Valerio Arcary

Valerio Arcary é professor titular no Instituto Federal de São Paulo (IFSP), militante da Resistência/PSol, e autor de O Martelo da história, entre outros livros.

Impulso revolucionário                

Celebração da vitória de Lula nas eleições de 2026.
Celebração da vitória de Lula nas eleições de 2026. | Crédito: Ricardo Stuckert/PR

Aprender com a experiência da 'onda vermelha' será crucial para o futuro da esquerda.

A história se repete, primeiro como tragédia, depois como comédia
– Karl Marx

  1. Lula venceu e Flávio Bolsonaro fugiu. A história acelerou, abruptamente. Nada será como antes. A virada era difícil e até improvável, mas se confirmou, mais uma vez, que nada é impossível quando a classe trabalhadora se coloca em movimento, inspirando a maioria dos oprimidos, como nas Diretas Já, em 1984, e na campanha Fora Collor, em 1992. Não foi somente uma campanha eleitoral, embora tudo dependesse do desfecho nas urnas. Aconteceu um levante cívico-eleitoral democrático com impulso revolucionário. Talvez uma forma de “revolução democrática” do século XXI, diante da ameaça fascista. A surpresa do desfecho do primeiro turno, com Flávio Bolsonaro à frente de Lula, e o perigo real e imediato da extrema-direita conquistar um “poder total” nas instituições, foi o gatilho que disparou um alerta geral. O que teria acontecido se Lula tivesse chegado em primeiro lugar? Não podemos saber. Milhões de pessoas, até então, politicamente inativas, teriam despertado para uma militância febril e arrebatadora? Os estudantes teriam saído das universidades para ser a faísca que arrastou mulheres e homens, de distintas gerações, para um ativismo frenético nas ruas e redes? Mas não foi somente o medo. O medo somente não mobiliza. Somente o medo conduz ao desespero. A outra força motriz do ascenso, tão ou mais importante, foi a confiança que era possível vencer. O nome desta fé é a esperança. Em 2018, tivemos o momento trágico com a eleição de Bolsonaro pai. Em 2026, o momento comédia com a fuga em pânico de Bolsonaro filho. O que é certo e mais importante é que ficou demonstrada, de forma irrefutável, a força social de choque da classe trabalhadora brasileira, o maior proletariado da América Latina.
  1. O Brasil viveu, nas três semanas antes do segundo turno das eleições presidenciais, uma experiência rara, avassaladora e inusitada de mobilização política de massas. A vitória eleitoral de Lula no domingo (25) é incomparável e não tem precedentes. A virada teve um “empurrão revolucionário”, algo novo, e foi garantida pelo engajamento de uma vanguarda de milhões. O empoderamento da irrupção de massas em uma onda vermelha que ocupou as ruas e tomou as redes sociais foi uma “escola”. As pessoas descobriram que, quando se unem na luta, têm uma força de impacto que é arrasadora. Da Avenida Paulista à praia de Copacabana, de Porto Alegre a Belém, de Salvador a Brasília, de Belo Horizonte a Recife, de Curitiba a Fortaleza, por todas as capitais, mas também em cidades médias e mesmo pequenas, ocorreram as maiores manifestações da história. Foram atos de esquerda, de uma esquerda que é diversa e plural, em que se ovacionava Lula. A avalanche mudou a relação social e política de forças: estivemos durante dez anos em uma situação reacionária e defensiva. As “placas tectônicas” da estrutura da sociedade se moveram. Estamos agora em ofensiva e abriu-se uma situação transitória. Mas nada está garantido de antemão. Tudo está em disputa. Vai depender, sobretudo, de dois fatores: (a) da capacidade de iniciativa, da ousadia e determinação do governo Lula; (b) da manutenção da disposição de luta popular. A “onda vermelha“ pode morrer na praia. A construção de uma segunda “onda” será, portanto, o desafio estratégico. A extrema-direita sofreu a maior derrota de sempre e está agora, transitoriamente, acéfala. Mas vai se reorganizar. Além do apoio da Casa Branca, tem posições institucionais nos governos estaduais e no Congresso mais fortes do que antes. Se as massas recuarem, pelas mais diversas razões, pode-se estabilizar uma situação de impasse na luta de classes. Se mantiverem a confiança de que é necessário ir além, pode-se abrir uma dinâmica de radicalização pré-revolucionária. Tanto a evolução do governo, se irá avançar ou pactuar, como a evolução da força das ruas, se irá se manter e crescer para novas formas de democracia direta e auto-organização, mais “leves e rápidas”, embriões de poder popular ou não, definirão nosso destino. 
