Brasil de Fato

Uma Visão Popular do Brasil e do Mundo

Cinquenta anos de opção pelos pobres

Sacerdote comboniano relata seus caminhos religiosos e sua atuação no Brasil por justiça social








Marcelo Netto Rodrigues,

de São Paulo

Padre João Pedro Baresi - Foto: Marcelo Netto Rodrigues

Há quase 40 anos, o padre João Pedro Baresi, 76, desembarcava no Brasil e, como ele próprio costuma dizer, encontrava a sua noiva: a Igreja comprometida com os pobres que sempre sonhou – bem diferente daquela com que tinha contato na Itália dos anos de 1970.

Em entrevista ao Brasil de Fato, este comboniano italiano que por muitos anos foi o editor da extinta revista da esquerda católica Sem Fronteiras descreve a sua trajetória de 50 anos na Igreja e discute os rumos da Teologia da Libertação que, para ele, encontra-se um “inverno”, apesar de as sementes “estarem por aí”.

Brasil de Fato – O senhor vem de uma família religiosa?

João Pedro Baresi – Muito religiosa. Minha mãe e meu pai também. Mas ela tinha ternura e era muito conservadora na área sexual. Ultimamente encontrei uma senhora que me perguntou se eu era filho da Ilia. Aí ela me disse: “fui mãe aos 16 anos, sem casar, e meus pais me abandonaram e sua mãe vinha lá no hospital me abraçar, me consolar, deixando os sete filhos em casa… Então, descobri que ela sabia conjugar uma fé tradicional com uma prática que vai além disso. Sempre digo aos meus irmãos que a motivação de fé de nossos pais não sustentaria nem 30% da nossa fé porque tinham uma outra compreensão. Eram profundamente religiosos.

Paulo 6º antes de ser papa lhe ordenou?

Ele era cardeal em Milão. Eu não sei porque os superiores me mandaram estudar em Roma. Mas foi muito bonito porque me reencontrei com ele nesse ambiente. Para você ter uma ideia, quando Paulo 6º saiu para visitar o patriarca do Oriente, esse homem saiu de clergyman. Como foi dito, era como se esse homem estivesse nu. Saiu do avião, de colarinho, quando todos os papas saíam todos do jeito como sai agora o nosso Bento.

Abertura do Concílio Vaticano II, realizado entre 1962 e 1965

Foto: Reprodução

Por que o senhor acha que o Concílio foi convocado justamente naquele momento, em 1962?

Ah, eu chamo de surpresa de Deus. Foi uma ilusão, porque substituir um Pio XII… Não sou um especialista em história, mas não tinham como substituí- -lo. Então pegaram um velhote pensando que não duraria muito, chamado de transição. Para depois retomar a linha Pio XII. Esse cardeal era conhecido como inovador, mas não quis ser inovador. Lembro de uma frase dele, quando perguntavam se ele dormia tranquilo com toda a responsabilidade da Igreja. E ele respondia: “mas a igreja não é minha, é de Jesus Cristo”. Um equilíbrio humano impressionante. Ele, um dia, sem avisar ninguém, anunciou: “pensei em reunir um concílio”. É um homem que entendeu que a igreja não está ligada a ele ou àquele grupinho. É o povo que é a igreja. Então acho que foi a humanidade dele que deu a surpresa.

O senhor acha que o processo de modernização capitalista também influenciou a chamada dele para esse aggiornamento da igreja?

Claro que o capitalismo faz parte dessa mudança. Acho que o que levou ele a chamar o aggiornamento foi a sua raiz popular, foi o sentimento que ele alimentou em sua vida. A novidade é que foi a primeira vez que um concílio não era reunido para definir verdades, mas para abrir a igreja.

Dizem que o confessor do Pio XII fez um comentário após a sua morte, de que a igreja era como um castelo que tinha um fosso ao redor e que fecharam a porta e jogaram a chave nessa água.

