Brasil de Fato

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Assim falava Paulo Emílio?

Trajetória do historiador, crítico de cinema e militante político, é retratada em livro








Maria do Rosário Caetano

de São Paulo (SP)

Paulo Emílio mostra lata de filme da Vera Cruz

Foto: Acervo Cinemateca Brasileira

A trajetória de Paulo Emílio Salles Gomes, personagem do livro-homenagem O Homem Que Amava o Cinema e Nós Que o Amávamos Tanto, editado pelo Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, é marcada pela controvérsia. Afinal, homem de pensamento e ação, militante político, semeador de ideias e afetos, dono de raro senso de humor e coragem, ele era também um provocador.

A mais controvertida de suas provocações ganhou forma em frase que, ao longo dos anos e ao sabor de quem a evoca, ganhou várias versões. Uma, tautológica: “o pior filme brasileiro é melhor (ou mais importante) que o melhor filme estrangeiro”. Outra, lógica: “o pior filme brasileiro diz mais de nós mesmos que o melhor filme estrangeiro”.

Lygia Fagundes Telles, escritora e companheira de Paulo Emílio, transcreve no texto “Um Retrato” (de seu livro Durante Aquele Estranho Chá) a frase que costumava ouvir dele, em determinada fase da vida a dois: “Daqui por diante só quero ver filme nacional, prefiro um nacional medíocre a um esplendoroso filme estrangeiro”.

Os cineastas João Batista de Andrade e Aurélio Michiles guardam outro registro da polêmica frase: “Prefiro os subdesenvolvidos filmes do nosso cinema aos melhores filmes do cinema estrangeiro”.

Fernando Meirelles, ao lembrar seus tempos de cineclubista na FAU-USP, evoca mais uma variante da frase: “10 filmes americanos não ensinam tanto quanto um só filme brasileiro. Vocês têm que assistir a todos, se quiserem fazer filmes no Brasil”.

Teria Paulo Emílio dito, ou escrito, a frase “o pior filme brasileiro é melhor (mais importante) que o melhor filme estrangeiro”?

Frase polêmica

A dúvida permanece, embora haja certeza de que ele não deixou registrada, em seus textos impressos, a tão citada frase. Pelo menos de forma tão simplificada. Tautológica. Até hoje, ninguém entre os pesquisadores de sua enorme produção jornalística e ensaística, deparou-se com tal registro-provocação.

Quando foram lembrados – na Escola de Comunicação e Arte da USP (em seminário organizado pelo Grupo de Cinema) – os 80 anos que Paulo Emílio faria em 1996, se vivo fosse, a frase rondou o ambiente, como um espectro. Todos os oradores tiveram dificuldade em situar o artigo, entrevista, ensaio ou livro nos quais ela estivesse impressa.

Em 2002, o Festival de Cinema de Curitiba sediou movimentado Encontro da Crítica Cinematográfica. Paulo Emílio foi o “homenageado” do evento e tema recorrente de todos os painéis, que somaram vinte oradores. Coube a Jean-Claude Bernardet, com sua inteligência e bom humor costumeiros, a missão de fechar o encontro e reavaliar a obra crítica e ensaística de Paulo Emílio. De cara, avisou que não estava ali para prestar homenagem, ou tributo, a Paulo Emílio. E que o próprio se constrangeria com tal atitude. Avisou que usaria o tempo disponível para “desmistificar o homenageado”.

No debate, Bernardet ouviu a pergunta: Paulo Emílio escreveu, ou não, a tal frase? Apelou-se até para o livro Durante Aquele Estranho Chá, de Lygia Fagundes Telles. Um participante do debate curitibano lançou mão da versão mais matizada do polêmico enunciado: “o pior filme brasileiro nos diz mais, a nós brasileiros, que o melhor filme estrangeiro”.

Bernardet esclareceu que a famosa frase de Paulo Emílio funcionava como “uma ação social e militante, num momento histórico determinado (a ditadura militar), para auxiliar a produção brasileira”. E que “Paulo Emílio não respondia aos questionamentos, pois o que interessava era deixar a frase trabalhando na cabeça das pessoas”.

A pesquisadora Lúcia Nagib aponta, no livro Um Intelectual na Linha de Frente (Brasiliense/1986), o escrito pauloemiliano que se aproxima mais desta formulação: “Emana da análise de um mau filme brasileiro uma alegria de entendimento que o consumo da Arte de um Bergman, por exemplo, não proporciona a um espectador brasileiro”.

