Para o Sul Global, o desenvolvimento não pode ser alcançado imitando o Ocidente capitalista; requer rompimento com a dependência imperialista por meio da defesa da soberania, do planejamento socialista e da transformação das relações sociais.
Queridas amigas e amigos,
Saudações do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.
Em 1960, o economista estadunidense Walt Whitman Rostow publicou “As etapas do crescimento econômico: um manifesto não comunista”. O subtítulo mostrava o propósito do livro. Rostow não se limitou a descrever o desenvolvimento econômico, mas ofereceu uma arma ideológica para a Guerra Fria. Todas as sociedades, argumentava o autor, percorriam o mesmo caminho, começando pela “sociedade tradicional”, passando pelas “pré-condições para a decolagem”, a “decolagem”, a “busca pela maturidade” e, finalmente, chegando então à “era do alto consumo de massas”. No final desse caminho estavam os próprios Estados Unidos: suas instituições sociais, culturais e políticas surgiam como modelo para o resto do mundo. Na visão de Rostow, desenvolver-se significava imitar os padrões de consumo e as formas institucionais do Ocidente imperialista; modernizar-se significava tornar-se capitalista.
A teoria de Rostow, e especialmente a do economista de Santa Lúcia, Arthur Lewis, colocava a “tradição” em oposição à “modernidade”. O velho mundo precisava ser eliminado para que o novo pudesse surgir. O colonialismo desapareceu dessa narrativa, assim como a escravidão, a pilhagem, as trocas desiguais e a transferência organizada de riquezas da Ásia, África e América Latina para a Europa e a América do Norte. Os países empobrecidos pelo imperialismo eram levados a acreditar que sua pobreza resultava de suas próprias culturas atrasadas. Não precisavam de soberania ou revolução social; o que precisavam, diziam, era de capital estrangeiro, especialistas ocidentais e paciência.

Em uma carta semanal anterior sobre nossas tradições radicais, discutimos a riqueza do debate em torno das heranças culturais dentro da política radical. Na China, porém, o principal problema não era a tradição em si, mas a humilhação. Da Primeira Guerra do Ópio (1839-1842) até a vitória da Revolução Chinesa (1949), a China sofreu o que ficou conhecido como o “século da humilhação”: o ópio imposto à sua população, tratados desiguais impostos aos seus governos, territórios tomados por potências estrangeiras, portos subordinados a monopólios imperiais e o país dilacerado por senhores da guerra, ocupação e guerra civil. O capitalismo entrou na China não com “A riqueza das nações” (1776), de Adam Smith, em mãos, mas com canhoneiras e narcóticos. As forças do capitalismo não unificaram o país nem libertaram sua capacidade produtiva. Em vez disso, o imperialismo capitalista fragmentou a sociedade chinesa e fortaleceu os latifundiários, os compradores e os intermediários do capital estrangeiro.
Para o povo chinês, modernização não significava rejeitar totalmente sua civilização ou a entrada na sala de espera do Ocidente. Modernização significava pôr fim à humilhação, recuperar a soberania, unificar o país, erradicar a fome e o analfabetismo e criar a capacidade material para impedir o retorno dos canhoneiros. Por essa lógica, a modernização chinesa só poderia começar com a libertação nacional e só poderia avançar por meio do socialismo.
Nosso mais recente dossiê, “Caminhando sobre duas pernas: o socialismo da modernização chinesa”, chama a atenção para as duas tarefas inseparáveis assumidas pela Revolução Chinesa: a transformação das relações sociais e o desenvolvimento das forças produtivas. Um país pobre não poderia abolir a privação simplesmente distribuindo-a de forma mais igualitária – eram necessárias indústria moderna, ciência, tecnologia e infraestrutura. Mas, dada a armadilha do sistema neocolonial, como era possível que a China realizasse esse projeto? Poderia ser feito sem abordar questões fundamentais de propriedade e emancipação social? Em nosso dossiê, dividimos a história moderna da China em três fases: 1949 a 1978, 1978 a 2013 e 2013 até o presente.

