O espírito do tempo está tão difícil que muitas cidades não nos permitem mais ter portas abertas para as ruas. O espírito do nosso tempo nos consome tanto que nem sempre o nosso espírito está aberto para dar “bom dia”, “boa tarde” ou “boa noite” aos desconhecidos que cruzam diariamente o nosso caminho. O espírito do nosso tempo não está nem aí para o espírito público.
O espírito público — compreendido como aquela dedicação genuína ao bem comum, colocando os interesses da coletividade acima de conveniências pessoais, partidárias ou corporativas — é, talvez, um estado de espírito em extinção.
Todavia, a própria essência das cidades é o viver coletivo, onde o todo, em tese, predomina sobre o individual. E é justamente no dia das eleições que essa essência parece ganhar outra dimensão. Vocês já repararam que as escolas, públicas ou privadas — sem distinção entre elas — se transformam completamente? Suas portas se abrem a qualquer cidadão.
Deixo aqui, portanto, um registro único da mudança do espírito individualista para um dia em que o espírito público se manifesta em grandes proporções: o dia das eleições, que, no nosso caso, acontecerá em 4 de outubro de 2026.
Pois é belo ver o intenso balé urbano de pessoas chegando às suas escolas ou às suas respectivas seções eleitorais. É emocionante ver pessoas saindo de suas casas, algumas vindo de muito longe, vestidas como quem vai para um grande evento. Sim, essas pessoas existem. É mágico retornar a um espaço escolar, buscar a sua sala… ops, seção eleitoral.
É belo ver famílias indo para a votação. De maneira impactante, são famílias que não estão, naquele momento, com o espírito consumista aprisionado num shopping. São adultos e crianças andando pelas ruas, dirigindo-se para as escolas.
É belo ver que algumas pessoas usam seus corpos para expressar opiniões políticas, mesmo que eu discorde do olhar delas. Em tempos virtuais, ver corpos reais se movimentando nas ruas e ainda se expressando como um espírito livre, mais do que belo, é uma conquista coletiva, fruto de muita luta.
É belo ver também que alguns funcionários poderão se ausentar do trabalho em pleno domingo, por algumas horas, para votar. É o espírito público abrindo uma brecha no espírito do trabalho. Claro que existe o espírito neoliberal, sempre à espreita, que não permitirá nem um minuto de ausência.
É belo ver que existem diversas pessoas como a gente, trabalhando de maneira voluntária (ok, alguns foram convocados) em um domingo em prol de uma das maiores eleições do planeta Terra. É o espírito democrático de uma nação em plena ebulição.
E é belo ver que deverá acontecer novamente, por um dia, o espírito da Tarifa Zero em funcionamento nas cidades. Resgatamos que, por meio da Justiça Eleitoral, é garantido o transporte gratuito para que milhões possam exercer o espírito público do direito de votar.
Claro que nem tudo são flores no espírito do nosso tempo. As desigualdades socioeconômicas continuam, a imobilidade urbana tende a aumentar, os alertas do El Niño prenunciam, nas bandas de cá, um calor infernal, com muita seca no nosso interior para os próximos dias. A lista é longa.
Por ora, nesta coluna, fiquemos com o espírito da esperança, afinal, precisamos urgentemente mudar muitos vícios de nossas cidades, de nossas ruas, tendo o espírito público como régua da transformação. E os dias que antecedem a eleição são fundamentais para o debate e a cobrança de propostas reais.
Deixo a provocação para que seu espírito esteja aberto — não somente para mudanças dentro da sua bolha, dos seus medos e angústias, mas também de portas abertas para políticas públicas que transformem o Brasil e Pernambuco para melhor, para todos.
Desejo a todos ótimas eleições.


