Sebastião Costa

Médico e fundador do coletivo Amigos da Democracia.

O voto nordestino

Presidente Lula em caminhada com apoiaores da Bahia e Pernambuco
Presidente Lula em caminhada com apoiaores da Bahia e Pernambuco | Crédito: Ricardo Stuckert/PR

O voto dos habitantes dessa região de tantos sofrimentos é sempre o mais consciente de todos os votos do país!

As violentas agressões aos nordestinos no pós-eleições inundando as redes sociais já viraram uma perversa rotina e nos remete à frase famosa do reacionário Diogo Mainardi: “O voto do nordestino é bovino”. Até a “sociologia” de Fernando Henrique Cardoso, o FHC, tempos atrás entrou nessa onda: “O PT está apoiado em setores da sociedade que são, sobretudo, menos informados…”

Já a sociologia bolsonarista harmonizada com a agressividade de sua genética invadiu as redes sociais afirmando que “o Nordeste é o câncer do país”.

Caberia perguntar ao sociólogo, que já passeou pela praça esquerdista o que dizer de brasileiros que desenvolveram um ódio desenfreado ao Partido dos Trabalhadores e um preconceito raivoso contra os irmãos que habitam os nove estados mais carentes do país.

A classe média alta em nosso país sofre de duas patologias crônicas: o egocentrismo e a miopia social. Para os privilegiados que habitam os apartamentos chiques das grandes cidades, o Brasil acaba ali na esquina. Só lembram dos pobres nordestinos nas eleições e mesmo assim quando eles contrariam o seu parco raciocínio político. Esqueceram completamente que eles, os nordestinos, tempos atrás ajudaram a eleger duas vezes o sociólogo, tangidos pelos cabrestos dos coronéis da antiga Arena dos generais.

Os três mandatos de Lula investiram pesado na região, elevaram o padrão de vida da população, desataram os cabrestos e aí ficaram só os coronéis. Na época o DEM, partido dos coronéis quase fecha as portas.

Apesar de manter um Produto Interno Bruto (PIB) que sempre participou do ranking das mais estabelecidas do mundo, a pornográfica concentração de renda do nosso país condenava os brasileiros a um ridículo terceiro lugar (Serra Leoa e Honduras à frente) entre os países mais injustos do mundo. Seu Índice de Densenvolvimento Humano (IDH), avaliado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) jogava o Brasil na categoria dos intermediários, misturado com países da América Latina de economia subdesenvolvida e bem atrás da Argentina, Chile, Uruguai, Cuba.

Essa situação se aprofundou durante os dois “principados” de FHC, quando a economia “quebrada” levou o país a visitar o Fundo Monetário Internacional (FMI) três vezes, deixou um PIB minguado e uma reserva cambial na raspa do tacho de 30 bilhões de dólares (dinheiro emprestado do FMI).

Em 2002, início dos governos petistas os investimentos no Bolsa Família – hoje, 49 milhões de brasileiros, a maioria absoluta no Nordeste –, gerando recursos onde não existiam, e o aumento real do salário mínimo, aumentando a circulação de dinheiro onde quase não existia, alimentou toda uma cadeia produtiva que foi decisiva para o surgimento de 22 milhões de novos empregos. A reserva cambial foi para as alturas de 360 bilhões de dólares, o PIB do país quase quadruplicou e 35 milhões de inquilinos da base da pirâmide social foram curtir as mordomias da classe média.

A concentração dos investimentos na Região Nordeste produziu uma taxa média de aceleração do PIB per capita na região de 3,12%, contra 1,81% do Sudeste.

Surfando nesta onda, pobres e miseráveis do Nordeste escalaram vários batentes da escada social e começaram a visitar shopings centers, encheram os aeroportos e vejam vocês, tiveram a ousadia de botar na garagem um carrinho 0 km.

Reduzido o fosso social e o Índice de Desenvolvimento Humano do nosso país viajou do intermediário para ficar entre os países de alto desenvolvimento da América Latina

Até o ocaso do governo tucano, o ensino superior no Brasil era um privilégio exclusivo das classes sociais que habitavam do meio da pirâmide pra cima.

Durante cem anos as matrículas em universidade pública não ultrapassaram 3 milhões. Em apenas oito anos (2002 a 2010) a incorporação de 14 faculdades públicas (recorde absoluto), o Fies, Prouni mandaram à universidade mais 3 de milhões e quinhentos mil brasileiros, maioria absoluta nas classes sociais mais sofridas.

Onde já se viu, naquele país cruelmente injusto, a filha do taxista, o filho da doméstica com anel no dedo? Brutal impacto no elitismo feroz do ensino superior brasileiro.

Ponha ainda na conta dos governos petistas, o Minha Casa, Minha Vida, o Luz Para Todos e o água para todo mundo da Transposição do São Francisco.

E a pergunta surge inevitável: Qual ingrato nordestino, que passou fome (saqueavam as cidades durante as estiagens, lembram? ) sem casa para morar, sem água para beber, sem luz para iluminar as noites escuras, sem poder sonhar com um curso superior, não votaria no nordestino Luiz Inácio Lula da Silva?

Há de se convir, portanto, que o voto dos habitantes dessa região de tantos sofrimentos é sempre o mais consciente de todos os votos do país!

*Sebastião Costa é médico e fundador do coletivo Amigos da Democracia.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Carolina Ferreira

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