Vicente Rauber

Engenheiro especializado em Planejamento Energético e Ambiental.

Onde o El Niño produz secas

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Seca em 2024 na Marina do Davi, em Manaus | Crédito: Rede Amazônica

Prevenir continua sendo o melhor remédio

Em 2024, assistimos a cenas dantesca na maior reserva de água doce do Planeta, a Amazônia. Rios gigantes secos ou quase secos. Milhares de animais, peixes principalmente, mortos. Casa fluviais (flutuantes) e barcos ancorados nos barrancos dos rios. Pescadores isolados sem poder trabalhar e nem receber assistência.

2,6 milhões de hectares consumidos pelas chamas no Pantanal e 10 milhões de hectares no Cerrado. Ocorrências de queimadas como nunca na história. 

Secas intensas no Nordeste com significativos prejuízos. Assim foi o El Niño ampliado de 2024 nestas regiões.

Na edição de 09/7/2026 explicitamos como é o fenômeno El Niño e porque está tão ampliado. Na edição de 16/7/2026 relatamos como ocorreu o El Niño de 2024 no RS e se e como o Estado recebe o evento deste ano, anunciado como podendo ser “muito forte”.

Como vimos o El Niño ocorre pelo aquecimento das águas do Pacífico e tornou-se ampliado pelo sobreaquecimento do planeta. E isto interfere no regime de formação de nuvens (chuvas) e da circulação dos ventos globais. 

Para o sul é levado o excesso de chuvas. Já para o Norte e Nordeste, incluindo os biomas da Amazônia, Cerrado, Pantanal e Caatinga, criam-se áreas de “alta pressão”, impedindo a formação de nuvens e aumentando a evaporação da água.

Vamos relembrar situações ocorridas em 2024.

Na Amazônia ocorreu a maior seca da história, provocando enorme escassez de água e temperaturas extremas, que contribuíram de 17 milhões de hectares.  

Rio Xingu (PA) – ANA

A água dos rios, além de diminuir enormemente, chegou a superar os 40ºC provocando a morte de peixes, botos e tucuxis. Nas áreas terrestres o calor extremo, acrescido da falta de água, provocou a morte de mamíferos, aves e serpentes. A rica diversidade das plantas amazônicas foi duramente atingida.

As pessoas ficaram isoladas, sem acesso de alimentação, remédios e outras necessidades, além de sofrerem com o excesso de calor, falta de água e fumaça das queimadas.

As principais chuvas recebidas pelo sudeste brasileiro são trazidas pelos rios voadores (grandes massas de nuvens) da Amazônia. Com as condições impostas pelo El Niño à Amazônia, modificando seus ciclos de  evapotranspiração e ventos, geraram-se intensas secas também nas regiões centrais do Brasil.

Imagem de satélite da ESA – Agência Espacial Europeia – 01/06/2024 – Região de Corumbá – As chamas em vermelho

No Pantanal ocorreu a segunda maior devastação por queimadas, conforme séries históricas, atingindo 17% do bioma, igualmente com forte seca, temperaturas acima da média, atingindo fauna, flora, pessoas e a economia pantaneira.

No Cerrado tivemos a segunda maior extensão de queimadas (10 milhões de hectares), atingindo 85% da vegetação nativa, com todas as consequências daí decorrentes.

O Nordeste também foi atingido por temperaturas extremas e fortes secas, atingindo, além das pessoas, a agricultura, rebanhos e a economia como um todo. Mais de trezentos municípios decretaram estado de emergência.

Prevenir continua sendo o melhor remédio.

Custa muito menos implantar as medidas de prevenção do que arcar com os enormes prejuízos.

No Brasil, a maior emissão dos gases de efeito estufa – GEEs – decorrem justamente das queimadas e derrubadas, que felizmente estão reduzindo. Quanto menos geração de GEEs, menos sobreaquecimento o Planeta terá.

Quanto mais floresta, maior é a proteção contra secas, calor e redução dos rios voadores. Quanto menos queimadas, mais protegida estará a região.

Na Amazônia, as derrubadas reduziram em 38% no primeiro semestre de 2026, em relação ao mesmo período de 2025. As queimadas reduziram 80% em 2025 em relação a 2024.

No Pantanal as queimadas reduziram 93% no primeiro semestre de 2025 em relação ao mesmo período de 2024 e no Cerrado 47%.

Além das melhores condições climáticas neste período, há um maior combate ao deflorestamento e monitoração das queimadas. 

Intensificar ainda mais a redução de queimadas e derrubadas em todas as regiões, e mesmo a realização de reflorestamentos, protegerá melhor as regiões e o planeta aplaudirá.

De imediato, é fundamental, para receber possíveis fortes consequências do retorno do El Niño preparar reservas de água, melhorar as defesas civis, possibilitando alertas ágeis e socorros e os serviços de saúde e assistência social.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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