Em 1949, a China estava entre os países mais pobres do mundo: a expectativa de vida era de cerca de 35 anos, a alfabetização era inferior a 20%, a capacidade industrial era extremamente limitada e o campo permanecia dominado por relações feudais. Os primeiros passos da revolução foram, portanto, tanto sociais quanto materiais. Em 1953, a reforma agrária havia redistribuído quase 47 milhões de hectares para aproximadamente 300 milhões de camponeses sem-terra ou com pouca terra. A ordem latifundiária foi alterada, mas algo mais profundo também ocorreu. Os camponeses experimentaram o fanshen (翻身) – literalmente, “virada” ou “virar o corpo”, mas, na linguagem da revolução, significava se libertar da servidão e se erguer como participantes ativos no desenvolvimento nacional. A modernização começou não com um shopping center, mas com terra, dignidade e o fim da servidão.
Campanhas de alfabetização em massa, sistemas de saúde pública, salas de leitura rurais e o programa “médicos descalços” transformaram a sociedade. Em 1959, a alfabetização havia subido para 57%. Em 1978, a expectativa de vida havia subido para mais de 63 anos. Enquanto isso, o planejamento socialista lançou as bases de uma economia industrial integrada: siderúrgicas, usinas de energia, fábricas de automóveis e tratores, ferrovias e pontes. Essas conquistas foram alcançadas sob bloqueio, sanções e a constante ameaça de guerra. A soberania havia adquirido uma base material, mas ainda era instável.

Após 1978, a política de reforma e abertura mudou de tática sem abandonar a direção histórica. A afirmação de Deng Xiaoping de que “pobreza não é socialismo” capturou a essência do problema. A China utilizou os mercados e o capital estrangeiro sob a orientação do Estado para desenvolver suas forças produtivas, mas não abdicou dos setores estratégicos da economia. O controle público sobre os setores bancário, energético, de telecomunicações e de transportes permitiu que o Estado orientasse os investimentos e impedisse que o setor privado guiasse os rumos da sociedade. O mercado foi utilizado como instrumento, não como um fim em si mesmo.
Esse segundo período gerou imensa riqueza social e tirou mais de 765 milhões de pessoas da pobreza entre 1978 e 2019. Contudo, também produziu sérias contradições: desigualdade, corrupção, desequilíbrios regionais, pressão sobre os trabalhadores e devastação ecológica. Reconhecer essas contradições não significa descartar o período de reformas, assim como reconhecer suas conquistas não exige ocultar seus custos. A construção do socialismo não é uma linha reta traçada de antemão, mas um processo de luta no qual novas capacidades geram novas contradições que precisam ser resolvidas.

Desde 2013, a China entrou em sua terceira fase, organizada em torno de três conceitos: prosperidade comum, civilização ecológica e desenvolvimento de alta qualidade. A campanha de Auxílio Direcionado à Pobreza mobilizou mais de três milhões de quadros do Partido Comunista Chinês (PCCh) para alcançar os últimos focos de extrema pobreza, garantindo renda mínima, alimentação e vestuário adequados, educação, saúde, moradia segura, água potável, eletricidade e transporte. Em vez de esperar que a riqueza chegasse por si só, o partido foi de casa em casa para identificar a privação e superá-la. Ao mesmo tempo, o partido agiu contra a concentração de poder privado, intensificou a regulamentação das empresas de tecnologia, restringiu o setor de aulas particulares e combateu a especulação imobiliária sob o princípio de que “casas são para morar, não para especular”. A China direcionou o crédito da atividade especulativa para a indústria estratégica, infraestrutura pública e desenvolvimento tecnológico. Essas não são pequenas alterações administrativas; elas dizem respeito à questão socialista fundamental: se o capital governa a sociedade ou se a sociedade governa o capital.
O presidente chinês Xi Jinping descreveu a modernização chinesa como “modernização socialista conduzida sob a liderança do Partido Comunista da China”. O conceito de modernização socialista não é hostil à tradição, mas permite que a China se aproprie de sua herança civilizacional sem se submeter à hierarquia feudal ou à dominação cultural ocidental. A tradição não é uma peça de museu nem um obstáculo a ser superado; ela é herdada de forma crítica e colocada em diálogo com a razão científica e a ética socialista.

