Brasil de Fato

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Padre Roque e Nheçu - uma outra história

Relatos da invasão das terras dos Guarani no sul do Brasil








Elaine Tavares

Eu tinha 12 anos quando visitei pela primeira vez as ruínas de São Miguel. Morando na região das missões, a história dos Guarani que aceitaram a fé católica e ergueram construções incríveis, sempre perpassara nossa vida, desde os primeiros anos. Falava-se disso na escola, em casa, nas rodas de amigos. É muito comum no Rio Grande do Sul o conhecimento da própria história. Por isso, aquela visita era um acontecimento na nossa vida, e para ele fomos vestidos de domingo.

Também era corrente a lenda do coração de um padre, que falara, mesmo depois do mesmo ter sido assassinado pelos índios. Eram histórias espantosas que as alminhas de criança absorviam com sofreguidão. Nas tradicionais rodas de contação das lendas do lugar, aquela do coração arrepiava o cabelo. Por isso, não foi novidade para nossas curiosas cabeças a ida até o Caaró, onde o padre Roque (esse era seu nome) havia sido morto.

Minha mãe sempre foi uma mulher de fé e contava com tristeza a história do padre Roque Gonzáles, um paraguaio de nascimento que viera para o outro lado do rio Uruguai disposto a fundar uma redução, abrindo a fronteira para a colonização branca e para a fé católica. Sua missão era catequizar os índios, considerados ferozes infiéis. Ele já havia cumprido uma missão assim, pacificando os guaicurus, da região do Chaco paraguaio, no início de 1600. Então, foi mandado para a banda oriental, nas paragens onde vivia a gente Guarani e Charrua.

Era 1626 quando padre Roque fincou a cruz no lugar que seria a redução de São Nicolau. Conta a história que ele era um homem bom, que amava os índios, com os quais convivia desde criança. Mas, nas terras do lado esquerdo do Uruguai ele encontraria a morte violenta. Era 15 de novembro de 1628, Roque acabava de oficiar uma missa na capelinha da redução que criara. Estava a amarrar o sino quando foi surpreendido por golpes de pau. Morto, teve suas vestes arrancadas e o corpo dilacerado. Foi arrastado para dentro da capela a qual os índios atearam fogo.

E é aí que vem a lenda do coração falante. Contam que no dia seguinte, quando os índios vieram dar mais uma espiada para ver se tudo havia queimado, observaram surpreendidos que o coração do padre seguia pulsando e de dentro dele saia uma voz dizendo: “matastes a quem vos amava e queria bem, porém somente meu corpo, pois minha alma está no céu. E o castigo não tarda”. E até hoje o coração do padre segue no santuário, intacto. Assim, por toda a vida a história que ouvimos foi da violenta traição dos indígenas “bestas-feras”.

Mas, eis que ano passado, por essas vias tortas da vida que nos levam a bons caminhos, eu conheci Nelson Hoffmann, um adorável historiador que mora justamente na cidade de Roque Gonzáles, tendo por missão contar a vida das gentes daquelas paragens. E por suas mãos me chegou um livro, escrito por ele, que conta outro lado da antiga história. Um lado que, hoje, certamente me comove muito mais do que o martírio do padre, porque significou o martírio de muitos, de um povo inteiro.

O livro de Nelson se chama Terra de Nheçu, e ali está exposta a chaga aberta da colonização e da evangelização feita a ferro e fogo. O padre Roque não foi o único a ser morto pelos índios da região chamada pelos originários de “Nesuretugue”, o que em guarani pode ser traduzido como “terra que foi de nheçu”. Ali também pereceram os padres Afonso e João, que tinham vindo junto com Roque para a jornada “civilizatória”. O motivo não foi outro que a completa incapacidade de cada um deles em compreender que as gentes que ali viviam não precisavam de novos deuses, e muitos menos de deuses impostos. Já tinham suas divindades e reconheciam como suas aquelas terras que os brancos vinham ocupar.

