Rafael da Guia

Cientista de Dados especialista em modelos de Inteligência Artificial, com mais de 18 anos de experiência. Atualmente é Consultor de Tecnologia no jornal Brasil de Fato, com passagens pela Gol Linhas Aéreas e Minsait. Graduado em Desenvolvimento e Marketing (U. Illinois), com especializações em Ciência de Dados (John Hopkins e FIAP). É militante do Movimento Brasil Popular.

Uma crônica sobre o poder das big techs

Cate Blanchett, como Galadriel em 'O Senhor dos Anéis', rejeita o anel do Poder
Cate Blanchett, como Galadriel em ‘O Senhor dos Anéis’, rejeita o anel do Poder | Crédito: Divulgação – Warner Bros

O poder de um deus jamais deveria estar na mão de uns poucos ricaços do Vale do Silício

Esse texto é uma coluna, mas também é uma crônica, como diz o título. Caso você não goste da obra de J.R.R. Tolkien, eu prometo que não vou falar apenas sobre isso.

Lembro que ainda era um adolescente quando assisti “O Senhor dos Anéis” pela primeira vez. Não me recordo da minha idade, mas devia ter meus 12 ou 13 anos. Assisti ainda sem entender nem uma fração do que compreendo hoje sobre essa obra.

No filme, um trecho me chamou muito a atenção. Galadriel é a elfa mais poderosa que ainda reside no continente dos mortais. Frodo, que está carregando o Um Anel, ao perceber o poder de Galadriel, oferece esse anel para a elfa, que o rejeita, mostrando o quão terrível ela poderia ser com aquele poder. Mas como ela sabia disso?

O Um Anel, na obra de Tolkien, propositalmente jamais tem seu poder revelado. Tolkien trabalha com o conceito de que a obra era escrita por mortais, sendo que Bilbo, Frodo e Sam foram os autores da história. O Um Anel carregava em si a totalidade do poder de um deus, de Mairon, um deus menor que depois se tornou Sauron, e tal poder seria incompreensível por um mortal. Mas será?

Alguns mortais durante a obra também rejeitam o Um Anel, como Aragorn e o próprio Sam, enquanto outros o cobiçam, sonhando muitas vezes em fazer coisas boas com ele. Não é o caso de Galadriel e, ao pensar sobre a personagem, é possível perceber que, mesmo sem compreender a totalidade daquele poder, ela ainda assim o compreendia de certa forma. Isso porque ela também carregava uma pequena parcela daquele poder, sendo a portadora de Nenya, um anel menor que foi entregue aos elfos. Outros personagens também carregavam parte desse conhecimento, como Elrond, portador do Vilya, e Gandalf, portador de Narya. Todos os que tinham contato, mesmo indireto, com esses anéis menores, rejeitaram o Um Anel, pois compreendiam, com isso, uma parte do que seria aquele poder.

Outros personagens também o rejeitavam, como os hobbits, mas, nesse caso, pelo motivo contrário: por não reconhecerem qualquer poder e não terem inclinação para ele. Mesmo assim, Frodo, obrigado a carregar o Um Anel, sentiu o que aquilo significava.

Dito isso, eu tenho uma afirmação sobre a realidade atual: é impossível compreender o poder das big techs no sistema de produção em que vivemos atualmente.

Vamos à crônica

No dia 5 de outubro de 2026, eu acordei e a primeira coisa que minha companheira me perguntou foi: “Como você está?”. Essa pergunta prosseguiu por toda aquela manhã. A maioria das pessoas próximas estava arrasada, assustada e surpresa com os resultados eleitorais do dia anterior.

Minha resposta para a minha companheira e para todas as outras pessoas que perguntaram foi que, provavelmente, eu estava melhor do que a maioria deles, mas que isso ainda era horrível.

Eu estudo ciência de dados há dez anos, sempre adorei matemática e estatística, atuo com tecnologias da informação há 20 anos e, sendo militante de movimentos sociais há mais de 18 anos, tive uma boa formação em ciências sociais e ciências políticas, me aprofundando num campo chamado de Ciências Sociais Computacionais. Juntando toda essa bagagem, eu já vinha analisando cerca de 100 gigabytes ou mais de dados e percebendo o resultado que se desenhava cerca de três semanas antes do primeiro turno. Quando os resultados apareceram, eu estava arrasado e assustado, porém não surpreso.