Então ele sentia que o povo não estava comungando com a igreja. Não sonhava com um concílio tão duradouro, com tantas causas. Mas ele teve uma posição muito clara e respeitava muito o concílio. Paulo 6º tirou certas discussões da mão dele, por exemplo, o problema do celibato. Nisso ele foi bastante aberto, mas começou a fraquejar. Depois veio João Paulo e João Paulo II … No mínimo entenderam mal o concílio. Mas certamente não se identificaram com o concílio.

Podemos considerar que o concílio segundo seria a autêntica resposta da igreja católica à reforma protestante de 500 anos atrás?

Não partiu com essa ideia, mas tinha coisas que a reforma protestante já tinha antecipado. Não tem a menor dúvida. Pense só na tradução para a língua do povo da Bíblia, que é a primeira obra de Lutero, uma obra de arte. E outros, como José Comblin, nosso mestre de teologia, disse que foi a igreja que se afastou de Lutero e não o contrário. As várias teses dele foram recuperadas, daí a revolta de Marcel Lefebvre que pensava que a igreja era isso e pronto. Mas sem dúvida que toda a modernidade dentro também da igreja foi bloqueada pelo santo Pio X. Ele foi terrível em não deixar que chegassem todos os caminhos que os luteranos estavam fazendo com grandes teólogos.

E quem estava fazendo essa modernização?

Os teólogos. Era todo o caminho que estavam fazendo os teólogos franceses. Não, era mais para os 30. Meus pais conheciam Pio X, que foi uma figura muito aproveitada. Ele era de origem humilde. Então era um papa humilde, era um papa bom. Só depois fui descobrir que foi duríssimo contra toda a modernização. Eu quando estudei pedagogia, aí por 1962, para poder ler Rousseau, tinha que pedir licença para o Vaticano. Ver o índice dos livros proibidos.

Quem são os combonianos?

É uma palavra difícil. Comboni nasceu a 60 km da minha casa. E se rebelou na juventude, um espírito de Deus. Decidiu dar a sua vida por alguém que precisasse. Decidiu ir ao Japão porque tinha lido a respeito dos mártires japoneses que tinham sido mortos. Depois encontrou com alguém que vinha da África e começou a descrever a situação de lá. E ele resolveu ir pra lá por estarem pobres e abandonados. Ele partiu para lá e, naquela época, no mapa da África Central, estava só escrito: HIC SUNT LEONES (Aqui existem leões). Não se sabia nada. Ele partiu quando Roma estava fechando a presença da igreja no continente africano porque morriam todos. Ele praticamente colocou um pé na porta e conseguiu a manter aberta. Então, o que admiro em Comboni? Resume-me naquela frase: a única paixão da minha vida foi o povo negro. Nós combonianos devemos muito a isso aqui no Brasil. Nós tivemos um grande homem, que morreu muito jovem, Heitor Frisoti, que se identificou muito com o povo negro do Brasil. Mas nós não tivemos a capacidade e a prontidão.

Nesse sentido de conhecer a realidade do povo, o senhor acha que o celibato deveria ser opcional?

Sim. Eu primeiro digo que faria a opção pelo celibato, mas deve ser opcional. Eu tenho amigos seminaristas que seriam ótimos padres missionários, mas largaram por querer casar.

O que significa o anel de tucum que está na sua mão?

É a opção pelos pobres. Sabe o que o tucum? É aquele pequeno coco dos índios, que representa uma parte muito grande dos pobres. É a fidelidade a essa opção. E por que carrego comigo? Para que seja público que eu sou esse. O anel de tucum é a solidariedade com os pobres. Dentro de toda a análise. Agora o meu medo é quando vejo muitos anéis de tucum. Isso pode virar moda como o crucifixo. Isso é um compromisso sério. Quando eu vejo o anel de um eu conheço uma visão igual, um compromisso igual.

Concílio II - Foto: Reprodução

Qual o futuro da teologia da libertação?