Carlos Reichenbach (1945-2012), Eder Mazini e Inácio Araújo, por sua vez – e na revista Cinegrafia (julho/1974) – lembram que Paulo Emílio teria dito a tal frase em histórica entrevista à publicação. Relida, a entrevista (“Paulo Emílio: Eu Só Gostava de Filme Estrangeiro”) não traz o polêmico enunciado, mas sim, resposta longa e matizada, que merece transcrição:

“Nós tentamos seguir de perto toda a produção brasileira atual, sem exceção. (…) Isso é uma tarefa laboriosa, difícil, frequentemente ingrata, mas culturalmente muito satisfatória. A gente encontra tanto de nós num mau filme, ele pode ser revelador de tanta coisa da nossa problemática, da nossa cultura, do nosso subdesenvolvimento, da nossa boçalidade (…) Em última análise, é muito mais estimulante para o espírito e para a cultura cuidar dessas coisas ruins do que ficar consumindo no maior conforto intelectual e na maior satisfação estética os produtos estrangeiros”.

Quando jovem, em pose com a foice e o martelo

Foto: Acervo Cinemateca Brasileira

Maurício Segall (São Paulo, 1926), diretor do Museu Lasar Segall, na época forte ponto de encontro da cinefilia paulistana, ficou revoltado com algumas das declarações de Paulo Emílio à Cinegrafia (e também com o ensaio “Uma Trajetória no Subdesenvolvimento”, publicado na revista Argumento/1973). Escreveu, então, longa carta ao amigo (publicada na íntegra na revista Ensaios de Opinião, 03-10-1974).

Vale transcrever alguns trechos da indignada missiva de Segall:

“Quando você afirma que o jovem só deverá ver o cinema nacional (e sei que alguns tomam isto ao pé da letra); quando você afirma, em ‘Argumento’, com relação ao cinema estrangeiro”. “Na realidade ele (o espectador) encontra apenas uma compensação falaciosa, uma diversão que o impede de assumir a frustração para depois ultrapassá-la”. “Ainda – ‘A esterilidade do conforto intelectual e artístico que o filme estrangeiro prodigaliza faz da parcela do público que nos interessa uma aristocracia do nada, uma entidade em suma muito mais subdesenvolvida do que o cinema que desertou”.

“E quando, em ‘Cinegrafia’ e em ‘Argumento’, afirma – ‘Eu penso que a primeira vez na vida em que eu estou sendo moderno é agora, porque eu penso, que uma espécie de interesse quase que exclusivo por Cinema Brasileiro, me parece realmente uma posição moderna, no sentido de que é uma posição que deseja um futuro diferente. Mas na época de eu ser envolvido pelo cinema estrangeiro eu fui, fundamentalmente, um retrógrado”… “portanto eu tenho a impressão de ter progredido muito em, hoje, só me interessar por Cinema Brasileiro’ – você fecha a questão”.

Maurício Segall não se conforma e provoca o amigo, lembrando que, para este, só ver filme brasileiro não parece atitude tão grave pelo “fato de (Paulo Emílio) já ter tido o privilégio de ter visto tudo”. E, certamente “ninguém tem culpa de que, ao ver tudo do cinema estrangeiro, você tenha negligenciado o nacional”.

No longo artigo publicado em Ensaios de Opinião, Segall conta que já ouviu “um de seus aderentes (de Paulo Emílio) dizer que, de fato, se trata de uma posição radical, mas que ela é justificada, pois ao ver desta pessoa, na nossa situação histórica, na qual os jovens não têm passado, só após os 25 anos de idade é que deveriam ter acesso a manifestações culturais estrangeiras, pois poderiam aí digeri-las sem o risco de contaminação”.

A carta-artigo de Maurício Segall está disponível no Acervo Paulo Emílio, da Cinemateca Brasileira, e no Museu Lasar Segall (no bairro de Vila Mariana, em São Paulo). Recomendamos sua leitura aos que se interessarem por debate bem-argumentado entre dois homens inteligentes.

A frase-provocação de Paulo Emílio (jamais escrita de forma simplificada, como se vê) já deu muito pano para muita manga. E continua – passados quase 40 anos – incomodando aos que se interessam por sua obra e pelo cinema brasileiro. Dentro de quatro anos (2016) estaremos comemorando o centenário de nascimento de Paulo Emílio. Novas oportunidades virão para que possamos refletir sobre a frase. E sobre a fase em que, vivendo o auge da ditadura militar, Paulo Emílio, angustiado, transformou-se num defensor kamikaze do cinema brasileiro.