Brasil de Fato

Uma Visão Popular do Brasil e do Mundo

Golpe no Paraguai: 3 motivos, 1 indício. E depois?

Durante todo o período do governo Lugo, os camponeses paraguaios não deixaram de lutar. Ocuparam terras, resistiram nos seus territórios, se articularam nacionalmente, constituiram redes de comunicação comunitária








Silvia Beatriz Adoue

Motivos

1. Em setembro de 2009, o presidente paraguaio Fernando Lugo rompeu o convênio que mantinha 500 militares de EUA desde 2006, numa base militar em território do país com imunidade semelhante à dos diplomatas. Emagosto de 2011 houve uma reunião entre 21 generais estadunidenses e a Comissão de Defesa Nacional, Segurança e Ordem Interna da Câmara dos Deputados. E o presidente da Comissão, o deputado José López Chávez, se manifestou públicamente a favor da instalação de uma base militar na região do Chaco paraguaio. O argumento do parlamentar é que Bolívia ameaçaria a segurança de Paraguai “com sua carreira armamentista”.

2. Em outubro de 2011, a Monsanto conseguiu que o Ministro de Agricultura e Pecuária, Enzo Cardoso, liberasse uma semente de algodão transgênico. Mas Miguel Lovera, chefe do Serviço Nacional de Qualidade e Saúde Vegetal de Sementes (SENAVE), recusou seu registro.

3. Desde 2009 a empresa canadense Río Tinto Alcán vem pressionando o governo paraguaio para que este lhe venda energia a preço subsidiado, como condição para instalar uma planta de produção de alumínio no país. O Ministro de Indústria e Comércio, Francisco Rivas, se manifestou favorável ao acordo. O presidente Lugo era contrário.

O golpe em Paraguai se inscreve dentro desse marco. Depois do golpe: Francisco Rivas foi confirmado no seu cargo por Federico Franco, presidente de facto; Miguel Lovera foi destituído e uma nova equipe ocupa o SENAVE.

Indício

A burguesia paraguaia, carente de “solidariedade orgânica”, demonstrou-se incapaz, no que leva da guerra da Tríplice Aliança até agora, de renunciar a seus interesses de setor em função do interesse comum como classe. Não tem capacidade operativa para agir no sigilo, de maneira sincronizada e com coesão interna. Desde o fim da ditadura de Alfredo Stroessner, não tem centro político próprio com tradição e com autoridade suficiente para se impor ao resto dos grupos políticos e econômicos.

Que mágica fez com que organizasse uma operação como a matança de Curuguaty, levasse adiante a campanha midiática para apontar o presidente Lugo como responsável e conseguisse destituí-lo em 30 horas de ação parlamentar? É um curioso mecanismo de relojoaria, sem contradições internas, sem desvios, sem demoras, sem passos em falso. E nos faz pensar que havia um plano bem definido e um operador externo com autoridade suficiente para levá-lo adiante.

Para identificar esse operador, talvez seja suficiente olhar para os primeiros governos que reconheceram o resultado do processo sumário: o Vaticano, Alemanha, Canadá, EUA.

Solidão

Dos governos que vêm tentando integrar econômica e politicamente a região de maneira mais ou menos autônoma dos países centrais, o de Fernando Lugo tem sido o mais timorato. Vindo das fileiras da igreja católica e vinculado aos movimentos populares do campo, Lugo não conseguiu articular alianças estáveis dentro das instituições. E faltou-lhe ousadia para agir para além das articulações palacianas, se apoiando na mobilização popular que as organizações camponesas desenvolveram durante todo o período do seu governo.

Se acenou com a reforma agrária, cedeu terreno institucional aos inimigos declarados dos camponeses e desencorajou a ação direta dos trabalhadores. Isolado dentro das instituições, sem disposição de governar se apoiando na mobilização popular, sem qualidades de organizador político, ficou a meio caminho.

E foi só depois do aceno dos governos da região que Fernando Lugo se animou a formar um gabinete paralelo, mais atento aos aliados externos que aos movimentos populares, para quem não ofereceu qualquer papel protagónico em seus anos de mandato.

Articulações econômicas, alinhamentos militares

A ação política dos países do Mercosul que suspende Paraguai terá efeitos amortecidos, sem a contundência imediata que teriam medidas de bloqueio econômico, pela estreita relação comercial do país com a região.

Por outro lado, no dia 6 de junho foi lançada a Aliança do Pacífico, que reune México, Colombia, Peru e Chile. A ausência de Equador aponta para o alinhamento geopolítico desse acordo. É uma articulação que pretende recuperar a iniciativa depois do fracasso do ALCA, e dos esforços da integração por fora dos interesses dos países centrais como o Mercosur, ou os que surgiram no seio do bloco da ALBA, COMO a UNASUR e a CELAC.

Esta nova articulação econômica caminha no mesmo sentido que o governo golpista. E coincide com os planos de articulação militar alinhavados pelos EUA. Há mais de 20 bases militares do Comando Sul dos EUA, das quais 3 estão na Colômbia. No Cone Sul apenas possui uma, que foi aberta recentemente em território chileno. Houve uma iniciativa para instalar uma “base de atendimento a emergências” no aeroporto da província de Chaco, em Argentina, perto da Tríplice Fronteira. A tentativa foi um acordo entre o Coronel Edwin Passmoore com o governador provincial, Jorge Capitanich. A presidenta Cristina Kirchner interveiou para abortá-la. O lugar apontado para instalar uma base militar do Comando Sul em Paraguai é o município de Mariscal José Félix Estigarribia, no Chaco paraguaio, onde já há infraestrutura construida. O local fica a 300 Km da fronteira com Brasil, a 200 Km de Argentina e de Bolívia.

E o povo paraguaio?

Durante todo o período do governo Lugo, os camponeses paraguaios não deixaram de lutar. Ocuparam terras, resistiram nos seus territórios, se articularam nacionalmente, constituiram redes de comunicação comunitária. Não encontraram em Lugo um centro organizador que catalizasse a experiência que estavam fazendo. Agora precisam dobrar os esforços para defender o conquistado, não dar brechas para golpearem suas organizações e agir de maneira articulada.