Viviane Sarmento

Doutora em Educação Inclusiva, professora da Universidade Federal do Agreste de Pernambuco (Ufape) e militante do Movimento Brasil Popular.

O exército dos esquecidos que moveram a história

Idosa viralizou indo de andador votar no 2º turno da eleição presidencial.
Idosa viralizou indo de andador votar no 2º turno da eleição presidencial. | Crédito: Reprodução da internet

Por viver sob a ótica capitalista, a sociedade esquece do senso de coletividade e da interdependência como armas de luta.

Durante o mês de outubro algumas generalizações foram desorganizadas. Primeiro, caiu a certeza de continuidade sobre as políticas públicas já existentes; caiu por terra também o comportamento apático, junto com a justificativa de “revolta com a política” por parte dos que não querem se envolver; também foi desconstruída a ideia de que consciência política e capacidade de luta são habilidades apenas de alguns tipos de corpos.

Diante dessas rupturas, houve uma desorganização da norma que não era esperada: o levante das pessoas com deficiência e/ou idosas.

No dia 25 de outubro, na necessidade de impor a vontade popular pela democracia, duas coisas chamaram atenção: idosos e pessoas com deficiência ocupavam as seções eleitorais contra um candidato capacitista, que no passado usou a bandeira da acessibilidade como vitrine, mas no apagar das luzes destituiu os direitos e vidas das pessoas com deficiência.

Ele mesmo que agora, ao vivo na TV e em rede nacional, desrespeitou um idoso e agrediu o trabalhador precarizado e acidentado — tudo numa só frase. Mas, o que ele não se deu conta foi que o exército dos esquecidos viu, ouviu e sentiu.

A presunção da apatia falha quando subestima o poder dos que estão escanteados da memória coletiva. Erro grave, pois no dia 25 estes vestiram os seus uniformes engavetados e convocaram o que a sociedade esquece por viver sob a ótica capitalista: o senso de coletividade e a interdependência como armas de luta.

Vimos, em um dia — e aqui não estou romantizando falta de acessibilidade — a luta popular sendo carregada nos braços. E não estou falando dos inúmeros vídeos que lotaram as redes sociais e emocionaram a nação. Estou falando da dissidência da memória coletiva, essa sim, que carregou nos peitos a defesa de todo povo brasileiro.

Por um dia, fraturamos a normatividade e mostramos ao mundo que a interdependência fortifica o avanço popular. Nela, todo mundo se move, carrega junto, luta junto e ninguém fica para trás.

Se tomássemos aquele domingo como ponto de partida para a saída de uma sociedade da individualidade, avançando rumo à interdependência, lembraríamos ao restante da história que os que foram marginalizados pela independência capitalista, foram eles que mudaram os rumos da história do Brasil, mostrando que a consciência de um país mais justo também é cega, usa cadeira de rodas, tem tempos distintos e envelhece.

O exército dos esquecidos foi fundamental no dia 25, mas esperamos que eles possam ter centralidade no debate político e na manutenção da luta democrática por justiça e vida digna.

O que o exército dos esquecidos têm a nos mostrar é que o povo tem tempos distintos, cuidados e necessidades distintas, mas que a luta de um coletivo é sempre por todos e que entortar, fraturar, causar rupturas, reconfigurar modelos, não só é necessário, como é revolucionário.

A democracia é feita de/por muitos corpos!

Editado por: Vinícius Sobreira

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