Robert Marques

Robert de Almeida Marques é geógrafo e pesquisador, mestre em Planejamento Urbano (UFPR) com foco no Direito à Cidade. Possui vasta experiência em pesquisa, organização popular e gestão pública, onde atuou como diretor, secretário e assessor parlamentar.

Capital da vitrine: transporte metropolitano de Curitiba penaliza quem vem da periferia

Sistemas de transporte público dos 29 municípios da Região Metropolitana de Curitiba seguem repartidos
Sistemas de transporte público dos 29 municípios da Região Metropolitana de Curitiba seguem repartidos | Crédito: José Fernando Ogura/SECOM

É hora de discutir um Sistema Único de Mobilidade, com fundo metropolitano, controle social, prioridade viária nas periferias e horizonte da tarifa zero

Quem usa o ligeirinho Colombo/CIC para trabalhar não faz uma viagem metropolitana e outra urbana. Faz uma só, embora a Agência de Assuntos Metropolitanos do Paraná (AMEP) e a Urbanização de Curitiba S.A. (URBS) dividam sua gestão. Se a ligação direta terminar na Praça Tiradentes, no centro de Curitiba (PR), a divisa administrativa virará baldeação e atraso. As licitações suspensas expõem a questão: quem paga, com seu tempo, pela fragmentação da metrópole?

Curitiba teve mérito ao implantar o BRT e articular transporte e uso do solo. Mas uma inovação dos anos 1970 não basta. Em estudo de 2026 na revista Future Transportation, Jorge Gonçalves, Fernando Nunes da Silva e eu comparamos Curitiba e Lisboa: a tarifa pesa tanto ou mais sobre a renda, mas há menor diversidade modal e infraestrutura. Em texto com Gab da Silveira Muller na CartaCapital, discutimos o urbanismo de fachada da cidade-modelo, que exibe a vitrine e apaga quem espera longe das canaletas.

Mobilidade distribui acesso a trabalho, escola, saúde e cultura. Distribui tempo de vida. A chamada “penalidade da baldeação” não é abstrata: cobra caminhada, espera, desgaste e insegurança, sobretudo de trabalhadores periféricos, cuidadoras, idosos e pessoas com deficiência. Transporte coletivo é direito à cidade, não só quilômetros rodados.

A Região Metropolitana de Curitiba reúne 29 municípios, mas seus sistemas seguem repartidos. A AMEP responde pelo transporte intermunicipal; a URBS, pela rede municipal; e cidades vizinhas dependem do estado até em viagens internas. Segundo dados divulgados pela AMEP em julho, ao menos 70% dos passageiros metropolitanos com destino à capital utilizam a RIT. A vida se integra; a gestão, não.

Era necessário superar décadas de permissões precárias. Licitar, porém, não garante qualidade. A Concorrência nº 06/2026 da AMEP, suspensa desde agosto, propôs quatro lotes por vinte anos e 746 veículos. Seu desenho, detalhado nos anexos e noticiado pela CBN Curitiba, encurta Colombo/CIC para Maracanã/Tiradentes e Pinhais/Campo Comprido para Pinhais/Tiradentes, além de retirar outras ligações diretas. Novos trajetos não neutralizam baldeações impostas à metrópole.

Os números também exigem conciliação: a AMEP registra 235 linhas e 944 veículos, incluindo serviços municipais; os quatro lotes somam 133 linhas e 746 veículos, enquanto a divulgação menciona 138 linhas. A quilometragem prevista é de 3,66 milhões mensais, contra 4,24 milhões em referência anterior. Escopos diferem, mas quem assumirá os serviços e com quais recursos?

A licitação municipal aprofunda o problema. A URBS publicou em agosto a Concorrência nº 001/2026: cinco lotes, quinze anos, R$ 18,8 bilhões em remuneração estimada e R$ 3,9 bilhões em investimentos. Há avanços, como 250 ônibus elétricos e integração temporal municipal. Mas os anexos projetam mudanças territoriais profundas, pouco debatidas fora da linguagem técnica dos contratos.

No Anexo 3.02, a URBS incorpora a hipótese de implantação do VLT Expresso Metropolitano, entre o Aeroporto Afonso Pena e o Centro Cívico, a partir de 2031. Nesse cenário, seriam suprimidas as linhas 500 (Ligeirão Boqueirão), 503 (Expresso Boqueirão), 505 (Boqueirão/Centro Cívico) e 206 (Barreirinha/São José). Não são cortes imediatos: dependem do VLT, cuja capacidade de substituir viagens completas ainda precisa ser demonstrada.