A memória da humilhação na China é por vezes tratada no Ocidente como uma queixa psicológica manipulada pelo Estado. Mas a humilhação não é meramente um sentimento. Refere-se a uma condição material: a perda da soberania, a apropriação de recursos, a negação do desenvolvimento tecnológico e a subordinação do futuro de um povo ao poder estrangeiro. As atuais restrições aos semicondutores, as sanções, as barreiras comerciais e o cerco militar lembram ao povo chinês que o antigo desejo imperial de travar o seu desenvolvimento não desapareceu. A autossuficiência tecnológica não é, portanto, um nacionalismo estreito, mas a forma contemporânea assumida pela defesa da soberania.
O caminho da China não pode simplesmente ser copiado por outros países. Surgiu de uma revolução enraizada na aliança entre operários e camponeses e de um partido capaz de planificar para além das gerações. Mas a sua história coloca uma questão urgente ao Sul Global: pode haver modernização sem soberania? Os países sobrecarregados por dívidas externas, dependentes das exportações de matérias-primas e privados do controle sobre dados, finanças, tecnologia, energia e transportes são formalmente independentes, mas impedidos de determinar os seus próprios futuros. A escada de Rostow é entregue a eles, mas não há degraus para subir.

A Revolução Chinesa não buscou permissão para subir a escada de Rostow; ela forjou seu próprio caminho para o desenvolvimento. A modernização da China não deve ser medida pelo volume de mercadorias ou pelo número de bilionários; deve ser medida pela capacidade dos camponeses de se manterem de cabeça erguida, pela alfabetização das crianças, pela longevidade e saúde da população, pela capacidade da tecnologia de atender às necessidades sociais, pela proteção da natureza e pela capacidade de uma nação de enfrentar um império sem se curvar. A modernização da China não é utópica; a resolução de cada problema gerou novos problemas que precisam ser enfrentados. O verdadeiro teste da modernização chinesa talvez tenha sido sua capacidade de se adaptar às mudanças dos tempos e enfrentar novos desafios. Não afirmamos que a sociedade chinesa não tenha problemas, mas sim que seu projeto socialista está organizado para reconhecer contradições, mudar de rumo e lutar para resolvê-las.
A trajetória de modernização da China demonstra que países subdesenvolvidos podem trilhar um caminho distinto do Ocidente capitalista, ao mesmo tempo em que defendem sua soberania. A lição não é que a China possa ser copiada, mas sim que a modernização exige uma organização política capaz de transformar a soberania em planejamento, capacidade tecnológica, bem-estar social e poder coletivo. É por isso que a questão dos partidos políticos é importante. Não é possível compreender plenamente a trajetória da China sem analisar seu sistema partidário, a estrutura do PCCh e sua relação com outros partidos, o Estado e a sociedade. Para acompanhar de perto essa jornada, leia nossa revista semestral, Wenhua Zongheng: A Journal of Contemporary Chinese Thought, publicada em associação com o Global South Academic Forum (GSAF).
A edição de 2026 da conferência GSAF será realizada em Pudong, Xangai, de 17 a 18 de outubro, sob o tema “Partidos Políticos do Sul Global: Governança e Modernização”. Ao reunir partidos políticos, movimentos sociais e instituições acadêmicas de todo o Sul Global, o fórum cria um espaço para comparar experiências de governança e modernização e para questionar como a soberania pode ser traduzida em instituições capazes de planejamento, desenvolvimento e emancipação. Em jogo está a questão de se os povos do Sul Global podem definir a modernização em seus próprios termos, não como imitação, mas como a construção coletiva de um futuro para além da dependência.
Cordialmente,
Vijay
*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.


