Rede de Sementes do Cerrado (RSC)

A Rede de Sementes do Cerrado (RSC) é uma associação civil, sem fins lucrativos, cuja missão é conectar os elos da restauração ecológica, com protagonismo das comunidades na conservação do Cerrado.

O Cerrado pronto para mais

Plantio por semeadura direta, técnica especialmente relevante para a restauração do Cerrado
Plantio por semeadura direta, técnica especialmente relevante para a restauração do Cerrado | Crédito: Anna Maia

Brasil tem oportunidade de fazer da restauração um caminho para gerar renda, fortalecer territórios e valorizar a biodiversidade

A eleição de Lula para um novo mandato, pela coligação “O Brasil Pronto Pra Mais”,  abre um ciclo de expectativas para o país. Para o Cerrado, o desafio é transformar a continuidade da agenda ambiental em avanços na conservação, na restauração de áreas degradadas e na construção de um modelo de desenvolvimento que reconheça o valor da biodiversidade e das pessoas que vivem no bioma.

Há avanços recentes e há razões para reconhecê-los. Em outubro de 2026, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) anunciou que o desmatamento no Cerrado caiu 23,8% entre agosto de 2025 e julho de 2026, atingindo 5.516,69 quilômetros quadrados, a menor taxa da série histórica, iniciada em 2001. O resultado demonstra que políticas públicas, fiscalização e articulação entre diferentes níveis de governo produzem mudanças importantes.

O novo mandato de Lula deve partir desse avanço, mas não se limitar a ele. A redução precisa ser mantida e aprofundada, sobretudo em um bioma que abriga uma biodiversidade extraordinária, abastece 8 das 12 grandes regiões hidrográficas do país e desempenha papel fundamental na regulação do clima. Além disso, o Brasil precisa avançar na prevenção de incêndios, na recuperação de áreas degradadas e na valorização econômica da biodiversidade. É nessa combinação que se encontra uma oportunidade para o Cerrado e para o próprio desenvolvimento brasileiro.

O capítulo 11 do plano de governo de Lula para 2027–2030, intitulado “Promover a Sustentabilidade Ambiental”, oferece uma referência para acompanhar os compromissos ambientais do próximo período. Nele, o presidente, agora reeleito, reafirma a meta de desmatamento líquido zero até 2030. Também prevê, entre outras medidas, a implementação dos planos de controle e prevenção do desmatamento, associados à valorização dos parques nacionais com programas de turismo sustentável, desenvolvimento regional e educação ambiental, além do incentivo à criação de Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs).

O documento propõe ainda o aprimoramento da política de pagamento por serviços ambientais como uma estratégia complementar à restauração, além do fortalecimento do Código Florestal e da Lei da Mata Atlântica. O desafio será transformar as diretrizes em políticas efetivas, com recursos, instrumentos de implementação e atenção às particularidades de cada bioma. 

Nesse contexto, é preciso lembrar de outro passo importante do mandato que se encerra: a instituição, em 2024, da Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo. A política reconhece que enfrentar os incêndios exige planejamento, prevenção, coordenação institucional e participação social, além da capacidade de resposta às emergências. Também considera o papel ecológico do fogo em determinados ecossistemas e reconhece os conhecimentos e as práticas tradicionais de povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais. Para o próximo mandato, o plano de governo prevê a implementação dos planos de manejo integrado do fogo estabelecidos na Política Nacional.

A agenda ambiental, porém, não se resume a conter a destruição. É preciso discutir o que o país valoriza economicamente e quais atividades deseja incentivar. O Cerrado não pode ser visto apenas como uma fronteira de expansão produtiva. Sua vegetação contribui para a regulação dos ciclos da água, a conservação dos solos, a manutenção da biodiversidade e a adaptação às mudanças climáticas. Esses serviços ecossistêmicos sustentam atividades econômicas e a qualidade de vida de milhões de pessoas.

A conservação do bioma, portanto, não deve ser tratada apenas como uma restrição ao uso da terra. Ela é parte das condições que tornam o desenvolvimento possível. A produção agropecuária, por exemplo, depende da disponibilidade de água e está exposta aos efeitos da degradação ambiental e das mudanças climáticas. Conciliar produção e conservação exige reconhecer essas relações e superar a ideia de que o desenvolvimento precisa avançar à custa do desmatamento.

