Terra de Direitos

A Terra de Direitos é uma organização de Direitos Humanos que atua na defesa, na promoção e na efetivação de direitos, especialmente os econômicos, sociais, culturais e ambientais (Dhesca). Criada em 2002, a Terra de Direitos incide nacional e internacionalmente nas temáticas de direitos humanos e conta com escritórios em Santarém (PA), em Curitiba (PR) e em Brasília (DF).

Em nome da Ku Klux Klan, o racismo volta a ser método de intimidação política

Parlamentares se manifestam contra a violência política de gênero na Câmara dos Deputados.
Parlamentares se manifestam contra a violência política de gênero na Câmara dos Deputados. | Crédito: Pablo Valadares / Câmara dos Deputados

Das nove pessoas ameaçadas em nome da Klan ou do supremacismo, todas são mulheres, seis são negras e oito são do PT ou do PSOL.

Desde 2025, ao menos nove pessoas que atuam na política brasileira receberam ameaças assinadas em nome da Ku Klux Klan ou de grupos supremacistas e neonazistas. Seis são mulheres negras, e até agora nenhum dos autores dessas ameaças foi responsabilizado.

O jornalista Mateus Fernandes, de 26 anos, passou a receber ameaças de morte e de tortura após declarar voto em Lula no segundo turno e articular uma campanha de “vira-voto” com influenciadores. Desde então, recebeu oito mensagens racistas, com referências à Ku Klux Klan e elogios a Rudolf Höss, comandante de Auschwitz. “Macacos não precisam viver”, escreveu um dos perfis. Com o endereço exposto, ele precisou deixar a própria casa e pediu proteção ao Ministério Público de São Paulo.

O caso não é isolado. A 4ª edição da pesquisa Violência Política e Eleitoral no Brasil, das ONGs Terra de Direitos e Justiça Global, identificou, desde novembro de 2024, 56 episódios de violência política com cunho racista. Em nove deles, a ameaça veio assinada em nome da Ku Klux Klan ou de grupos supremacistas brancos ou neonazistas.

As ameaças começaram antes da campanha. No ano passado, a prefeita de Parnamirim (RN), Professora Nilda (Solidariedade), foi alvo de ameaças de morte e insultos racistas de um perfil chamado “SupremaCia”. Depois, a vereadora Alice Carvalho (PSOL), de Santa Maria (RS), recebeu um e-mail supremacista exigindo sua renúncia. Em novembro, foi a vez de Vivi Reis (PSOL), vereadora em Belém, ameaçada de estupro e morte em mensagens assinadas pela “Nova Ordem Ariana”. Na véspera de Natal, a vereadora de Fortaleza, Adriana Gerônimo (PSOL), e sua esposa receberam ameaças de morte de conteúdo “racista, supremacista e machista”, nas palavras da parlamentar.

Durante a campanha, o ritmo acelerou. Em setembro deste ano, cinco candidatas do PT receberam e-mails com o mesmo padrão: ameaças de morte e de estupro, listas com CPFs e endereços delas e de familiares e referências à Ku Klux Klan ou ao neonazismo. Uma delas, a deputada estadual Isolda Dantas, leu que seu corpo seria arrastado pelas ruas de Mossoró. 

Das nove pessoas ameaçadas em nome da Klan ou do supremacismo, todas são mulheres, seis são negras e oito são do PT ou do PSOL.

A escolha da Ku Klux Klan pelas vítimas não é acaso. A organização nasceu no Sul dos Estados Unidos, depois da Guerra Civil, para anular, pelo terror, direitos civis e políticos conquistados pela população negra recém-libertada. Quando um remetente brasileiro promete arrastar o corpo de uma deputada pelas ruas, está reencenando esse roteiro. O objetivo é tirar alguém da vida política pelo medo.

Um mapeamento da antropóloga Adriana Dias encontrou ao menos 530 núcleos neonazistas em atuação no país, com cerca de 10 mil integrantes. As ameaças seguem um padrão e se concentram nos períodos de disputa eleitoral. Investigá-las em série, com a Polícia Federal reunindo os casos e as plataformas obrigadas a entregar os dados dos remetentes, é o mínimo para que deixem de ser anônimas.

O desafio também é dos partidos. Muitas das ameaçadas têm mandato ou acabam de conquistar um. Protegê-las exige mais do que notas de solidariedade: assessoria jurídica, segurança e acompanhamento das denúncias até o fim. Quando o nome da Klan aparece numa ameaça no Brasil de 2026, o recado é o mesmo de 150 anos atrás, e a resposta precisa estar à altura.

*Synthya Maia – doutoranda em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB). Pesquisadora na 4ª edição da pesquisa Violência Política e Eleitoral no Brasil, da Terra de Direitos e da Justiça Global. 

**Glaucia Marinho – Diretora-executiva da Justiça Global e uma das coordenadoras da pesquisa Violência Política e Eleitoral no Brasil.

***Gisele Barbieri – Coordenadora do Setor de Incidência da Terra de Direitos e uma das coordenadoras da pesquisa Violência Política e Eleitoral no Brasil.

****Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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