Valerio Arcary

Valerio Arcary é professor titular no Instituto Federal de São Paulo (IFSP), militante da Resistência/PSol, e autor de O Martelo da história, entre outros livros.

Última semana em máxima tensão

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Lula segura imagem de Nossa Senhora de Nazaré durante ato de campanha em Belém (PA)
Lula segura imagem de Nossa Senhora de Nazaré durante ato de campanha em Belém (PA) | Crédito: Ricardo Stuckert/Divulgação

A última semana inicia com um novo momento da conjuntura, e vantagem relativa de Lula em função destes fatores.

Não deixes para amanhã o que podes fazer hoje.
– Provérbio popular português

A água escolhe o seu percurso de acordo com o terreno que atravessa. 
O guerreiro busca a vitória de acordo com o inimigo que enfrenta.
– Sun Tzu, A arte da guerra.

  1. Até agora, a blindagem do bolsonarismo protegeu Flávio Bolsonaro de todas as denúncias de corrupção que o atingiram. Mesmo a revelação dos diálogos e das relações indefensáveis com o banqueiro Vorcaro foi insuficiente. Em algumas semanas, a extrema-direita demonstrou capacidade de recuperar a audiência que tinha oscilado. Parece incrível, mas tudo sugere que não há uma “bala de prata”. Porém um novo escândalo “hemorrágico” acabou de ser publicado, e deixa Flávio Bolsonaro afogado no mar de lama. Reportagem do PlatôBR expõe mensagens de WhatsApp que indicam como Flavio teria recebido “presentes” (um relógio de valor superior a R$ 300 mil e equipamentos de academia de outros R$ 90 mil) de um advogado interessado em uma aproximação com o gabinete do ministro Nunes Marques. A matéria também apresenta fotografias de sua participação em festas privadas com garotas de programa. Flávio Bolsonaro terá que se explicar sobre suborno para associação a lobby sobre Nunes Marques e prostituição. Não é possível antecipar as sequelas eleitorais sobre os indecisos. Mas sua reputação política repousou, essencialmente, sobre o prestígio de seu pai, e é indivisível da mística de defesa de valores de família “incorruptível” que desabou.
  1. A campanha de Flávio Bolsonaro já tinha sido colocada na defensiva nos últimos dez dias por cinco razões: (a) o deslocamento do centro da disputa das denúncias de corrupção contra Alexandre de Moraes — ocorrido pela intervenção urgente do ministro Flávio Dino, que pediu vistas e interrompeu a manobra de André Mendonça no STF (Supremo Tribunal Federal) — criou condições para que Lula aproveitasse o discurso na ONU para a defesa da soberania brasileira em Nova York, silenciando a ultradireita pró-Trump que quer o Brasil no Escudo das Américas ao lado de Milei; (b) o giro na orientação da campanha do presidente Lula para compromissos com o futuro, indo além da defesa do legado e biografia, assumindo propostas como o fim da jornada 6×1, o aumento do Bolsa Família, o Desenrola 3, a inclusão das canetas emagrecedoras no SUS, a universalização do ensino integral, entre outras; (c) o resultado de diferentes pesquisas que sinalizam a consolidação de uma vantagem de Lula no primeiro turno, no limite da margem de erro, mas com crescimento entre os mais pobres, mulheres e no Sudeste; (d) a repercussão da polêmica sobre o lugar de Nossa Senhora de Aparecida como padroeira do Brasil, iniciada com o post de um humorista que, meio caoticamente, reverberou em função do ambiente de luta ideológica da teoria do domínio pela conquista de supremacia evangélica; (e) o gigantesco impacto da corajosa proibição das Bets. Os sucessivos erros da campanha bolsonarista, incapaz de responder às iniciativas da campanha Lula, culminaram com acusações destrambelhadas à CNBB e confirmaram as dificuldades de Flávio empolgar a base bolsonarista, que se confirma na inexistência de atos de massa.
  1. A hora é de máximo ativismo para ganhar votos. A última semana inicia com um novo momento da conjuntura e vantagem relativa de Lula em função destes fatores. O jantar em um hotel em São Paulo, com parcela dos grandes capitalistas — que respondem pela estratégia de pressionar por um ajuste fiscal no próximo ano –, serviu para Lula e Alckmin tranquilizarem a burguesia democrático-liberal de que serão responsáveis diante do crescimento da dívida interna, e, ao mesmo tempo, alertarem de que o retorno do bolsonarismo seria uma aventura perigosa. Esses são os limites intransponíveis do lulismo, confirmados com a governabilidade a frio durante os últimos quatro anos, e uma das razões que explicam a incerteza da reeleição. Mas, mesmo com essas insolúveis contradições, a campanha saiu do modo “jogar parado” e tudo isso já se expressa em um maior engajamento de uma vanguarda ampla de esquerda que aumentou, qualitativamente. O ato com o mundo da cultura e arte no Rio de Janeiro, a colossal mobilização na escala de muitas dezenas de milhares na sexta-feira (25) no Recife, na segunda (28) em Belém, e na terça-feira (29) em Fortaleza e Salvador, somente comparáveis aos da disputa do segundo turno em 2022, indicam que uma onda está se levantando.  
  1. Não se deve diminuir a importância das eleições para o Senado. Elas são indivisíveis das eleições para governadores. Mas não haverá segundo turno para as 54 cadeiras em disputa no Senado. O plano do PL de Valdemar de Costa Neto é eleger uma faixa que vai de 28 a 35 nas 54 vagas abertas, com o objetivo de alcançar a maioria absoluta de 41 senadores, contando com os quinze mandatos atuais que vão até 2030. Nas pesquisas, o bolsonarismo já tem 19 candidatos fora da margem de erro, enquanto o campo do lulismo, que inclui o MDB e outros partidos do centrão fora de esquerda, tem 18 favoritos. O impeachment de ministros do STF exige dois terços ou 54 votos. A extrema-direita pode eleger os dois senadores, estejam no PL de Bolsonaro ou em outros partidos em Santa Catarina e nos estados do Centro-Oeste, onde o peso do agronegócio é avassalador, como Mato Grosso do Sul (Capitão Contar e Reinaldo Azambuja) e do Norte (Mauro Mendes e Janaína Riva), Goiás (Gracinha Caiado, esposa de Ronaldo, e Gustavo Gayer) e, talvez, no Distrito Federal, onde Leila do Vôlei e Erika Kokai disputam, heroicamente, com Michelle Bolsonaro e Bia Kicis. Análises das pesquisas sugerem ainda que, em pelo menos 11 dos 27 estados, existe alta probabilidade de definição da disputa para o governo estadual já no primeiro turno: São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco, Ceará, Santa Catarina, Goiás, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul, Piauí e Amapá. Ninguém disse que seria fácil.

*Valerio Arcary é professor titular no Instituto Federal de São Paulo (IFSP), militante da Resistência/PSol e autor de “O Martelo da história”, entre outros livros.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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