins medicinais.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato


