Em 9 de fevereiro deste ano, 2026, por ocasião do início do semestre acadêmico, a comunidade da Universidade do Distrito Federal (UnDF) recebeu um e-mail da Reitoria Pró-tempore à época no qual se comunicava sobre a “expansão da Universidade do Distrito Federal – Implantação do Campus Ceilândia”. Tal comunicado, assentava tal expansão como “avanço significativo para a instituição”, sem ao menos, de forma transparente e democrática, haver nenhum diálogo com estudantes e professores. O comunicado informava que, até o final daquele mês, seriam anunciados os cursos que migrariam para o novo campus. Assim mesmo, da noite para o dia.
O contrato de cinco anos, firmado entre o Governo do DF e a Instituição de Ensino Superior de Brasília (Iesb) sem licitação, tem o valor de R$ 110.555.653,25; numa prática recorrente deste GDF em contratos de aluguel. Posteriormente, na “inauguração” deste campus, nenhum docente ou estudante foi convidado, ao menos não formalmente.
A bagatela de R$ 110 milhões, oriunda do Fundo da universidade (FUnDF) levanta questionamentos, uma vez que os recursos deste Fundo deveriam se ater a obras, projetos, pesquisas e inovação, conforme seu próprio decreto de criação (Decreto 42.987/2022 e a LODF 240-A). Outro fator é que cerca de R$ 42,8 milhões em serviços condominiais amplos não estão incluídos no contrato de aluguel, como limpeza, vigilância e manutenção, e estes não tiveram licitação, o que poderia representar burla ao dever de licitá-los. Outrossim, a menos de 1,5 km do prédio Iesb, na QNN 27 área D, o próprio GDF cedeu um terreno público à UnDF. Acrescenta-se ainda que há outros terrenos públicos disponíveis pelo DF também.
Uma universidade nova que não possui Restaurante Universitário nem no Campus Norte (Lago Norte), muito menos neste “novo campus” alugado em Ceilândia, que por sua vez precisa ampliar suas políticas de assistência estudantil, seus projetos de pesquisa, entre outros, não deveria pensar sua expansão de forma responsável, transparente e duradoura? Por que usar recursos do FunDF para esta locação, quando se poderia construir, de fato, um campus planejado e com a infraestrutura adequada para o seu funcionamento?
Por que a comunidade acadêmica não participou deste processo altamente verticalizado e imposto, sendo convocada às pressas para migrar completamente suas rotinas até Ceilândia, como num passe de mágica?
Estudantes de alguns cursos prestes a se formarem, entre outros, tiveram como solução proposta a mudança de curso! Muitas pessoas passaram a se deslocar cerca de 30, 40 km, seja do próprio Campus Norte, de suas residências ou de outros pontos do DF, até Ceilândia, em muitos casos, em horário de pico. Um verdadeiro “Se vira nos 30”. Sem contar estudantes que ingressaram no início do ano (2026) pelas vagas remanescentes e que residem em regiões administrativas (RA’s) e regiões próximas ao Campus Norte, os quais também foram pegos de surpresa. Muitos estudantes trancaram a matrícula, ainda que depois da greve docente e discente, ficasse acordado que os cursos que iniciaram no Campus Norte, não mudariam para o “Campus Ceilândia”.
Assim, no espaço de mais de 50 mil metros quadrados da instituição Iesb em Ceilândia, convivem estudantes da referida instituição, no âmbito da educação básica, seus funcionários e, ao mesmo tempo, servidores e estudantes da UnDF. Há uma parte do prédio pintada de azul, em alusão à UnDF, e as demais, em vermelho, cor da Iesb, refletindo assim certa confusão entre as duas instituições. Em alguma medida, algo característico do Estado brasileiro, em sua dificuldade de distinguir o público do privado, herança do patrimonialismo e colonialismo deste país continental. Não que a esfera privada não possa contribuir com a esfera pública e vice-versa, no entanto, não é disso que se trata aqui.
Para se ter um parâmetro, o governo federal construirá dois novos campi do Instituto Federal de Brasília (IFB) no DF, um em Sol Nascente e outro em Sobradinho, ambos com o valor estimado de R$ 50 milhões. Certamente, eles possuem outro perfil educacional e de infraestrutura, todavia é nítida a diferença entre este valor para os dois campi e aquele do contrato de aluguel GDF-UnDF-Iesb.
Os recursos do fundo da universidade deveriam ser, por óbvio, da própria universidade!
Quantos campi poderiam ser construídos com R$ 110 milhões? Quantos projetos poderiam ser viabilizados? Assistência estudantil? Bolsas de estudo? Laboratórios? Salas de aula? Restaurantes universitários? Quantas obras de infra-estrutura e acessibilidade? Quantos espaços culturais e de convivência? Quantas bibliotecas e livros? E após os cinco anos do suntuoso contrato, este será renovado e, por conseguinte, representará mais danos ao erário? Ou, caso não seja, para onde irá a comunidade acadêmica? Quando a UnDF terá finalmente um ou mais campus próprio(s) e permanente(s)? Qual o compromisso deste GDF, de fato, com esta política de educação superior criada por ele mesmo, para além do acesso da população à universidade?
Isso sem falar na desvalorização da carreira Magistério Superior do DF, com remuneração altamente defasada, pouca atratividade e considerável evasão docente para uma universidade nova e que se quer promissora. Tantos recursos não poderiam ser aplicados na valorização (urgente!) dos docentes?
É importante ressaltar que é fundamental e necessário que a universidade expanda sua atuação, tanto para Ceilândia quanto para outras RA’s, no entanto, não por meio de aluguéis milionários de prédios de instituições privadas, sem sequer, ao que parece, ter um horizonte de planejamento, tampouco sem ouvir estudantes e docentes, afinal, para quem é esta universidade? É para os estudantes ou para os locadores de prédios privados
Não basta expandir, é necessário fazê-lo com responsabilidade, transparência, respeito e em diálogo com a comunidade acadêmica, num projeto verdadeiramente consistente de educação superior pública e sua expansão qualificada e sustentável. Assim lutamos, assim desejamos!
*Guilherme Bruno é professor e diretor do Sindicato dos Docentes da Universidade do Distrito Federal (SindUnDF).
**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato DF.
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