Rafael da Guia

Cientista de Dados especialista em modelos de Inteligência Artificial, com mais de 18 anos de experiência. Atualmente é Consultor de Tecnologia no jornal Brasil de Fato, com passagens pela Gol Linhas Aéreas e Minsait. Graduado em Desenvolvimento e Marketing (U. Illinois), com especializações em Ciência de Dados (John Hopkins e FIAP). É militante do Movimento Brasil Popular.

Por uma rede pública de internet: ninguém constrói democracia em praça alugada

Palácio dos Correios, São Paulo
Palácio dos Correios, São Paulo | Crédito: Wilfredor/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Enquanto a praça pública for propriedade privada, a democracia vai morar de aluguel.

Na noite de 25 de outubro, Lula foi reeleito presidente da República depois de uma virada inédita. Ele havia terminado o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro, com 45,16% dos votos válidos contra 47,03%, e chegou a 51,73% com 97% das urnas apuradas no segundo pleito. Quem virou o jogo foi a rua, o sindicato, o estudante, a militância e o boca a boca. Foi organização popular.

Mas, se você viu a notícia e concluiu que “a internet não elege mais ninguém” ou que “a questão das redes está resolvida”, peço que respire. Ganhamos apesar do campo de jogo, não por causa dele.

Ganhamos no campo deles, com o juiz usando a camisa do adversário

No segundo turno, a campanha de Lula acusou a Meta de impulsionar conteúdos ligados a Flávio Bolsonaro e de restringir os do presidente. A empresa nega favorecimento e atribui a diferença a falhas técnicas do algoritmo. Só que o que ela mesma admitiu não é pouca coisa: sua inteligência artificial chegou a gerar material favorável a Flávio, e a conta de anúncios da campanha de Lula foi desativada “por engano” por pouco mais de uma hora. O TSE mandou a Meta provar que tratava os dois lados com isonomia, sob multa de R$ 500 mil por dia, e especialistas da ONU apontaram falta de isenção na atuação da empresa. Enquanto isso, Elon Musk comemorava com um “Wow” quando as apostas de uma plataforma de previsões passaram a favorecer Flávio.

O ponto aqui não é decidir se a Meta é culpada. O ponto é que um país de mais de 200 milhões de habitantes precisa torcer para que o algoritmo de uma empresa estrangeira esteja bem-intencionado, e nem a Justiça Eleitoral consegue abrir a caixa-preta para conferir. É a lógica que Shoshana Zuboff batizou de capitalismo de vigilância: lucrar com a atenção e os dados das pessoas. E o que mais prende a atenção é indignação, medo e ressentimento. Combustível perfeito para a extrema direita e veneno lento para qualquer democracia. O novo editor-chefe do debate público não foi eleito, não presta contas e muda as regras sem avisar. Isso tem nome: colonialismo digital.

O Exército que não dorme

A resposta emergencial foi o “Exército do Lula”. O canal de WhatsApp, criado por André Janones em abril com cerca de 50 mil pessoas, chegou a algo como 10,9 milhões de participantes, que recebiam missões diárias de engajamento. Funcionou: até o diretor da Quaest afirmou que o canal mudou o rumo da campanha. Em emergência, quem tem pouca munição usa o que tem, e não vou ser injusto com isso.

Mas olhe o preço. Na madrugada de 19 de outubro, depois do debate, Janones foi internado com arritmia cardíaca. Ao deixar o hospital, atribuiu o quadro à má alimentação e a noites de no máximo três horas de sono, e contou que monitora as reações nas redes o tempo todo, sem roteiro fixo, decidindo o que publicar conforme o humor do feed. Um homem fazendo o trabalho de um algoritmo, de uma redação e de uma central de comunicação, e a conta chegou ao coração. Multiplique isso por milhões de pessoas em missões diárias. Um modelo que depende de militância em prontidão permanente, dormindo pouco e comendo mal, adoece quem participa e esgota a própria política. Não é projeto de país.

