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Tribunal israelense declara morte da ativista Rachel Corrie "um acidente"

Há nove anos, a estadunidense foi esmagada por uma escavadeira que demolia casas palestinas em Gaza; segundo o juiz, a jovem poderia ter se salvado afastando-se da zona de perigo “como qualquer pessoa razoável faria”











Foto: Joel-Carillet/CC



do Público e da Redação

O tribunal israelita de Haifa decretou nesta terça-feira (28) que a morte da ativista estadunidense e pró-Palestina Rachel Corrie, esmagada por uma escavadeira militar em 2003 na Faixa de Gaza, foi um “acidente lamentável”.

Segundo o juiz, a morte de Corrie não se deveu a negligência do Estado, nem do exército, não sendo estes responsáveis por nenhuns danos causados, uma vez que os fatos ocorreram no âmbito de “ações de tempos de guerra”. A ativista poderia ter se salvado afastando-se da zona de perigo “como qualquer pessoa razoável faria”, justificou o juiz Oded Gershon, ao apresentar a sua deliberação.

Com esta decisão, fica arquivado o processo civil que fora interposto pelos pais da ativista, os quais acusavam o exército israelense de ter assassinado Corrie – ilegalmente, intencionalmente ou mesmo por grave negligência – e as autoridades israelenses de não terem levado a cabo uma investigação confiável. O juiz determinou não haver direito a nenhuma compensação pela morte e determinou que os pais da ativista, Cindy e Craig Corrie, oriundos de Olympia, no estado de Washington, paguem os custos do processo.

“Estamos obviamente profundamente tristes e perturbados com o que ouvimos do juiz Gershon. Achamos que a morte de Rachel podia ter sido evitada”, afirmou a mãe da ativista já após a leitura da sentença. “Sabíamos claro, e desde o início, que um processo civil seria uma batalha muito difícil, pois Israel tem um sistema bem lubrificado para proteger os seus militares”, criticou ainda.

Rachel Corrie foi morta no dia 16 de Março de 2003, aos 23 anos de idade, na cidade de Rafah, na região sul da Faixa de Gaza, quando integrava um grupo de oito ativistas do International Solidarity Movement (ISM), os quais se colocaram como escudos humanos para tentar deter o exército israelense de demolir casas de palestinos ao redor daquela cidade.

Naquela altura, a demolição de casas palestinas na região por parte das autoridades israelenses era bastante comum, numa fase de uma grande intensidade de violência no conflito israel-palestino, em que se registravam ataques de homens-bomba suicidas palestinos com enorme frequência.

Uma investigação feita pelo exército israelense à morte de Rachel Corrie concluíra não haver responsabilidades a ser atribuída aos militares, sustentando que a área em que os fatos ocorreram estava sendo usada por rebeldes e que os ativistas não deveriam estar numa zona militar.

Este inquérito concluiu ainda que a ativista estadunidense não foi vista pelos soldados que avançavam com os buldozeres, tendo morrido devido à queda dos destroços da casa sobre ela – muito embora fotografias tiradas na ocasião, a mostrem envergando um colete de segurança, cor de laranja, e empunhando um megafone, parada no topo de um monte de terra em frente de um buldôzer militar que se aproximava para derrubar a casa de uma família palestina.

Testemunhas entre os ativistas e palestinos afirmaram em tribunal que o protesto feito no dia em que a ativista foi morta durou mais de duas horas e que todos envolvidos na manifestação estavam claramente bem à vista do condutor do buldôzer. Para estes, Corrie foi deliberadamente esmagada.

Em uma coletiva de imprensa depois da decisão judicial, os pais da ativista afirmaram que vão recorrer à justiça. “Eu posso dizer, sem dúvida nenhuma, que minha irmã foi vista pelo motorista da escavadeira enquanto ele se aproximava dela”, disse Sarah Corrie, irmã de Rachel. “Eu espero que algum dia este militar tenha a coragem de sentar à minha frente e me contar o que ele viu e o que ele sente”, completou ela.

Israel no banco dos réus

A três meses do início do Fórum Social Mundial Palestina Livre, encontro mundial histórico que será realizado entre 28 de novembro e 1 de dezembro de 2012 em Porto Alegre, e que vem sendo construído por dezenas de organizações da sociedade civil brasileira, palestina e internacional, o veredicto só reforça a urgência de protestos internacionais.


