Valerio Arcary

Valerio Arcary é professor titular no Instituto Federal de São Paulo (IFSP), militante da Resistência/PSol, e autor de O Martelo da história, entre outros livros.

Hora de cerrar fileiras e lutar até o fim

No audio source provided.

Imagem mostra vista aérea da extensão da rua Augusta, ocupada por milhares de pessoas vestidas principalmente com roupas e bandeiras vermelhas.
Ato deste sábado (3) ocupou vários quarteirões da rua Augusta, próximo à avenida Paulista, em São Paulo (SP) | Crédito: Ricardo Stuckert

As eleições são uma forma de luta de classes. Ainda que com distorções – porque as condições são desiguais - são uma aferição da correlação política de forças.

Dobrado é o perigo de quem foge ao inimigo.
A corrente silenciosa é a mais perigosa.
– Provérbios populares portugueses.

  1. A vitória eleitoral de Flávio Bolsonaro foi uma calamidade política de proporções catastróficas. O mercado financeiro recebeu-a com júbilo indisfarçável. No dia seguinte ao primeiro turno, a Bolsa de Valores bateu seu recorde histórico. Já o povo de esquerda está triste e amargurado. Mas nada é mais decisivo agora do que o sentido de máxima urgência. Não é hora de fazer os balanços. Não temos tempo. Aprender com os erros, e eles não foram poucos, será indispensável. Mas agora é hora de ação. O que é vital é lutar até o fim para reverter o resultado do primeiro turno. São muitos milhares que já compreenderam a ameaça da catástrofe iminente e estão improvisando auto-organização por meio de grupos de WhatsApp. O impulso da ampla vanguarda de esquerda está certo. Plenárias presenciais e virtuais estão sendo convocadas em todo o país. O desafio é fazer uma campanha-movimento, nas redes e nas ruas, o mais unificada possível. 
  1. Qual foi o significado do desfecho das eleições gerais? O que está em debate não é somente quem será presidente. O que está em disputa é muito mais grave do que alternância de governo. Flávio Bolsonaro ambiciona ir muito mais longe do que fez seu pai. O bolsonarismo é o fascismo do século XXI. Quer a subversão do regime: o poder total. A extrema-direita quer usar as posições de força que conquistou para desfigurar o regime democrático. Sua estratégia é uma ofensiva gradual e permanente, como Bukele fez em El Salvador, e como está sendo feito no Peru e na Colômbia, de afirmação de um regime cada vez mais autoritário e fechado. Só falta a presidência para a extrema-direita ter controle de todas as instituições. Já têm maioria absoluta na Câmara dos Deputados (287 dos 513), no Senado (50 dos 81) e já declararam que vão tomar o STF (pelo impeachment dos desafetos e nomeação de quatro vagas até 2030). Ninguém deveria ignorar o peso dos fascistas nas Forças Armadas. Não menos importante, o bolsonarismo é um movimento político-social de choque que expressa a “massa” da burguesia, apoiado numa implantação real na pequena-burguesia e seus círculos de socialização, e elevou sua capacidade de organização, mesmo com a prisão dos golpistas. Está em mobilização ininterrupta nas redes sociais, mas também nas comunidades evangélicas e meios policiais, entre outras esferas. Devem ser levados a sério.
  1. As eleições são uma forma de luta de classes. Ainda que com distorções – porque as condições são desiguais –, são uma aferição da correlação política de forças. Mas há diferentes tipos de derrotas e de vitórias. Há vitórias eleitorais que explicitaram uma derrota política (como foi em 2014 o giro da linha Dilma “nem que a vaca tussa” para a indicação de Levy para a Fazenda) e o inverso, também, derrotas eleitorais que foram, paradoxalmente, vitórias políticas (como em 1989 contra Collor, quando, apesar de Lula perder, o PT conquistou a posição de principal partido de oposição). Análises de resultados eleitorais exigem uma calibragem. Ontem tivemos derrota eleitoral e política severa. Ainda que não seja correto que sejam “duas eleições”, porque são dois momentos da mesma disputa, é verdade que somente após o segundo turno será possível retirar caracterizações mais conclusivas. Mas é bom saber que estamos na iminência do perigo de um inverno “siberiano”. 
  1. Nenhum destes cuidados na análise invalida reconhecer que sofremos uma derrota terrível no primeiro turno e observar que: (a) um tsunami invisível e silencioso, nos últimos dois dias, garantiu a vitória de Bolsonaro, tal como tinha acontecido na Colômbia, mas com o impacto subjetivo da surpresa muito forte; (b) ocorreu, comparativamente, uma inversão em relação ao primeiro turno de 2022, quando Lula ficou na frente por +5,2 %  passando ao 2º turno com vantagem e agora, em 2026, Flávio à frente por +1,9%, desmentindo a tese liberal da vantagem do incumbente, e confirmando que o teto de aprovação de Lula era insuficiente para vencer; (c) as pesquisas mais uma vez erraram, embora tenham identificado uma tendência, porque sinalizaram o crescimento fora da margem de erro entre a população masculina, evangélica, e no sudeste, ainda que a “avalanche” bolsonarista tenha sido, devastadora, sobretudo nos interiores, especialmente nas regiões onde o peso do agronegócio é maior; (d) a vantagem no Nordeste (11,1 milhões) não compensou a desvantagem no Sul (5 milhões) e Sudeste (5,7 milhões) porque perdemos no Centro-Oeste (56,51% a 32,52%) e no Norte (49,15% a 44, 65%); (e) a linha do comando da campanha Lula fez uma aposta, até duas semanas e meia atrás, na exaltação do legado e na celebração da biografia, subestimando a implantação social e força ideológica do bolsonarismo, que repousava no cálculo de que seria possível vencer no primeiro turno, que se revelou dramaticamente errada e, embora o giro de linha de campanha tenha sido justo  – proibição de Bets, aumento do Bolsa-família, canetas emagrecedoras, e Desenrola 3 – foi muito tardio.  
