Raúl Antonio Capote

Mestre em Relações Internacionais e História Contemporânea, escritor e jornalista do Granma Internacional. Também é professor de História de Cuba da Universidade de Ciências Pedagógicas de Havana, foi durante anos o agente Daniel dos serviços de inteligência cubana. O jornalista é autor de vários artigos e dos livros “El caballero ilustrado” (novela), “Juego de Iluminaciones” (contos), “El adversario” (novela) e “Enemigo” (testemunho), também publicado no Brasil com o título “Inimigo: A guerra da CIA contra a juventude cubana”.

O dilema de Tucídides: desafios em um mundo assimétrico

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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com o presidente da China, Xi Jinping, no Grande Salão do Povo, em Pequim. 14 de maio de 2026
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com o presidente da China, Xi Jinping, no Grande Salão do Povo, em Pequim. 14 de maio de 2026 | Crédito: Evan Vucci/Pool/AFP

A advertência reflete uma preocupação estratégica mais ampla sobre as dinâmicas de poder no sistema internacional

Reconhecido na teoria das relações internacionais como a “armadilha de Tucídides”, esse termo descreve uma dinâmica de conflito que parece quase inevitável quando uma potência em ascensão ameaça suplantar uma potência estabelecida.

Tem sua origem na obra “História da Guerra do Peloponeso”, escrita pelo general e historiador ateniense Tucídides no século 5 a.C. Em sua análise, Tucídides argumenta que a guerra entre Atenas e Esparta não foi provocada por causas superficiais: “O que tornou a guerra inevitável foi o crescimento do poder ateniense e o temor que isso causou em Esparta”.

O dilema pode ser resumido da seguinte forma: à medida que uma potência emergente cresce economicamente, militarmente e politicamente, a potência estabelecida percebe esse crescimento como uma ameaça existencial à sua hegemonia, o que provoca uma espiral de desconfiança entre ambas as partes.

A potência dominante pode optar por se rearmar ou implementar medidas preventivas, enquanto a emergente se prepara para se defender ou desafiar o poder estabelecido; na maioria das vezes, o resultado costuma ser a guerra, mesmo que nenhuma das partes a deseje inicialmente.

O politólogo Graham Allison popularizou o termo em seu livro Destined for War (2017), no qual analisa a relação entre os Estados Unidos e a China. Allison documentou 16 casos históricos de pares “dominante-ascendente” nos últimos 500 anos; desses, 12 terminaram em guerra.

No entanto, ele também ressaltou que esse dilema não é um destino inevitável: a guerra pode ser evitada por meio de uma liderança sábia, instituições adequadas e mecanismos de cooperação.

A advertência do presidente da República Popular da China, Xi Jinping, a Donald Trump, durante a recente cúpula entre os dois, para que não caíssem na “armadilha de Tucídides”, reflete uma preocupação estratégica mais ampla sobre as dinâmicas de poder no sistema internacional, especialmente entre potências emergentes e estabelecidas.

No contexto dessa visita, as tensões entre os dois países estavam aumentando. Xi utilizou essa referência histórica para enfatizar que o conflito não é inevitável e que as duas nações devem trabalhar juntas para evitar um confronto prejudicial para ambas.

Já no caso de Cuba, o dilema se inverte: aqui não existe uma relação simétrica de potências, mas sim uma assimetria esmagadora; a ameaça que Washington alega é, na realidade, uma construção narrativa utilizada para justificar sua agressão histórica contra a ilha.

Para evitar cair nessa armadilha, é fundamental que cessem as ameaças dos Estados Unidos contra Cuba e que sejam interrompidas as tentativas de intimidação.

Todas as partes envolvidas devem buscar soluções baseadas no diálogo e na cooperação, priorizando a razão em detrimento da coação, o que contribuiria para uma maior estabilidade tanto na região quanto no sistema internacional como um todo.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Fontes:
Allison, Graham. Destinados à Guerra: Os Estados Unidos e a China conseguirão escapar da armadilha de Tucídides? Houghton Mifflin Harcourt, 2017.
Kissinger, Henry. Destino e Poder: A Odisséia Americana de George Herbert Walker Bush. Penguin Press, 2015.

Editado por: Vivian Virissimo

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