À companheira de sempre, Ana Godoy, in memoriam
“Minha primeira experiência de campanha eleitoral e de aproximação partidária foi nas eleições de 1978. Eu já com 27 anos. O padre Roque Steffen, vigário da Paróquia São Carlos, Bairro Agronomia, Porto Alegre, que era a paróquia oficial das comunidades da Lomba do Pinheiro, onde eu então morava como frei franciscano, resolveu candidatou-se a deputado estadual pelo MDB autêntico. Como era padre redentorista, em tempos de ditadura militar, por óbvio não tinha amparo na e da Igreja católica e na sua Congregação. Frei Arno Reckziegel, que começou o trabalho franciscano na Lomba no início dos anos 1970, acolhê-lo na nossa casa-comunidade na rua São Pedro, Vila São Pedro, parada 13 da Lomba do Pinheiro. Morou conosco durante toda a campanha e nos engajamos abertamente nela, dentro do MDB autêntico e progressista. Ele não se elegeu, embora tivesse feito boa votação. Mas foi a minha primeira experiência político-eleitoral e um grande aprendizado, o que abriu portas para os acontecimentos e ações nos ano seguintes, anos 1980. (Selvino Heck, em Memórias do PT Gaúcho, organizado por Adeli Sell, 2024, pp. 20-21).
A partir daí, a maioria das lideranças da Lomba do Pinheiro, engajou-se na militância partidária e ajudou a organizar o Partido dos Trabalhadores em 1980, organizando o Núcleo de Base do PT da Lomba do Pinheiro, que primeiro funcionou na minha casa na Vila Santa Helena, parada 12, depois na casa do já falecido José Carlos Pintado, o seu Cantílio, na Vila são Pedro, parada 13, vizinho dos históricos Dona América, ainda viva e militante, e do Zé da Lomba, também vivo e militante.
A segunda experiência eleitoral foi nas eleições de 1982, primeira campanha eleitoral com participação do PT recém fundado, em fevereiro de 1980. O Núcleo do PT da Lomba do Pinheiro escalou como candidatos alguns de seus participantes, todas e todos trabalhadoras-es e lideranças comunitárias (Memórias do PT Gaúcho, II, p. 23). Em Viamão (Lomba do Pinheiro era então em parte município de Viamão). Candidato a prefeito, o pedreiro Zé da Lomba, morador da vila São Pedro; candidato a vice-prefeito, o pedreiro Mário Declerque, morador da vila Santa Catarina; a vereador, Adão Lemos Alves, presidente da Associação de Moradores da Vila São Pedro; a deputado estadual, o militante e educador popular Selvino Heck, morador da vila Santa Helena. Candidata a vereadora por Porto Alegre, Ana Godoy, moradora da então Vila Tamanca, que depois passou a se chamar Vila Esmeralda.
Matéria do jornal Folha do Mate, de Venâncio Aires, (08.10.82), com foto dos candidatos Selvino Heck, Rogério Heinen e Maria Joelma Lopes, todos então jovens e bonitões, diz na manchete: ”O Partido dos Trabalhadores com autenticidade em busca de um futuro forte.”

Diz a matéria: “O PT é a expressão partidária dos movimentos populares, surgidos nos últimos anos, a caminho da transformação da sociedade brasileira por um partido próprio formado por trabalhadores, construído e controlado por ele onde os trabalhadores aprende mais a fazer politica”. Estas foram as palavras de Selvino Heck, natural de Santa Emília, interior deste município, candidato a deputado estadual pelo PT, que esteve em visita à Folha do Mate, acompanhado pelo candidato a prefeito do partido Rogério Heinen e pela candidata a vereadora Maria Jocima Lopes da Costa.” Nas minhas palavras de então, 1982, “mesmo não ganhando as eleições este ano, o PT está caminhando para dentro de poucos anos ser o maior partido do país.”
Foi uma eleição difícil esta de 1982, ainda em meio à ditadura, e quando não havia eleição para prefeitos de capitais, governador e presidente. O PT elegeu um único vereador em todo Rio Grande do Sul, o jornalista Antônio Hohlfeldt, em Porto Alegre. Sua primeira suplente foi a moradora da Lomba do Pinheiro Ana Godoy, que assumiu várias vezes a Câmara municipal. Fui o candidato a deputado estadual mais votado do PT RS, mas o partido não atingiu o quociente mínimo para eleger um deputado.
Ana Godoy escreveu em seu livro Vila Esmeralda – Uma voz dos que não têm voz (Editora Vozes- EST, 1982, p. 57: “A Vila Esmeralda e eu. Bom, eu gostaria de ampliar o nosso trabalho comunitário… Porque existem muitas vilas em precárias condições…. Sei que sozinha eu não posso fazer nada… Mas se todos se unissem…. Poderíamos fazer tanta coisa… Mas isso só com a participação política, o dia em que todos os trabalhadores se conscientizarem, que não adianta apenas votar nas eleições, mas continuar atuando, e principalmente o dia em que esta gente pobre como eu perceber que o Parlamento, a Câmara de Vereadores, não é um lugar que possa ser ocupado apenas por uma minoria, e que qualquer um pode ser vereador ou deputado, que para isto não é preciso ter muito estudo. Neste dia, nós contaremos com uma grande vitória, a vitória da classe mais oprimida, pois não adianta elegermos os patrões para o Parlamento, que eles não vão fazer nada por nós, nem para o local onde mora, pois ele não mora aqui, não tem que atravessar 800 metros pelo meio do mato para achegar em casa como nós…”
Ana Godoy, grande liderança comunitária da Lomba do Pinheiro, foi profética. A terceira experiência eleitoral, em 1986, foi mais do que vitoriosa. Será contada semana que vem, com outras histórias e memórias.
O PT sempre foi vitorioso na Lomba do Pinheiro, fruto do trabalho de organização política, das lutas comunitárias das Associações Comunitárias, das Pastorais sociais e das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), dos processos permanentes de formação e conscientização. Já coloquei o desafio para os petistas da Lomba, para os membros do Núcleo de Reflexão Política da Lomba e do Cursinho Popular KiLomba. Vitória, sem dúvida nenhuma, em 2026, na eleição das nossas vidas, na Lomba do Pinheiro, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul e no Brasil. Não há tempo a perder. É rua, manhã, tarde, noite, madrugada. Vitória lá e cá.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.