  1. Não é possível avaliar o desfecho das presidenciais sem sublinhar que se trataram de eleições gerais. A avalanche de governadores de extrema-direita eleitos no primeiro turno foi devastadora: os bolsonaristas Tarcísio de Freitas e Douglas Ruas venceram em São Paulo e no Rio de Janeiro, e o “extravagante” Cleitinho, também de extrema-direita, em Minas Gerais, fechando o domínio do triângulo estratégico. A extrema-direita venceu também em primeiro turno nos três estados do Sul, com Sergio Moro no Paraná, Jorginho Mello em Santa Catarina e Luciano Zucco no Rio Grande. Nos 27 estados, foram eleitos 20 governadores em primeiro turno, e somente três são do PT: na Bahia, Piauí e Ceará. O PT ainda disputa o segundo turno do Rio Grande do Norte. O bloco liderado pelo PL bolsonarista arrasta os Republicanos, União Brasil, Podemos, Progressistas, MDB de Caiado em Goiás, PSDB em Alagoas, e tem domínio em todas as regiões, com exceção do Nordeste. Ficou confirmado que a hegemonia político-social hoje no Brasil é, irremediavelmente, do bloco liderado pelos neofascistas.
  1. Já era esperado que o desfecho da eleição para o Congresso seria adverso, mas para o Senado foi, dramaticamente, ruim. O PL bolsonarista conquistou 19 das 54 vagas em disputa, que, somadas às 9 cadeiras que o partido já possuía (com mandatos até 2031), somam 28 senadores. Não é exagero caracterizar como assustadora a presença de, pelo menos, 50 senadores alinhados com a pauta de indulto para Jair Bolsonaro e demais golpistas, e impeachment de ministros do STF. Serão necessários 54 votos, mas parece muito provável que, se Flávio vencer o segundo turno, consiga arrastar outros cinco votos. O ministro Nunes Marques, do STF, anunciou, no dia seguinte às eleições, com a maior desfaçatez, a intenção de publicar uma liminar monocrática de libertação de Jair Bolsonaro, antes até do prometido indulto do pai pelo filho. O PT elegeu seis senadores e manteve a bancada de nove. Uma maioria de extrema-direita muito próxima dos dois terços necessários para a revisão da Constituição prenuncia, também, a aprovação de PECs de retirada de direitos sociais, como a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos, e muito mais.   
  1. A eleição da Câmara de Deputados foi outro circo de horrores. Nikolas Ferreira (PL-MG) e Lucas Pavanato (PL-SP), dois jovens fascistas que se destacaram nas redes sociais defendendo as odiosidades mais infames, foram os mais bem votados em escala nacional, superando os três milhões de votos. Estima-se que o bloco liderado pela extrema-direita – o PL elegeu 122 deputados – poderá ir muito além da maioria absoluta com algo entre 276 e 287 deputados, associado aos 87 das bancadas da União Progressista, 41 dos Republicanos (o partido da Igreja Universal), 27 do Podemos, uma maioria dos 43 do PSD, 10 do Novo, 1 do Missão e até uma parte dos 36 do MDB. Todos os partidos de esquerda somados são 24 cadeiras.
  1. O Psol obteve uma vitória eleitoral, mas está ameaçado de perder sua legalidade em função de uma imposição da cláusula de barreira. Na verdade, sofreu o que se pode definir como um acidente “jurídico-eleitoral”. Faltaram apenas 185 votos, ou 0,01%, no Espírito Santo, para que o Psol atingisse o patamar mínimo de 1,5% dos votos válidos em nove estados diferentes. A injustiça do processo é tão grotesca, porque os partidos de direita cometeram ilegalidades absurdas e atrozes, que a luta pela anulação de uma das candidaturas poderá ser vitoriosa. Mas a resposta terá que ser rápida. O mais importante é que o Psol conquistou quase 5% (4,91%), ou impressionantes 5.426.592 votos para a Câmara dos Deputados, em escala nacional, e elegeu 14 deputados. O PT teve uma votação um pouco inferior a 15%. Portanto, a votação do Psol correspondeu a um terço da votação do PT, o que oferece um sentido de proporção da relação de forças na esquerda. Mais significativo, em São Paulo, a Federação do PSol com a Rede recebeu quase 3 milhões de votos, superando pela primeira vez até a votação do PT. No Rio de Janeiro, o Psol somou 636.148 votos, elegendo quatro deputados federais. Ficou demonstrado, para além de qualquer margem de dúvida, que o Psol podia ir além da cláusula de barreira que estabelece a necessidade de superar 2,5% da votação nacional. 
  1. Na perspectiva do segundo turno, o mais importante será denunciar de forma impiedosa que o plano de governo bolsonarista é uma contrarrevolução em toda a linha. Todas as valiosas conquistas econômico-sociais e democráticas desde o fim da ditadura, ainda que parciais, estão em perigo. Todas as liberdades estão em perigo. O balanço já foi confessado: a democracia ficou cara demais. O SUS, a Previdência, a assistência social, Bolsa-família e BPC, a educação pública, as universidades, todas as conquistas sociais seriam caras demais. A extrema-direita defende, despudoradamente, que a vantagem relativa do capitalismo periférico brasileiro não são as dimensões do seu mercado interno, mas a superexploração dos trabalhadores. E já anunciaram um pacote de choque de capitalismo selvagem “a la Milei” com a busca de um superávit fiscal de 2% a 3% do PIB. À pretexto de reduzir a inflação e tranquilizar os credores da dívida pública, defendem a necessidade de uma recessão que mergulhe milhões no desemprego para reduzir os salários. O plano passa por acabar com a vinculação obrigatória dos gastos do Estado para a educação e saúde pública: 18% e 15% das receitas federais, 25% das estaduais e, respectivamente, 12% e 15% das municipais. Querem que o salário mínimo – que só teve reposição da inflação durante quatro anos de governo Bolsonaro, sem valorização real – deixe de ser o piso da remuneração dos benefícios da previdência. Querem o congelamento de salários, por prazo indefinido, do funcionalismo público. Querem a desnacionalização da economia brasileira a pretexto de atrair capital estadunidense. Querem a privatização da Petrobrás e dos bancos públicos. Mas é ainda mais grave. Os fascistas querem destruir as regras de proteção ambiental, são negacionistas do aquecimento global, inimigos dos movimentos de mulheres, aplaudem um racismo repulsivo, incitam a LGBTfobia mais desprezível e, não fosse o bastante, suas lideranças são corruptos profissionais e estão associados ao crime organizado. Será uma luta em defesa da civilização contra a barbárie.

