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Pela segunda vez, julgamento de PM do "crime do carro preto" é adiado

Por falta de testemunhas, o julgamento de André Aparecido dos Santos, acusado por nove tentativas de homicídio e uma morte, foi remarcado para outubro


José Francisco Neto
da Redação


O julgamento do soldado da Polícia Militar André Aparecido dos Santos, acusado de ser o autor dos atentados que ficaram conhecidos como “crime do carro preto”, na Baixada Santista, foi cancelado pela segunda vez nesta terça-feira (07) por falta de testemunhas. O julgamento foi remarcado para o dia 16 de outubro.

Entre as testemunhas que não compareceram estão a ex-esposa dele, que apresentou um atestado médico alegando problemas psicológicos, o ex- sogro e a ex-sogra. Além disso, a falta da assinatura médica no laudo do exame de corpo de delito de uma das vítimas do acusado, Arsênio de Oliveira Júnior, motivou o advogado do PM a adiar o julgamento, alegando que o documento era “apócrifo” e que não teria valor jurídico caso ocorresse o julgamento.

O policial é acusado por nove tentativas de homicídio, sendo uma consumada. A maioria dos delitos em que o réu está sendo julgado ocorreram no dia 10 de abril de 2011, quando foi cometida uma série de atentados em Santos e em São Vicente, aparentemente sem uma razão específica, na qual Paulo Roberto Barnabé, 34 anos, foi assassinado.

O advogado de defesa de André, Alex Sandro Ochsendor, alega a inocência do policial. Segundo ele, André possui um álibi que comprova a sua “inocência”, e nega completamente qualquer tipo de participação nos crimes. “No júri que a gente vai aprofundar o detalhamento dessas provas todas que foram produzidas pra comprovar a inocência dele”, disse.

No entanto, a irmã de Paulo Roberto Barnabé, Maria Luiza (Malu), afirma que o acusado é realmente o culpado pela morte de seu irmão. “O amigo dele, o Arsênio, estava junto com ele na hora e viu tudo. Ele fala que é só fechar os olhos que vê o policial na frente dele. Ele viu tudo”, aponta.

Malu disse ainda que seu irmão foi vítima por estar na hora e no local errado, e que Barnabé era um rapaz muito tranquilo, que não tinha briga com ninguém. “Meu irmão foi escolhido a esmo. Só o André que pode falar porque ele escolheu meu irmão para matar”, desabafa.

Barnabé caminhava pela rua Pindorama, a meia quadra da praia do Boqueirão, em Santos, quando um carro preto se aproximou e o motorista efetuou os disparos. Atingido com um tiro no peito, morreu na hora, enquanto seu amigo Arsênio de Oliveira Júnior, que estava a poucos metros, foi baleado seis vezes. Arsênio sobreviveu, porém ficou paraplégico depois de ter sido alvejado pelo PM acusado.

Provas
Segundo testemunhas, o veículo que transitava na noite dos crimes era preto, de pequeno porte e vidros filmados. O policial André Aparecido dos Santos tem um Corsa, cujos vidros têm película protetora escura, o que reforçou ainda mais a possibilidade de ser ele o responsável pelo crime.

Após cartazes que foram colocados em postes denunciando Aparecido como o atirador do carro preto, os crimes de 10 de abril começaram a ser investigados pela Delegacia de Investigações Gerais (DIG), o que embasou a prisão preventiva do policial militar. No momento, Aparecido encontra-se no presídio militar Romão Gomes, zona norte de São Paulo.

Confusão
Depois que o juiz Antônio Álvaro Castello acatou o pedido do advogado de defesa do acusado, Alex Sandro Ochsendor, de que fosse adiado novamente o julgamento por falta de testemunhas, familiares das vítimas presentes na audiência começaram a se exaltar e clamaram por justiça, segundo relata Malu.

Entretanto, Ochsendor disse que as pessoas que se exaltaram pertenciam ou estavam juntas com o Movimento Mães de Maio na audiência. O advogado disse ainda que uma mulher deu um tapa em seu rosto e depois o ameaçou. “Uma mulher inclusive disse que um ladrão ia sair da cadeia pra matar minha família. E quando eu estava saindo do Fórum, ela veio do meu lado e acabou me dando um tapa no rosto. Ela estava junto com o movimento Mães de Maio”, conta.

Débora Maria, integrante do Movimento que também estava presente na audiência repudia a fala do advogado. Débora conta que na primeira audiência, do dia 25 de junho, ele já havia atacado o movimento, dizendo que era um grupo que acusava policiais com acusações infundáveis.

“Eu disse às pessoas pra não caírem na provocação dele. Essa moça que o agrediu estava na frente de todas as outras autoridades que deveriam ter tomado uma atitude. Como a finalidade dele era criminalizar o movimento, então preferiu não se pronunciar na hora, com a intensão de manobrar a situação e fazer a ocorrência contra as Mães de Maio”, esclarece Débora.

Ela acrescenta que a agressora não pertencia ao movimento, e que elas estavam ali para apoiar os familiares das vítimas. “O movimento estava ali com os familiares das vítimas que pediram apoio das Mães, mas ele generalizou. Eu ainda pedi para as pessoas acalmarem os ânimos. Falamos para as famílias não caírem na provocação dele, pois ele gosta de holofote”, critica.

Segundo Débora, Ochsendor, que inclusive defende 20 policiais acusados de homicídio, pediu o adiamento da audiência do dia 25 de junho pela ausência de José de Abreu, pai de uma das vítimas que, segundo ele, seria uma testemunha imprescindível no caso. “Ele disse na última audiência que dispensava todas as testemunhas para ouvir o pai. Só que dessa vez o José de Abreu apareceu na audiência, e mesmo assim, ele pediu outro adiamento por falta das outras testemunhas que não compareceram”, observa.

O juiz Castello acolheu o pedido do advogado do policial militar acusado da série de homicídios, mas adotou algumas providências para que o júri do próximo dia 16 de outubro não deixe de ocorrer, pela terceira vez, em razão da falta de testemunhas.