A razão, ainda que severa, é sempre amiga sincera.
– Provérbio popular português
- Aconteceu algo raro, nos últimos quatro dias, algo extraordinário, colossal, magnífico e emocionante. Na noite de sexta-feira (9), em Belo Horizonte, e depois, no domingo, na Avenida Paulista, e no feriado, em Copacabana, imensas manifestações de massa, na escala de centenas de milhares de pessoas, tomaram as ruas. Eram pessoas de distintas gerações, com grande presença tanto de estudantes como de adultos e idosos, com seus cartazes e incansáveis cânticos, em ativa participação e uma intensa disposição de luta. A esquerda não fez nada tão grandioso nos últimos trinta e cinco anos, o intervalo de uma geração. O que estava presente era a vontade de anunciar, em alto e bom som, que não vamos perder esta eleição sem luta. A base social da esquerda brasileira se vestiu de vermelho e mostrou a cara para demonstrar ao país que não se rende. O mais próximo foram as Jornadas de Junho de 2013, mas com as limitações políticas e contradições sociais, que conduziram a um desastre histórico a partir de 2015/16. Foram tão poderosas que deixaram o campo bolsonarista na defensiva e obrigaram Flávio a apoiar a votação do fim da jornada 6×1. Muitos jovens que foram às ruas com a esquerda, pela primeira vez, descobriram a alegria de compartilhar um projeto político coletivo, e muitos veteranos lembraram o impacto da força social de choque “Diretas Já” e do “Fora Collor”. Milhões se mobilizaram, mesmo inquietos diante do perigo, porque sabem que têm razão de lutar até o fim e acreditam que a vitória é ainda possível. Essa vontade é que pode mudar tudo até o domingo das eleições, dia 25 de outubro.
- Era possível que a fagulha das mobilizações da juventude, desde a noite da segunda-feira de 5 de outubro, fosse uma centelha que contagiasse a base social da esquerda. Elas iniciaram de forma auto-organizada e espontânea. Nenhuma das organizações sindicais, populares ou políticas da esquerda as convocou. Vieram de baixo para cima como uma reação ao resultado eleitoral do domingo à noite. Era possível, mas ninguém poderia ter certeza. Não poucas vezes as “explosões” estudantis cumprem um papel de vanguarda social e se esgotam antes de que as grandes massas entrem em cena. Mas desta vez não foi assim. Há uma percepção de urgência diante do perigo, colocando em movimento milhões de pessoas. Na terça-feira de manhã, a UNE fez um chamado nacional. O despertar da nova geração se estendeu por todo o país e, já na noite de terça-feira, dia 6, os estudantes do Mackenzie, uma universidade particular em que o peso das forças reacionárias tem uma longa história, ao serem proibidos de fazer uma assembleia, ocuparam a Rua Maria Antônia, um local simbólico, pelos confrontos de 1968. De quarta em diante foi uma avalanche da juventude por todo o país. Mas o mais espetacular, o mais maravilhoso, o mais sensacional veio em seguida, quando as mobilizações deram um salto de qualidade. Os trabalhadores e as organizações de mulheres, os LGBTs e os movimentos negros, os ambientalistas e os artistas entraram em cena e tudo mudou de dimensão.
- Apostar que a faísca do movimento estudantil poderia incendiar atos de massa era a melhor tática. O comando da campanha Lula compreendeu que era necessário trazer para a primeira linha os jovens quadros que se elegeram deputados federais, e que era vital reposicionar Lula em “ligação direta” nas redes sociais. Foi, porém, com algum atraso que respondeu ao chamado que vinha das ruas, ainda que a tempo de aproveitar o impulso de resistência e garantir a presença de Lula em São Paulo. Foi um erro não garantir sua ida ao Rio de Janeiro na segunda-feira. Mas estas hesitações não diminuem que a campanha teve uma vitória impressionante. Estamos diante de um febril ativismo de esquerda nas redes sociais. Essa força que ocupou as ruas e redes não pode se perder. Temos doze dias que valem por anos.
- Ao longo do fim de semana se precipitou uma crise sem precedentes no TSE (Tribunal Superior Eleitoral), porque Kassio Nunes Marques decidiu censurar o grupo de WhatsApp de André Janones. Sua decisão foi anulada pelo corregedor do Tribunal e, na sequência, reiterada. Este abuso de poder indica até onde vai o perigo autoritário, ainda antes do segundo turno, o que sugere o que podemos esperar para depois. O mesmo Kassio Nunes Marques se negou a autorizar a investigação das interferências de Trump e das manipulações das Big Techs. Mas não é menos importante que a fração liberal burguesa tenha “subido no muro”. A grande mídia comercial desvalorizou o significado das gigantescas mobilizações de massas de apoio a Lula. Esta indiferença não é neutralidade jornalística. Trata-se de uma precificação do desenlace eleitoral para se proteger diante de uma possível vitória do bolsonarismo, com medo de represálias. Ninguém com um mínimo de juízo pode desconhecer que o regime democrático estará ameaçado nos seus alicerces com a derrota de Lula e a ascensão ao poder de uma corrente de extrema-direita extremista liderada por um grupo fascistoide. A lição destes dois episódios do fim de semana é trágica. A esquerda tem nas suas mãos a responsabilidade de defender todas as conquistas econômico-sociais desde o fim da ditadura, inclusive as democráticas. A classe dominante, mesmo aqueles que não são bolsonaristas, se rendeu diante da iminência da catástrofe.
- Ninguém pode prever qual será o desfecho destas eleições. Mas, ainda que muito difícil, ficou demonstrado que a virada é possível. O papel da direção da campanha Lula será decisivo a partir de agora. Não haverá tempo para corrigir erros de cálculo. A anulação das dívidas dos MEIs foi uma decisão emergencial inteligente. Vai ser preciso aproveitar as novas denúncias das relações de Vorcaro com personalidades do bolsonarismo, como Nunes Marques. Mas permanece intacto o maior desafio: (a) anunciar, honestamente, com sentido autocrítico, um programa audacioso de mudanças – mais reformas, mais futuro, mais esperança; (b) abraçar com coragem uma tática eleitoral de denúncia implacável da catástrofe apocalíptica para ampliar a rejeição do bolsonarismo entre os indecisos que não se interessam por política, explicando tudo, pacientemente, na TV, nas redes e nas conversas, mas com empatia de quem entende suas hesitações; (c) uma linha de campanha de ousadia, inflamando a mobilização a “quente” com grandes atos de massa. Sem estas iniciativas, será difícil reduzir a abstenção na base eleitoral do lulismo, a chave da disputa. Não esquecer que os debates na televisão serão muito importantes. A imprevisibilidade nos atormenta, mas devemos lutar até o fim.
*Valerio Arcary é professor titular no Instituto Federal de São Paulo (IFSP), militante da Resistência/Psol e autor de “O Martelo da história”, entre outros livros.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.