Pois as terras aonde os padres jesuítas vieram criar reduções não eram vazias de gente. Ali vivia desde há gerações o povo naqueles dias comandado pelo cacique Nheçu. Seus domínios se estendiam desde a margem direita do rio Ijuí até a foz, no Rio Uruguai. Conta-se que sua influência se espraiava para muito além da região ocupada, e não era sem razão que se chamava Nheçu, “a Reverência”. Pois o povo de Nheçu vigiava a movimentação de padres e colonos desde o alto do morro do Inhacurutum e mandava claros recados sobre o que achava daquela invasão. Nheçu era chefe e pajé, portanto representava tanto política como religiosamente todo o povo da região. E essas duas frentes estavam sendo usurpadas sem qualquer prurido. Segundo o relato do livro, Nheçu levou sete anos para permitir a entrada do padre, talvez porque já imaginasse o que viria atrás dele. O povo branco não respeitava a vida nem os costumes dos indígenas, acreditavam inclusive que nem alma eles tinham. Mesmo os “piedosos” padres que vinham fazer o trabalho sujo de domesticação dos índios, não acreditavam que eles tivessem salvação. As reduções serviam unicamente para avançar na ocupação das terras. A conversão, feita à força, escravizava e destruía a cultura originária.

Nheçu era homem inteligente e esperto. Sabia muito bem o que acontecia quando os brancos chegavam com suas cruzes e suas reduções. Já tivera notícias de outros grupos ao longo do rio que haviam se deixado domesticar e perderam sua identidade. Ele não deixaria que isso acontecesse. Foi assim que enfrentou a invasão. Era uma guerra declarada, não eram tempos de paz. Para os indígenas, a chegada dos padres era o começo do fim. A única saída viável era o ataque às reduções. Nheçu era guerreiro, tomaria as providências.

E foi assim que se deu. Naqueles idos tempos de 1600, quando tanto os portugueses pelo leste, e os espanhóis pelo oeste, avançavam ampliando fronteiras, os povos originários travavam as batalhas tentando manter seu território e seu modo de vida. A trágica morte de Roque e dos outros padres não representou nada mais do que a dolorosa resistência dos índios guarani contra a destruição do seu mundo. A igreja torna os padres seus mártires e ergue santuários que perduram até hoje. Mas, aos índios, nada é reservado, a não ser o esquecimento.

Por isso, o livro de Nelson é um libelo à verdade, à resistência do povo guarani. É a visão dos vencidos finalmente vindo à tona, mostrando que aquela violência não foi o ato gratuito de uma besta-fera, mas o desesperado grito de luta contra a invasão e a opressão. E essa recuperação histórica pode agora mostrar que naquela campanha missioneira nem Roque era um herói, nem os índios selvagens. O que se deu ali foi uma longa batalha entre dois mundos distintos, sendo que um deles, que detinha o poder das armas, não estava disposto a conceder. Assim, é preciso que se reconheça aos indígenas o seu direito de lutar contra a invasão.

O trabalho de Nelson Hoffman responde agora, tantos anos depois, a pergunta insistente que martelava o meu cérebro de menina diante do coração do padre Roque. “Se ele vinha trazer o bem, por que o mataram?” Impor uma fé e um modo de vida não é coisa que possa dar certo, nem nos tempos idos, nem nos dias atuais. Por isso, hoje, andando pelos caminhos das missões, eu posso, muito além de incensar a inegável beleza criada pelos jesuítas, farejar a valentia do povo ancestral, que com suas flechas e seus corpos nus enfrentaram as armas e a arrogância de Castela e de Portugal.

Nelson mantém, na cidade de Roque Gonzáles, um jornal, o Nheçuano, cotidiano espaço de resistência, onde as questões indígenas são debatidas assim como as lutas sociais. Também participa da Associação Cultural Nheçuanos.

Elaine Tavares é jornalista.