Viviane Sarmento

Doutora em Educação Inclusiva, professora da Universidade Federal do Agreste de Pernambuco (Ufape) e militante do Movimento Brasil Popular.

A vitrine eleitoral da inclusão: caridade, controle e o esvaziamento das lutas das PcDs

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Criança se comunica em língua de sinais durante evento do MEC para comemorar os 22 anos da promulgação Lei 10.436/2002, que reconheceu a Libras como língua oficial
Criança se comunica em língua de sinais durante evento do MEC para comemorar os 22 anos da promulgação Lei 10.436/2002, que reconheceu a Libras como língua oficial | Crédito: Fabio Rodrigues-Pozzebom / Agência Brasil

Enquanto a direita se apropria do tema sob o manto da caridade, os partidos progressistas e de esquerda frequentemente falham em garantir compromissos básicos

Historicamente, nas campanhas eleitorais, as pautas de luta das pessoas com deficiência vêm sendo apropriadas e, consequentemente, esvaziadas por partidos e políticos de extrema direita. A prática bolsonarista refina esses moldes ao disputar o discurso e destituir políticas públicas consolidadas. Assim, construções que antes eram duramente combatidas, como a segregação escolar, ou terminologias que caminhavam juntas com as ideias normocentradas da psiquiatria manicomial, retornam sob a roupagem de bandeiras de luta.

A instrumentalização fica evidente nas propagandas políticas, visto que as causas das pessoas com deficiência, impulsionadas especialmente pela expansão da indústria do autismo, são capturadas como vitrines eleitorais da extrema direita e do conservadorismo.

Essa manobra reforça a lógica assistencialista e filantrópica e posiciona o discurso caritativo, religioso fundamentalista e as instituições segregadoras como as únicas soluções para o que esses grupos consideram a “problemática” da inclusão, anulando as lutas e usurpando as narrativas das pessoas com deficiência.

É crucial reconhecer que esse movimento não é estático no tempo e se adequa perfeitamente à lógica da produtividade capitalista e do adestramento social. A partir do momento em que uma pauta é destituída do discurso da emancipação, da dignidade e dos direitos humanos, ela se reconfigura intencionalmente, convertendo a pauta da inclusão a um problema pedagógico no ambiente escolar, a uma ameaça no espaço público e em incapacidade no mercado de trabalho. Trata-se, portanto, de uma estratégia deliberada de controle social.

Nessa engrenagem, a clínica hipermedicalizante atua como arma central e lucrativa. Nesse sentido, os hiperdiagnósticos são utilizados para justificar limitações individuais, sem jamais questionar as barreiras construídas pelos dispositivos de poder que geram diversas formas de exclusão e violências, aprofundando os ciclos de culpabilização individual e medicalizando a vida como solução.

Por outro lado, a crítica precisa alcançar todo o espectro político. Enquanto a direita se apropria do tema sob o manto da caridade, os partidos progressistas e de esquerda frequentemente incorrem em uma negligência estrutural, visto que falham em garantir compromissos práticos básicos, como a acessibilidade em seus próprios espaços, eventos e formulações de agendas para construções de políticas públicas.

Entretanto, na hora de escolher os nossos candidatos, precisamos de clareza na disputa narrativa. Votar em partidos e políticos conservadores aprofunda o segregacionismo e a representatividade alegórica, diferente dos políticos e partidos progressistas que, ao serem cobrados e tensionados na sua atuação, se comprometem com um projeto de Brasil justo. A escolha tem percalços, mas o caminho sempre deve ser sempre o democrático.

O reducionismo biomédico, individualista e paternalista enunciado por políticos da extrema direita que sequer vivenciam a deficiência, mas acreditam que podem falar por quem possui a condição, desidrata a crítica social e invalida o protagonismo político da própria pessoa com deficiência.

Fiquemos atentos: respostas simplistas e caritativas a problemas estruturais esvaziam o potencial emancipatório, coletivo e transformador da luta anticapacitista.

Editado por: Vinícius Sobreira

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