O mesmo anexo secciona os anéis do Circular Sul (502/602) e do Sítio Cercado (507/508) e encurta o Ligeirão Pinheirinho/Carlos Gomes (550). Uma rede circular permite atravessar bairros sem retornar ao Centro; convertê-la em segmentos implica novos desembarques e conexões. Para quem sai do Sítio Cercado, do Hauer ou do Boqueirão, um trilho no corredor não substitui automaticamente as ligações transversais.

Segundo os estudos operacionais e de demanda anexados pela URBS, a modelagem estima, com o VLT, 56 ônibus a menos na frota operacional, 62 na frota total e redução de 3,56 milhões de quilômetros e 182 mil horas operacionais de ônibus por ano. Isso não prova perda equivalente na oferta total, pois haverá um novo modal; mostra a retirada de serviço sobre pneus, que exige avaliação pública de capacidade, integração e tempo porta a porta.

Além do VLT, os anexos redesenham dezenas de linhas de bairro. O levantamento identifica 36 intervenções, entre fusões, exclusões e alterações de percurso, incluindo 22 linhas convencionais com trajetos modificados. Quando ônibus deixam de chegar à área central ou viram linhas entre terminais, a “racionalização” pode economizar rodagem empresarial à custa de mais deslocamento do usuário. A conta deve incluir o tempo de quem viaja, não só o custo de quem opera.

O risco financeiro do VLT é igualmente concreto. Nas respostas à consulta pública, a própria URBS reconheceu que, se a implantação atrasar, a concessionária do lote BRT1 deverá renovar a frota necessária, com possibilidade de recomposição do equilíbrio econômico-financeiro mediante revisão extraordinária, nos limites contratuais. Não é indenização automática, mas risco de ampliar despesas públicas por um projeto incerto.

A remuneração empresarial independe do número de passageiros e considera quilometragem, horas, frota e investimentos; a taxa interna de retorno de referência é de 10,14% reais ao ano. Embora preveja indicadores de qualidade, a redução por desempenho insuficiente pode chegar a apenas 3% da remuneração mensal. Por que tanta previsibilidade econômica sem proteção igualmente verificável ao tempo e ao acesso dos usuários?

O Tribunal de Contas do Paraná (TCE-PR) apontou, em 2025, 37 achados e 82 recomendações sobre a modelagem metropolitana: riscos públicos, incentivos frágeis à qualidade e lacunas de governança. Em artigo de 2024 no Brasil de Fato Paraná, Patrícia Schipitoski Monteiro e eu mostramos que o índice de passageiros por quilômetro metropolitano era 33% inferior ao da capital: distâncias maiores não significam menor necessidade social. Tratar periferias como “ineficientes” alimenta o círculo de cortes, perda de usuários e deterioração do serviço.

Em outubro, a licitação da URBS também foi suspensa após questionamentos sobre as linhas compartilhadas com a AMEP. A empresa defendeu publicamente que a operação conjunta evita duplicidade de cobrança. O TCE-PR voltou a suspender o certame em 28 de outubro, apontando questões sobre riscos contratuais, produtividade e alterações editalícias. São controvérsias em análise, não irregularidades definitivamente julgadas.

A Lei nº 15.432/2026, marco federal do transporte coletivo, aponta para integração regional, gestão democrática, receitas extratarifárias e separação entre tarifa pública e remuneração. Embora só entre em vigor em 2027, sua direção importa: mobilidade é direito social, não mera equação contratual.

Antes de retomar as licitações, estado e município devem divulgar avaliação integrada por linha e cenário, inclusive sem VLT: origem-destino, frequência, lotação, acessibilidade, custos e tempo porta a porta. Nenhum seccionamento deveria ocorrer sem serviço equivalente, integração sem nova tarifa e participação dos municípios, usuários e trabalhadores. É hora de discutir um Sistema Único de Mobilidade, com fundo metropolitano, controle social, prioridade viária nas periferias e horizonte da tarifa zero.

Curitiba não precisa apagar a história do BRT, mas deixar de usá-la como salvo-conduto. A cidade-modelo, que termina na divisa, corta ligações e vende baldeações como modernização — produz vitrine, não integração. A medida de uma rede não é quantos veículos aparecem na fotografia, mas quantas pessoas chegam com tarifa suportável, tempo razoável e dignidade. A metrópole já existe na vida; falta existir no planejamento e na democracia.

*Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Editado por: Murilo Bernardon

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