E há o efeito sobre a democracia: a participação política vira métrica de engajamento, e a militância vira tropa que recebe ordem de general. Questionado no Fantástico se era democrático dar uma ordem e ter 10 milhões de pessoas obedecendo, o próprio Janones foi franco: “É o que eu chamo de democracia mitigada. Não é a democracia no seu estado pleno. Não é a democracia que eu quero para o nosso país. Não é um modelo de democracia sustentável”. Nada contra a militância; tudo contra a militância transformada em mão de obra gratuita do algoritmo. Janones disse que a extrema direita “nunca mais vai ter hegemonia nas redes sociais”. Só que hegemonia em terreno alugado dura enquanto o dono permitir. O próprio canal morava no WhatsApp, que é da Meta, e foi suspenso por decisão da Justiça Eleitoral a pedido da campanha adversária, o que Janones chamou de censura. Não importa aqui quem tinha razão jurídica. Importa que um exército de milhões acampava no quartel de outro.

Federar o quê, se o dono do campeonato compra o time?

Diante disso, muita gente boa defende abandonar as plataformas e migrar para redes federadas, como o Fediverso, de Mastodon e companhia. Eu simpatizo: software livre, protocolo aberto, ninguém é dono do todo. Mas é uma solução técnica para um problema político, o que Evgeny Morozov chama de solucionismo tecnológico. Protocolo aberto não equilibra poder econômico. Tom Coates, que esteve numa reunião da Meta com a comunidade do Fediverso, estimou que os usuários do Mastodon eram cerca de 1/2.000 do público das plataformas da empresa. Em março de 2024, o Threads, da própria Meta, entrou na federação pelo protocolo ActivityPub, e a empresa afirma já ter interagido com mais de 75% dos servidores. Quando o maior nó da rede é o gigante, ou você federa com ele e aceita o padrão que ele impõe, ou fica isolado. O servidor Disroot já avisou que não federará, prevendo consequências negativas de longo prazo, e a Columbia Journalism Review lembrou que a Meta continuaria controlando os dados de quem se conecta pelo Threads.

O mesmo vale, com outra roupa, para a Tor. Ela é uma ferramenta preciosa para jornalistas e dissidentes, e não é a ferramenta que estou criticando. Mas é mantida por voluntários que operam servidores, e quem tem dinheiro pode alugar servidores aos milhares. Um ator conhecido como KAX17, ativo desde ao menos 2017, chegou a operar mais de 900 nós, cerca de 14% da rede, o que dava ao usuário cerca de 16% de chance de entrar pela porta dele; em 2020, um ator chegou a controlar cerca de 23% dos nós de saída. A autoria é desconhecida, mas a escala sugeriu a analistas um adversário de alto nível, talvez estatal. A Tor removeu centenas desses nós, mas o recado está dado: sem lastro econômico estável, rede aberta fica refém de quem tem caixa. O próprio projeto recorreu ao financiamento coletivo diante dos cortes dos Estados Unidos em verbas de liberdade na internet.

Baidu, Max e o caminho próprio

E a China e a Rússia? Ambas mostram que soberania digital é possível. A China bloqueou Facebook e Twitter em 2009, depois dos conflitos em Xinjiang, e no espaço aberto cresceram Baidu, Alibaba e Tencent. Uma análise publicada no Outras Palavras destaca que, com empresas nacionais, a China conseguiu ordenar suas redes sociais e evitar a erosão do espaço público digital que se vê no Ocidente. A Rússia seguiu caminho parecido: em fevereiro de 2026, o Kremlin informou que o WhatsApp foi bloqueado por se recusar a cumprir a lei russa, com o Telegram já amplamente bloqueado desde janeiro, e passou a incentivar o Max, mensageiro criado pela VK, big tech comprada em 2021 pelo banco estatal Gazprombank e pela seguradora Sogaz.

A lição é que soberania digital é possível quando há decisão política e capacidade nacional. O Brasil precisa construir o seu caminho: serviço público que compita em qualidade, com governança pública, código aberto e lei de proteção de dados.