Após sentir todas as dores coletivas na segunda-feira, na terça-feira as pessoas já estavam prontas para lutar e se organizar, percebendo a necessidade de uma virada. Cada um se colocou para lutar com as armas que tinha. Isso me contagiou.

Um aparte

A ciência de dados tem vários campos de atuação. Em todos eles, seu principal objetivo é projetar como será a realidade, ensinando um computador a compreender como ela funciona para projetar cenários que podem ocorrer. Diferentemente do que minha companheira acredita quando me vê trabalhando, não é uma bola de cristal que prevê o futuro, mas sim metodologias antigas e consolidadas para explorar cenários prováveis e improváveis. Uma das bases conceituais é a incerteza. Absolutamente tudo é incerto, mas, no meio do incerto, é possível se aproximar do que é real.

Durante a pandemia, Átila Iamarino, o biólogo e pesquisador, usou o estudo do Imperial College London, que misturou ciências sociais computacionais e modelos epidêmicos, para alertar que o cenário brasileiro poderia chegar a 1 milhão de mortos, caso não houvesse políticas públicas para lidar com a Covid-19. A partir do negacionismo e, também, da não compreensão sobre a base científica daquele número, ele foi duramente atacado por anos, enquanto a falta de políticas públicas para lidar com o vírus de maneira nacional e até de impulsionar medidas que potencializavam a pandemia ocasionou mais de 700 mil mortes pelos números oficiais. A tragédia só não foi maior por conta da atuação de alguns estados, do SUS, da solidariedade coletiva de parte da população e outras variáveis.

O Contágio

No dia 6 de outubro, eu estava contagiado e animado para enfrentar uma batalha que seria impossível. Como Humberto Gessinger cantava, eu estava movido “por amor às causas perdidas”. Queria utilizar minha bagagem intelectual não para apenas analisar a realidade, mas para instrumentalizar a luta pela virada de Lula nesse segundo turno.

E eu não fui o único. A articulação do Setor de Tecnologia do MTST e outras organizações juntou mais de 3 mil pessoas da área de tecnologia com gana de garantir uma virada no Comitê Popular de Tecnologia, além de todas as mobilizações de massa que, nas duas últimas semanas, tomaram as ruas e as redes.

Participei também de outros encontros naqueles dias, e dois me marcaram. Uma iniciativa de articulação em plataformas de comunicação para organizar lutas de rua, partindo de pessoas que não tinham domínio dessas plataformas, me pediu ajuda e, mesmo eu avisando que não atuava nessa área há mais de 3 anos, disseram que, mesmo com meu distanciamento dessa área, eu já tinha mais experiência que todos eles juntos (e agradeci que logo pessoas que atuam mesmo na área chegaram para auxiliar). A segunda experiência foi a reunião aberta do PT, Psol e outros partidos e organizações da minha cidade, que estavam animados, mas percebi que estavam perdidos, assim como a maioria das pessoas, pois o tempo era curto e o trabalho era muito.

Dessas experiências, eu juntei meu conhecimento com o poder computacional que tenho atualmente e que é maior do que eu imaginei que teria na vida, para me debruçar e responder a uma pergunta: com pouco tempo, quais são os locais exatos do Brasil em que o esforço da militância de rua traria os melhores resultados eleitorais?

Com isso, surgiu o estudo intitulado “Onde ganhar votos para Lula exige menos esforço”, mostrando em um mapa e em relatórios os bairros e regiões em que, a partir do estudo histórico de quase 1 terabyte de dados, métodos de ciências sociais computacionais, mais de 50 horas de processamento em um computador que vale o preço de um carro novo e cerca de 2 bilhões de cenários simulados, compreendíamos que seriam mais propícios para ter votos virados e garantir essa vitória. O resultado, apesar de ser lançado publicamente, não era algo amplo, mas focado em chegar a coordenações de ações que tinham esse objetivo.

Após isso, garantimos, por meio de articulação política coletiva, que esse estudo chegasse a quem ele precisava chegar.

Me deparando com o Um Anel

Para gerar o estudo, eu tinha pouco tempo e precisava lidar com o que tinha disponível. Foquei apenas em dados públicos e abertos. Nenhum dado privado. Nenhum dado protegido por um painel de usuário e senha. Apenas os dados, informações e pesquisas disponíveis gratuitamente e abertos na internet. Não utilizei nenhum dado individual de pessoas, mas resultados de levantamentos como os do IBGE e do Censo e estudos de centenas de institutos de pesquisa.

