Samilly Alexandre

Samilly Alexandre é mestre em serviço social pela Universidade Estadual do Ceará (UECE) e militante do Movimento Brasil Popular.

Brasilidades: Meridiana e o Brasil entre o ir e o voltar

Capa do Livro "Meridiana"
Eliana Alves Cruz constrói uma narrativa engenhosa sobre o processo de ascensão social de uma família negra | Crédito: Sofia Isbelo

Porque o livro nos ensina algo que muitas famílias negras conhecem no corpo: ter acesso não significa ser incluído.

Recebi a notícia ainda ontem à noite e confesso que sorri sozinha diante da tela: Meridiana, de Eliana Alves Cruz, venceu o Prêmio Jabuti na categoria Romance Literário. Não foi pouca coisa. Entre os finalistas estavam nomes como Itamar Vieira Junior, Milton Hatoum e Aline Bei. Meses antes, em junho, o mesmo livro já havia sido o primeiro a receber o Prêmio Guimarães Rosa, criado pela Academia Brasileira de Letras para o melhor livro de ficção do ano. Eliana, que já havia levado um Jabuti em 2022 com os contos de A vestida, chega agora ao centro do reconhecimento literário com uma história que fala, justamente, sobre o que custa chegar ao centro.

Talvez por isso este texto me parecesse urgente. Por aqui, já caminhamos com Carolina Maria de Jesus pelo quarto de despejo de uma cidade que empurrava os pobres para fora do mapa. Atravessamos com Kehinde as páginas de Um defeito de cor e acompanhamos Fio Jasmim nas andanças de um menino grande que o país se recusou a ninar. Com Eliana, a pergunta muda de lugar: o que acontece quando a família negra consegue sair do despejo? O que acontece quando ela chega, enfim, ao condomínio, à escola particular, ao emprego de concurso, ao bairro onde antes só entrava pela porta de serviço?

Meridiana conta a trajetória de uma família que deixa a favela Matadouro rumo a uma vida de mais acessos. Ernesto, o pai, vê no concurso público para um banco a chance de se livrar do medo permanente do amanhã. Aurora, a mãe, trabalha no mundo da moda e equilibra, sobrecarregada, a casa, a família e os sonhos que insiste em manter para si. Zuleica, amiga de infância do casal, fica — e é na sua permanência engajada na favela que o lar segue tendo endereço. Os filhos, César, Augusto e Meridiana, crescem entre dois mundos, e cada um paga um preço diferente pela travessia. São seis vozes em primeira pessoa, seis modos de narrar a mesma família, e é nessa polifonia que o Brasil vai se revelando.

Porque o livro nos ensina algo que muitas famílias negras conhecem no corpo: ter acesso não significa ser incluído. Ernesto é aprovado, mas segue sendo alvo. Os filhos estudam onde os pais nunca puderam, mas continuam marcados como estranhos naquele lugar. César, ferido pela homofobia, vai embora do país e descobre que atravessar fronteiras não apaga a raça, o gênero e a sexualidade cravados no próprio corpo. Augusto aprende cedo que a proximidade com homens brancos e ricos abre portas, e passa décadas longe de si mesmo até precisar voltar. E Nandi, a neta, ainda criança, é violentada pelo racismo na escola, lembrando-nos de que a ascensão de uma geração não blinda a seguinte.

E há Meridiana. A filha que, desde menina, aprendeu a mediar conflitos, administrar remédios, cuidar do pai que envelhece, da mãe que começa a esquecer, dos irmãos que seguem suas vidas. Uma personagem que carrega o peso historicamente atribuído às mulheres negras — o de cuidar de todos, o tempo todo —, mas que, e aqui está a sensibilidade de Eliana, também se cansa, questiona, reclama. Meridiana não é a mulher forte romantizada que dá conta de tudo. É uma mulher que, um dia, precisa aprender a cuidar de si.

Seu nome não é por acaso. O meridiano é a linha que divide o mundo em dois polos. Mas como é habitar a própria linha? Viver no entrelugar, sem pertencer inteiramente ao lado de onde se partiu nem ao lado aonde se chegou? Essa é a pergunta que atravessa o livro desde a primeira página, quando a menina pergunta ao pai: “Pai, é mais fácil ir ou voltar?”. E Ernesto responde que voltar só é fácil quando se precisa muito daquilo que ficou para trás.

Essa pergunta me acompanhou a leitura inteira. Quantos de nós já não sentimos isso? A primeira da família a entrar na universidade, o primeiro a comprar um apartamento longe do bairro onde cresceu, aquela que hoje ocupa espaços que a avó jamais pisou. Quantos de nós já não voltamos para casa sentindo um misto de saudade, vergonha e culpa? Eliana não nos oferece respostas — ela mesma já disse que o livro não pretende fechar nenhuma. Mas nos devolve o direito à pergunta, e isso já é muito.

Há algo bonito e profundamente político no movimento de retorno que o romance desenha. Ernesto volta a morar sozinho na antiga casa do Matadouro. Augusto, divorciado e sem rumo, reencontra o pai ali. Meridiana, no fim, volta para buscar Eunice, a amiga de infância de quem a distância e os diferentes lugares sociais a haviam separado. E é nesse reencontro que ela começa, finalmente, a olhar para si. Como se o livro nos dissesse que a mobilidade social, num país como o nosso, só se completa quando não exige o abandono de quem fomos.

Se Carolina nos mostrou a favela como quarto de despejo, Eliana nos mostra que, mesmo quando a família negra sai dele, o país insiste em lembrá-la de onde veio. A sala de visitas continua tendo dono. E o mérito, tão celebrado, não protege ninguém da violência de um Brasil que segue organizado pelo racismo, pelo patriarcado e pela desigualdade de classe. Meridiana é, assim, um retrato da nossa formação social em pleno movimento: não mais apenas a margem, mas a margem que chega ao centro e é rejeitada por ele.

Ver Eliana Alves Cruz premiada com o Jabuti é ver uma escritora negra ocupar, por direito, um lugar historicamente negado às mulheres negras na literatura brasileira. É ver a escrita das margens reconhecida não como exceção, mas como interpretação legítima e potente do Brasil. Que este prêmio seja convite para que mais gente leia Meridiana. E que, ao ler, possamos encontrar nosso próprio meridiano: a linha onde é possível ir sem deixar de voltar.

* Samilly Alexandre é mulher de terreiro; assistente Social; mestre em serviço social, trabalho e questão Social; militante do Movimento Brasil Popular.

**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Editado por: Geovanni Carvalho

|

Newsletter