O Cerrado também oferece oportunidades por meio de sua sociobiodiversidade. Frutos, sementes e outros produtos nativos podem sustentar cadeias produtivas que geram renda, fortalecem economias locais e mantêm vínculos entre as comunidades e seus territórios. Para que esse potencial se concretize, entretanto, é necessário superar a visão de que a biodiversidade tem valor apenas quando convertida em outros usos da terra. É preciso criar condições para que a vegetação em pé e os produtos dela provenientes sejam reconhecidos como ativos econômicos.

Nesse contexto, a restauração ocupa um lugar estratégico. Recuperar áreas degradadas exige sementes nativas, conhecimento técnico, trabalho e articulação entre diferentes atores. A semeadura direta, por exemplo, é uma técnica especialmente relevante para restaurar o Cerrado. Ela possibilita o estabelecimento de diferentes formas de vida, incluindo gramíneas, herbáceas e arbustos nativos, fundamentais para a recomposição da estrutura e do funcionamento das savanas. Ao favorecer a diversidade de espécies e a recuperação de comunidades adaptadas às condições ambientais locais, a semeadura direta contribui para a restauração de ecossistemas mais representativos da biodiversidade do Cerrado. Nesse processo, pode ocorrer a mobilização de cadeias de coleta de sementes em diferentes territórios. Quando estruturadas de forma adequada, essas cadeias conectam a recuperação ambiental à geração de renda e à valorização dos conhecimentos locais.

Vereda impactada por incêndios no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros (GO) e atualmente em processo de restauração
Vereda impactada por incêndios no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros (GO) e atualmente em processo de restauração | Crédito: Anna Maia

Essa perspectiva, contudo, só será plenamente inclusiva se as comunidades participarem não apenas da execução das atividades, mas também das decisões e dos benefícios gerados. Coletores de sementes, agricultores familiares, povos indígenas, quilombolas e outras comunidades tradicionais não são apenas beneficiários de políticas ambientais. São detentores de conhecimentos, agentes econômicos e protagonistas de iniciativas de conservação e restauração.

Assim, o reconhecimento de seus direitos territoriais e o fortalecimento de suas organizações são parte das condições para que possam contribuir com autonomia para o futuro do bioma.

Compromisso político

Os próximos quatro anos também exigirão atenção às decisões do Congresso Nacional. Enquanto o país busca fortalecer a proteção ambiental, mudanças legislativas podem enfraquecer instrumentos de prevenção e controle. A aprovação da Lei Geral do Licenciamento Ambiental e a derrubada de parte dos vetos presidenciais, em 2025, evidenciaram as disputas em torno das regras de proteção ambiental. O desenvolvimento de longo prazo depende de segurança jurídica, políticas coerentes e instrumentos capazes de conciliar atividades econômicas com a proteção dos recursos naturais.

A eleição, por si só, não garante que as agendas ambientais avancem. O resultado dependerá das escolhas políticas, dos recursos destinados à implementação das medidas e da capacidade de articulação entre governo, estados, municípios, setor produtivo, organizações da sociedade civil e comunidades. A continuidade precisa significar mais do que preservar o que já foi conquistado: deve abrir caminho para enfrentar desafios que permanecem e construir novas possibilidades.

Para o Cerrado, estar pronto para mais significa avançar da redução do desmatamento para uma agenda que combine conservação, prevenção de incêndios, restauração e valorização da sociobiodiversidade. Significa reconhecer que proteger a água, recuperar áreas degradadas e fortalecer as cadeias produtivas de espécies nativas não são pautas isoladas, mas dimensões de um mesmo projeto de desenvolvimento.

A Rede de Sementes do Cerrado acredita que esse futuro passa pela Restauração Inclusiva: uma abordagem que conecta a recuperação dos ecossistemas ao protagonismo das comunidades, reconhecendo seus conhecimentos, seu trabalho e sua capacidade de construir soluções. O Brasil tem a oportunidade de fazer da restauração mais do que uma resposta à degradação: um caminho para gerar renda, fortalecer territórios e valorizar a biodiversidade.

O Cerrado está pronto para mais. O que esperamos de Lula — e também dos novos governos e Legislativos — é transformar essa possibilidade em compromisso político, investimento e ação concreta. Que venham os próximos quatro anos.


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Editado por: Clivia Mesquita

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