Apenas com isso, foi possível chegar a um resultado que, segundo o próprio modelo estatístico e depois corroborado por pesquisas cegas em localidades que eu não conhecia, apresentava 95% de confiança de que simulava corretamente a realidade.

Foi o maior estudo que fiz na minha vida e, ao tentar explicar para algumas pessoas após o teste cego, em que eu pedi para elas elencarem em suas cidades onde acreditavam que seria mais fácil virar votos para ver se o mapa corroborava isso, eu me sentia um pouco como o personagem Hari Seldon do livro “Fundação”, de Isaac Asimov. Assim como minha companheira, algumas pessoas acreditavam que era uma bola de cristal, mas era apenas um pouco de ciência misturada com condições materiais para ter os recursos computacionais necessários para produzir aquilo.

O melhor elogio que recebi foi de um doutor em ciências sociais, que disse que eu conhecia a cidade dele muito melhor do que ele, a partir do estudo que fiz.

E eis que eu retorno a “O Senhor dos Anéis”. Mas tenha calma, pois será apenas um pouco.

O que eu fiz parece muito para a maioria das pessoas, mas, na verdade, é muito pouco. Eu usei 1 terabyte. Ou 1.024 gigabytes. Nesse espaço, cabem aproximadamente 1 trilhão de caracteres.

A Meta jamais forneceu esses dados, mas as estimativas são de que ela tem algumas dezenas de exabytes acumulados em seus datacenters. Apenas 1 exabyte corresponde a 1 milhão de terabytes. Apenas em 1 exabyte, ela tem 1 milhão de vezes o volume de dados que utilizei. E a Meta tem algumas dezenas de exabytes em seus datacenters. 

Além disso, a empresa também dispõe de cientistas muito mais capacitados do que eu e de recursos computacionais maiores do que os meus em um nível colossalmente impossível de se imaginar.

As big techs são as portadoras do Um Anel, enquanto eu tenho apenas um dos anéis menores, como a Galadriel.

Eu foquei o meu estudo em eleger Luiz Inácio Lula da Silva como presidente do Brasil, algo que acredito ser bom para a sociedade nesse momento; outras pessoas poderiam discordar de mim, mas não teriam o conhecimento e os recursos para tentar fazer algo parecido com o que fiz.

Todo o poder da Meta, da Alphabet (Google), da Amazon, da Microsoft, da Palantir e de outras tantas big techs está nas mãos de um pequeno grupo de bilionários e trilionários que decidem sozinhos como desejam usar esse poder inimaginável.

Eles podem conhecer a realidade, mas não apenas isso; dispondo da hegemonia do poder de comunicação, eles podem moldar a realidade ou, ao menos, a percepção de realidade de toda uma civilização.

E, nessas eleições, eles voltaram todo esse poder para impedir a eleição de Lula.

Porém, isso jamais deve ser uma percepção que cause desesperança.

No dia 5 de outubro, eu estava arrasado, assustado, mas não surpreso. No dia 21 de outubro eu estou surpreendentemente animado.

Não vou mentir, as chances de virada ainda não são enormes, mas elas cresceram em uma velocidade que nenhum dos meus modelos computacionais haviam observado antes.

E isso se deve à força popular. Ao povo nas ruas, nas redes e em todo o lugar lutando, conversando, se comunicando e, principalmente, se organizando para enfrentar o poder de um deus.

Mesmo que a vitória não venha, e eu quero acreditar que ela virá, nós não fomos esmagados. Nós enfrentamos esse poder em coletivo.

E, vencendo ou perdendo, esse poder ainda deverá ser enfrentado. O poder de um deus jamais deveria estar na mão de uns poucos ricaços do Vale do Silício.

Esse conhecimento e esses recursos computacionais só foram produtivos graças ao acúmulo coletivo de conhecimento e ao trabalho da classe trabalhadora. Não devem ser uns poucos homens de camisa polo os responsáveis por decidir o que é um bom uso desse poder, mas sim de toda a população.

As decisões devem ser nossas, devem ser coletivas, inclusive a decisão de destruí-lo se assim acharmos necessário.

*Rafael da Guia é militante do Movimento Brasil Popular, coordenador da Estel Tecnologia e pós-graduando em Computação Quântica pela PUC Minas.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Rafaella Coury

|

Newsletter