  2. Avaliando em perspectiva, a eleição presidencial caminhava para a derrota de Lula, já no primeiro turno, com a manobra de André Mendonça no STF tentando garantir a suspenção de Alexandre de Moraes. A operação foi o “apito de cachorro”, aquele que só alguns ouvidos escutam, para a deflagração da campanha “Fora Xandão, Fora Lula”, que pretendia envenenar a eleição com o “mar de lama” da corrupção. Felizmente, foi interrompida pela lucidez de Flávio Dino. Na sequência, o giro a esquerda da campanha Lula, com o pacote de medidas de emergência, permitiu ganhar tempo, e o segundo turno foi conquistado. A vitória no segundo turno será muito mais difícil, e repousa na conquista de votos entre os que se abstiveram. Dois milhões de votos podem ser superados. Uma parcela dos votos dos outros candidatos de direita já foi para o voto útil no primeiro turno. Mas será inescapável dizer as coisas como são. A chave da vitória é conquistar uma maioria político-social que entenda o perigo apocalíptico que nos ameaça. A mão não pode tremer. Cerrar fileiras e lutar até o fim.

*Valerio Arcary é professor titular no Instituto Federal de São Paulo (IFSP), militante da Resistência/Psol e autor de “O Martelo da história”, entre outros livros.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Gia Matheus Almeida

|

Newsletter