Apesar dos tribunais israelenses demonstrarem repetidamente que colocam a impunidade do Estado de Israel e seu exército acima do respeito aos direitos humanos e das leis internacionais, os pais da ativista, Cindy e Craig Corrie, haviam iniciado em 2005 um longo processo criminal contra o ministro da Defesa israelense, à época, e contra o Estado de Israel. Quinze audiências e dezenas de testemunhas ajudaram a manter viva a memória de Rachel e o valor da solidariedade com o povo palestino.

Compartilhando essa visão, o FSM Palestina livre será um espaço para quebrar a impunidade, promover o respeito do direito internacional e reforçar a solidariedade global.


Limpeza étnica

A ação que matou Rachel Corrie, ativista do ISM (International Solidarity Movement), foi noticiada um dia depois, pelo jornal israelense Haaretz, como “rotineira”. Infelizmente, são rotineiros o assédio militar, a tortura e os assassinatos cometidos pelo exército israelense contra o povo palestino. Milhares de casas continuam a ser demolidas arbitrariamente nos territórios ocupados, como parte da estratégia do Estado israelense de dar sequência a um plano deliberado de expulsão de palestinos, iniciado, segundo historiadores palestinos
e israelenses ainda antes de sua criação, em 15 de maio de 1948. Naquele ano, em seis meses, foram destruídas 530 aldeias e cidades palestinas e expulsos de suas casas e terras 800 mil habitantes nativos.

As políticas de expulsão dos palestinos de suas próprias casas, nunca mais pararam. Neste mês de agosto Israel anunciou a destruição de 12 comunidades palestinas e a expulsão de seus mais de 1.500 moradores. Desde o início de 2012 mais de 2 mil pessoas foram afetadas pelo deslocamento forçado, imposto por Israel. Esses crimes objetivam tornar impossível o estabelecimento de um Estado Palestino livre e soberano.

Rachel Corrie não é uma vítima isolada nem mesmo entre ativistas. Outros já foram assassinados e feridos por prestar solidariedade à luta palestina. Embora não tenha conseguido impedir que mais uma casa palestina se somasse à triste estatística das demolições, Rachel, com seu gesto heróico, fez com que o número de ativistas internacionais aumentasse, e com que crescesse a solidariedade à Palestina. A luta de
sua família por justiça tem alertado o mundo para a situação dos palestinos, engrossando as fileiras daqueles que exigem o fim da política de ocupação, apartheid e limpeza étnica.

Além de sua batalha nos tribunais israelenses, os pais de Rachel Corrie lutam para que governos e empresas rompam contratos com a Caterpillar, marca do buldôzer que assassinou sua filha. Recentemente obtiveram uma vitória por meio do movimento BDS – que reivindica boicote, desinvestimento e sanções a Israel enquanto a ocupação, o apartheid e a limpeza étnica da Palestina se mantiverem –, quando a Caterpillar perdeu os investimentos da poderosa TIAA-CREF, fundo de investimentos estadunidense.


Fórum Social Mundial Palestina Livre

O Fórum Social Mundial Palestina Livre (FSMPL), programado entre 28 de novembro e 1 de dezembro de 2012, será uma demonstração mundial de solidariedade ao povo palestino, com muitas atividades autogestionadas, com palestrantes e personalidades internacionais que virão falar dos caminhos para pôr fim à ocupação das terras palestinas.

O FSMPL contará com grandes conferências distribuídas em cinco eixos centrais:

1. autodeterminação e direito de retorno;

2. direitos humanos e direito internacional;

3. movimentos sociais e formas de resistência;

4. por um mundo sem muros e sem racismo;

5. BDS e estratégias de luta.

Também estão programados espetáculos artísticos e mostras culturais. Em 29 de novembro, está prevista uma grande manifestação para celebrar o Dia Internacional de Solidariedade ao Povo Palestino.

Mais informações sobre o caso Rachel Corrie press@rachelcorriefoundation.org Telefones: +972-52-952-2143 e +972-54-280-7572 (falar com Stacy Sullivan) Website: http://rachelcorriefoundation.org/trial

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