Selvino Heck

Deputado estadual constituinte do Rio Grande do Sul (1987-1990); Participante da Ciranda pelo CEAAL Brasil, CAMP e Articula PNEPS-SUS.

Fórum Social Mundial, um outro mundo possível, hoje urgente e necessário

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Fórum Social Mundial 2024 inicia hoje (15) em Katmandu, capital do Nepal
Fórum Social Mundial 2024 aconteceu em Katmandu, capital do Nepal | Crédito: Crédito: Foto: Reprodução Setopati Newspaper

O outro mundo possível hoje, 2026, mais que em 2001, tornou-se urgente e necessário como nunca antes

Final dos anos 1980, início dos anos 1990, a participação popular tomou conta de Porto Alegre, a capital das gaúchas e dos gaúchos. Surgiu o OP, Orçamento Participativo. Em Assembleias abertas, a população fazia o debate sobre o orçamento público e decidia democraticamente onde deveriam ser aplicados e investidos os recursos públicos. Eram milhares de participantes, especialmente nas periferias e vilas populares, onde havia organização comunitária.

Na Lomba do Pinheiro, por exemplo, onde morei nos anos 1970 e 1980, em Assembleias enormes, os participantes decidiram investir o dinheiro na saúde, com postos de saúde, na educação, no transporte público e, para espanto de muitos, em asfaltamento das ruas das vilas populares, como a São Pedro, Santa Helena, Panorama, Bonsucesso, MAPA, para terem mais qualidade de vida e não precisarem pegar o ônibus na poeira ou lama das ruas.

O OP espalhou-se pelo Brasil assumido por muitos governos populares e mesmo internacionalmente, tornando-se referência de governos com participação popular e de melhora na vida do povo, trabalhadoras e trabalhadores, especialmente dos mais pobres entre os pobres.

No final dos anos 1990, com a vitória de um governo popular no Rio Grande do Sul, o OP aconteceu em todo o Rio Grande do Sul, havendo Assembleias populares em todos os municípios gaúchos, o povo decidindo o destino dos recursos públicos.

Era hora de abrir um debate mais amplo, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, no Brasil e no mundo. À luz do OP, era necessário discutir um projeto estratégico, democrático e popular de Brasil, América Latina e mundo. Surgiu a ideia de realizar um Fórum Social Mundial. Onde? Obviamente em Porto Alegre. Assim aconteceu o primeiro FSM, em 2001, com milhares de participantes vindos de todos os continentes, e que, com muito mais participação, aconteceu de novo na capital gaúcha em 2003 e em 2005. Depois espalhou-se pelo Brasil e atravessou fronteiras, indo para outros países e continentes.

Qual era, e ainda é, a frase referência do FSM? Um outro mundo possível, a ser construído pela unidade do povo organizado, pelos sonhos de militantes, pela decisão de mudar o mundo, com direitos para todas e todos, com igualdade social e econômica, com justiça, com soberania e democracia.

Estamos em 2026. O FSM 2026 está acontecendo, de 4 a 8 de agosto, na cidade de Cotonou, no Benin, África Continental. 25 anos depois do primeiro FSM, os sonhos de liberdade continuam. Um outro possível continua presente no coração e nas mentes de milhares de revolucionários e revolucionárias, sonhadoras e sonhadores.

A expectativa em Benin é de ter mais de 50 mil participantes de 150 países. Os temas centrais a serem discutidos nesta edição do FSM são: governança de recursos naturais, agroecologia camponesa, direitos humanos, paz, em mais de 200 oficinas, com acampamento das juventudes, vilarejo das mulheres e a mais ampla participação popular.

Mas este outro mundo possível continua muito longe dos sonhos e da utopia de quem participa desde 2001 dos FSMs. Há uma crise civilizatória, com ausência de paz, com uma crise climática sem precedentes, com violência e corrupção por toda parte e ameaças diária à soberania e à democracia. O outro mundo possível hoje, 2026, mais que em 2001, tornou-se urgente e necessário como nunca antes.

No caso brasileiro, as eleições quase gerais de outubro são fundamentais para construir um outro mundo possível,  guiado pela educação popular e Paulo Freire, políticas públicas com participação social e popular, com paz, garantia de soberania, democracia.

PS. O artigo estava escrito quando Mauri Cruz, do Comitê Internacional do FSM, enviou a mensagem Carta política dos movimentos sociais da América Latina ao Conselho Internacional do Fórum Social Mundial, que diz, entre outras coisas: “Os movimentos sociais, redes e organizações reunidos durante o Fórum Social Mundial de 2026, em Benin, dirigem-se ao Conselho Internacional movidos por um sentimento comum de solidariedade, responsabilidade histórica e profunda preocupação com os acontecimentos que marcaram esta edição do Fórum.”

Diz mais a Carta Política: “Vivemos uma conjuntura internacional marcada pela reorganização do capitalismo global, pelo fortalecimento do imperialismo, pela financeirização da economia, pela concentração de poder nas grandes corporações tecnológicas, pelo avanço da extrema direita, pelo crescimento das guerras, pela emergência climática e pelo enfraquecimento das instituições democráticas. Esses processos não são paralelos: fazem parte de uma mesma ofensiva contra os direitos, a soberania dos povos e a capacidade de organização da sociedade civil.”

Mais: “Chegou o momento de realizarmos uma reflexão sobre nossa capacidade de responder aos desafios do século XXI. O Fórum Social Mundial precisa preservar sua identidade anti-capitalista, anticolonial, antipatriarcal, antirracista e antifascista, mas também precisa reinventar seus instrumentos de articulação política. O Fórum deve consolidar-se como um  processo permanente de convergência internacional, produção de estratégias comuns e construção de alternativas concretas para os povos.”

Finalmente, diz a Carta Política: “O Fórum Social Mundial nasceu afirmando que um outro mundo é possível. Hoje, diante da conjuntura que enfrentamos, somos chamados a afirmar algo mais: um outro Fórum Social Mundial é necessário. Um Fórum capaz de dialogar com os desafios do  presente sem renunciar com seus princípios, capaz de transformar diversidade em unidade de ação, capaz de fortalecer o internacionalismo dos povos diante da reorganização do capitalismo global. Cotonou, Benin, 05 de agosto de 2026.”

Viva o Fórum Social Mundial! Um outro mundo é possível, e é hoje, 2026, mais que nunca urgente e necessário.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.



Editado por: Vivian Virissimo

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