Acho que o mestre nisso é o padre Comblin (padre e teólogo belga, falecido em 2011, que viveu muitos anos na Paraíba). Ele aponta um futuro que não deve repetir o passado. Qual é a maneira de oprimir hoje? Hoje não se pode trabalhar um exemplo no particular. É mundial. Não pode querer mudar a situação do Brasil, porque o Brasil não existe nesse campo. Eu lembro sempre a frase de João Paulo II sobre isso. No fim da vida dele, ele dizia: “eu lutei contra a ditadura do comunismo. Tenho a impressão que vem pela frente a ditadura do dinheiro”. E o meu comentário é que sabíamos (disso) há 30 anos. Então, o perigo de sermos nostálgicos, repetir aquelas músicas, aquelas definições, fazer aquelas batalhas de retaguarda. Então, pode o Comblin morrer, mas ainda irá apontar os caminhos. Ele diz “em 2010 eu não estarei mais aí. É você que deverá inventar como deve ser. Isso é muito bonito”.

Nesse sentido, o senhor acha que esse “espírito” da Teologia da Libertação, se transmutando, ele está presente nos indignados da Espanha, no Occupy Wall Street…

Evidente. Está presente em 1968. Cito mais uma vez Comblin, quando dizia que os terroristas de hoje serão os heróis de amanhã. Isto é, a maneira de olhar a história que precisa descobrir (precisa ser descoberta). Quer seja a história do poder ou a história do povo que cresce. Agora eu acho que muitas pessoas da teologia, digamos da pastoral da libertação, para não ficar nos especialistas, prejudicaram muito a linha libertadora. Faziam aqueles comícios na igreja, não aprofundavam nada, teve gente que foi afastada das comunidades só porque queriam rezar… Eu penso que a linha da teologia da libertação está vivendo um inverno. Mas eu acredito que as sementes estão aí. E resistem os melhores. Quem entrou no oba-oba já era, porque o reino de Deus não cresce no oba-oba. Deve-se entregar a vida. Não se deve ganhar. A história é sempre um perder. Esse é o sentido da morte de Cristo. A vitória com toda a aparência de morte, de derrota. Isso é difícil de assimilar.

E o que é afinal o “espírito” da Teologia da Libertação?

Você fala em teologia e já sabe que reflete na pastoral da libertação. Está no documento da Conferência de Meddelín, que disse: “olhando para o nosso povo descobrimos que tem um grito abafado para ser libertado e que ninguém escuta”. Então o espírito é serviço ao povo. A igreja que não é pra si mesma.

O senhor prefere o termo cristianismo da libertação ou teologia da libertação?

Cristianismo é uma palavra limitada. Teologia não é a vida da igreja. É digamos assim caminho da libertação, que Jesus Cristo quis um novo caminho, movimento. Porque se fala teologia, vamos debater raciocínio. É a ação libertadora que é iluminada pela teologia.

O senhor disse há algum anos que gostaria de morrer no Brasil. E hoje?

Já escrevi que quero. Já vivi mais anos aqui do que na Itália. Agora tem duas coisas, primeiro é saber se atrapalho um certo futuro de um grupo de brasileiros que fazem o caminho deles. Então não quero ficar pelo meu gosto, mas pelo serviço que é reconhecido. Segunda coisa, eu, no ano passado, repeti aos meus lá na Itália que eu morro lá (no Brasil) eu me pergunto diante de sete ou oito irmãos que entram em uma certa idade, que pagaram um preço pela minha vocação. Meu gosto é aqui. Porque me dou mal lá. Lá me chamam de padre comunista… Sabe que numa missa, se tem uma frase de um santo padre eu digo, olha, to falando pra você, não é palavra minha, aquela história, “se você é muito rico é porque roubou, se não roubou você foi o seu pai, se não foi o seu avô”. Um dia depois um comerciante me disse que se tivesse dito aquilo lá na Itália, todos teriam saído da igreja.