O carteiro também pode entregar a nuvem

A saída que defendo é essa: serviços públicos de internet, prestados por empresas públicas. O candidato natural são os Correios, que, segundo dados de 2021, estavam presentes em 5.556 municípios. Nenhuma empresa privada tem essa capilaridade. Mas é preciso aprender com as tentativas recentes. O Correios Celular é uma operadora virtual: marca pública sobre a rede privada da EuTV. O Mais Correios, lançado em julho de 2025, é um marketplace de mais de 500 mil produtos para concorrer com o varejo privado. Dois exemplos de estatal imitando empresa. O que falta é o oposto: nuvem, e-mail, armazenamento, hospedagem e mensagens criptografadas, em data centers no Brasil, com software livre auditável. A ideia não é nova: em 2013, o governo encomendou aos Correios um e-mail nacional à prova de espionagem. Treze anos depois, boa parte da nossa vida digital ainda mora em servidor alheio.

Os Correios não estão sozinhos. A Telebras opera o SGDC, satélite brasileiro que cobre todo o território nacional, e, por ele, o programa Gesac já levou internet a mais de 26 mil pontos, de escolas rurais e indígenas a postos de saúde em comunidades remotas. O Serpro e a Dataprev, empresas públicas de tecnologia, já investiram mais de R$ 1,8 bilhão na Nuvem de Governo, e em agosto o Ministério da Saúde começou a migrar dados do SUS para a nuvem soberana do Serpro, armazenados em território nacional e submetidos à lei brasileira. Ou seja: o Brasil já tem empresa pública para levar o sinal, para guardar os dados e para bater à porta de cada cidadão. Mas o mesmo alerta vale aqui.

A Nuvem de Governo roda em ambientes homologados da AWS, do Google e da Huawei, instalados nos data centers das estatais, e o Serpro negocia a entrada da Microsoft. É um avanço em relação ao dado hospedado no exterior, mas ainda é tecnologia alheia sob teto público. E essas empresas, hoje, atendem ao Estado, não ao cidadão: a nuvem soberana guarda os dados do governo, enquanto as fotos, as conversas e os documentos do povo seguem nos servidores de sempre.

Alguém dirá: já temos o gov.br. E é justamente o problema. Concentrar identidade, e-mail, nuvem e mensagens do povo num portal do Executivo é montar o sistema que um governo de extrema direita sonha em herdar: o Executivo tem muito mais liberdade para mudar as regras de um portal próprio do que as de uma empresa pública, com estatuto, conselho e quadro concursado. Para tentar vender os Correios, o governo Bolsonaro precisou recorrer ao Congresso, e o projeto, aprovado na Câmara por 286 votos a 173, não foi concluído no Senado. Não é blindagem, e por isso o desenho precisa de controle social: conselho com usuários, trabalhadores e universidades, código aberto e proibição expressa de venda.

E aqui entra o que nenhum código resolve: a luta. Uma internet soberana depende de bom desenho técnico e institucional, mas depende também de impedir que as empresas públicas que a sustentariam sejam vendidas. De nada adianta construir uma nuvem pública se, na primeira troca de governo, a empresa que a opera vai a leilão. Segundo dirigentes dos trabalhadores dos Correios, foi a mobilização que fez o projeto de privatização travar no Senado. Foi luta, e não detalhe regimental. Os Correios já são estratégicos por chegarem a todos os municípios, e podem ser ainda mais se, além da carta e da encomenda, entregarem a infraestrutura digital do povo. Defender a empresa pública hoje é defender a soberania digital de amanhã, e isso exige a mesma trincheira para quem trabalha nos Correios, quem programa, quem pesquisa, quem faz comunicação popular e quem tem mandato.

Podemos seguir vencendo eleições no campo do adversário, na base de noites sem dormir. Até o dia em que o juiz mudar de ideia, o dono mudar as regras ou a tropa simplesmente cansar.

Enquanto a praça pública for propriedade privada, a democracia vai morar de aluguel.

*Rafael da Guia é militante do Movimento Brasil Popular, coordenador da Estel Tecnologia e pós-graduando em Computação Quântica pela PUC Minas.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Rafaella Coury

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