  1. Aprender com a experiência da “onda vermelha” será crucial para o futuro da esquerda. Este é um daqueles momentos em que devemos recorrer ao bom método do “empirismo leninista”. Isso significa estudar, minuciosamente e pacientemente, o que aconteceu, porque foi inesperado e inédito, surpreendente e colossal. Nada foi tão decisivo como o impulso de luta ininterrupta e permanente, todos os dias. Improvisadamente, tivemos uma “infantaria“, uma “marinha” e uma “força aérea“. A “infantaria” foram as marchas nas ruas que fizeram tremer praças e avenidas. A “marinha” foi a ação nos oceanos da internet do exército do Lula, um novo e fantástico instrumento de luta que agregamos ao nosso “arsenal”, organizado por iniciativa do “general” Janones, driblando os algoritmos das Big Techs. A “força aérea’ foi o comando da campanha que acertou a agenda de Lula, os programas de TV e rádio, reforçado pela participação de, entre outros, valorosos lutadores, Ana Elisa de Minas, Jones Manoel e Rosa Amorim de Pernambuco, Guilherme Cortez de São Paulo e, no Rio Grande do Sul, de Manuela D’Ávila, sinalizando a renovação da direção da esquerda. Seria injusto não lembrar o papel que os artistas tiveram, liderados por Paula Lavigne, do coletivo 342 Artes, e o compromisso da Mídia Ninja, o mais poderoso “canhão” da nossa “artilharia”. Mas tão importante foi a unidade dos partidos, das Frentes Povo Sem Medo e Brasil Popular, do MST, CUT e UNE, do MTST e do MNU, das organizações feministas e LGBTs, ambientalistas e indígenas. Foi esta unidade que permitiu que o “arrastão” popular, que veio de baixo para cima, espontâneo e criativo, garantisse a virada eleitoral com a conquista de dez milhões de votos a mais para Lula. 
  1. Há muitas maneiras de vencer ou perder eleições. Há derrotas eleitorais que abrem o caminho para uma vitória política, como em 1989, porque, apesar da eleição de Collor, se afirmou a presença de um partido de esquerda independente de massas liderado por um operário metalúrgico. Há vitórias eleitorais que abrem o caminho para uma derrota política, como em 2014, porque, apesar da virada de Dilma Rousseff sobre Aécio Neves, o governo de coligação liderado pelo PT fez um giro abrupto, e nomeou Joaquim Levy para fazer um ajuste fiscal que mergulhou o país em recessão. Agora em 2026 não vivemos dois momentos, mas duas eleições diferentes. No primeiro turno prevaleceu uma linha de campanha “a frio” que fazia o cálculo de uma vitória já no primeiro turno. A aposta era que a defesa do legado do governo, em comparação com o mandato de Bolsonaro, associada à celebração da biografia de Lula, desde a abertura no estádio de Vila Euclides, seria suficiente. Não foi. Tivemos no primeiro turno uma derrota eleitoral e política. Eleitoral porque a extrema-direita fez uma “apoteose”: ganhou quase tudo. Política porque ficamos na defensiva diante da agenda imposta pela manobra de Mendonça no STF de “Fora Xandão, Fora Lula” repetindo a tática de criminalização da esquerda por corrupção. A luta política precipitada no interior da esquerda pelo perigo da iminência da derrota favoreceu um giro de emergência, que passou pelo anúncio de novas reformas – compromisso com a aprovação do fim da jornada 6×1, aumento do Bolsa Família, proibição das Bets, canetas emagrecedoras, universalização do ensino integral – entre outras, que nos permitiram evitar o pior e garantir a conquista de um segundo turno.  
  2. O segundo turno foi outra eleição, enfrentada “a quente” como nunca, desde 1989, e culminou com a maior vitória eleitoral e política da esquerda brasileira, desde sempre. A “cereja do bolo” foi a fuga rocambolesca de Flávio Bolsonaro, provavelmente, articulada pela CIA. Tudo foi extraordinário. O reposicionamento do comando da campanha teve o seu papel, porque se defenderam e anunciaram, em quatro semanas, entre o final do primeiro turno e o segundo, mais reformas que nos quase quatro anos de governo. Não menos importante foi o papel de Lula no debate decisivo na Globo, quando deu um basta às provocações deu Bolsonaro, e levantou, com dignidade e altivez, a mão com nove dedos e reivindicou, orgulhosa e educativamente, a condição de operário, diante do miliciano. Mas o mais importante foi o a força do engajamento das mulheres, em especial das pobres, negras e periféricas, da irreverência da juventude, da combatividade emocionante dos idosos, da coragem da juventude indígena, da consciência existencial dos LGBT’s. Esses são os rostos da classe trabalhadora do século XXI. Mas as grandes vitórias colocam grandes desafios. Trump ainda não reconheceu a vitória de Lula, atacou a lisura do processo eleitoral, facilitou a fuga e ofereceu asilo a Flávio Bolsonaro. A reação burguesa começou, no dia seguinte, mostrando suas garras com a fuga de capitais. Disputarão o governo “por dentro e por fora”. Os liberais já exigem um ministro da Fazenda comprometido com o dogma ultraliberal de ajuste fiscal. Setores do Congresso, senão o próprio presidente do Senado, sinalizam com a defesa de indulto para Jair Bolsonaro na linha da “pacificação”. Ou seja, não foi senão o início, a luta continua. 

*Valerio Arcary é professor titular no Instituto Federal de São Paulo (IFSP), militante da Resistência/Psol e autor de “O Martelo da história”, entre outros livros.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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