Os próximos anos não serão fáceis, ninguém se iluda, mesmo com a vitória brilhante de Lula. Há uma crise civilizatória, que não se resolve facilmente, nem rapidamente. Cada dia há acontecimentos novos não previstos. No Brasil, em toda sua história, a democracia nunca esteve consolidada, haja vista o período de escravidão, as diversas ditaduras, inclusive militares, e o recente impeachment, com golpe, da presidenta Dilma Rousseff, com todas as suas trágicas consequências.
É preciso, portanto, pensar ações, propostas e futuro de curto prazo. Mas tudo será possível ser feito e consolidado no médio e longo prazos, nos próximos cinco, dez, quinze anos ou mais.
O primeiro e principal desafio no curto prazo: como incorporar/organizar as multidões que se envolveram no processo eleitoral, no segundo turno, em especial as juventudes, as mulheres e o povo das periferias.
Em outros tempos, em idos tempos, nos anos 1970, em tempos de ditadura militar, o trabalho de base estava no centro de tudo. Nos anos 1980, com o surgimento e organização de movimentos populares nacionais, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) a partir de grandes ocupações, das grandes greves puxadas pelo movimento sindical e, na sequência, a fundação da Central Única dos Trabalhadores (CUT), a fundação do Partido dos Trabalhadores (PT), um partido de esquerda com projeto estratégico de país e nação, a fundação de ONGs como o CAMP. O trabalho de base esteve sempre presente e no centro de tudo, acompanhado da criação dos Núcleos de Base do PT, como o Núcleo do PT da Lomba do Pinheiro, que ajudava a articular as diferentes lutas, fazia formação política nas vilas populares e os Núcleos de diferentes categorias profissionais, como metalúrgicos, bancários, professores, funcionários públicos, entre outros.
Assim, aconteceram, nos anos 1980, as Diretas Já, com milhões nas ruas, a preparação da Constituinte, a oitava Conferência Nacional de Saúde, em 1986, pela primeira vez com a participação da sociedade civil, quando se pensou, foi proposto e se construiu o Sistema Único de Saúde (SUS), hoje referência no mundo inteiro.
Garantir e fortalecer a democracia é, pois, fundamental nos próximos anos. Ainda mais depois do resultado das eleições americanas, onde, de alguma forma, à luz inclusive do resultado eleitoral brasileiro, o povo estadunidense resolveu dar um recado para o mundo.
São, entre outros, os enormes desafios durante o quarto governo Lula. E tudo isso em tempos de Inteligência Artificial (IA), cada dia mais presente, e que torna tudo mais fácil, ou não.
Sonhar nestes tempos é plenamente possível, além de urgente e necessário. A utopia está viva, freireanamente.
Vale lembrar, e reler, um poema que escrevi em 1976, em plena ditadura militar, publicado no livro de poesias Em Mãos do Grupo Veredas (EM MÃOS, Lume Editora, 1976):
Abraço universal
Abraço o homem,
suas dores, armas,
cansaços e feridas.
Abraço o mundo
e todas as coisas,
sua esperança e abandono,
sua essência e conteúdo.
Abraço o povo caminhante e peregrino,
suas chagas e alegrias,
seus mapas e inimigos.
Abraço a vida,
suas feras e medidas.
Abraço tudo,
cada coisa e sua bagagem,
cada mulher, cada homem
e sua liberdade.
*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.


