Brasil de Fato

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Carlos Alexandre e as tragédias

A impunidade dos terroristas de ontem é o que alimenta o terrorismo de hoje








Alipio Freire

Carlos Alexandre – filho dos jornalistas Dermi Azevedo e Darcy Andozia, suicidou-se no domingo, 17 de fevereiro, pouco antes de completar 40 anos. A tragédia de Carlos Alexandre teve início no dia 15 de janeiro de 1974, quando (com apenas um ano e oito meses) foi torturado no Departamento de Ordem Política e Social (Deops), de São Paulo, numa operação comandada pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury: choques elétricos, bofetadas (que lhe custaram um corte no lábio) e, por fim, jogado no chão com violência quando, entre outras lesões, feriu a cabeça.

Para Carlos Alexandre, o suicídio significou um ponto final. Para sua família e para cada homem e mulher com um mínimo senso de dignidade e justiça, reabre-se mais uma página do terror de Estado a ser esclarecida, e de julgamento e punição dos seus responsáveis.

Terror de Estado que prossegue ainda hoje contra os moradores dos bairros populares e contra os mais pobres. Há três semanas, T., outro jovem, se suicidou na Zona Leste de São Paulo. Tinha 21 anos. Tinha três irmãos do segundo casamento de sua mãe, com quem morava juntamente com o padrasto. T. era um adolescente como tantos outros. Certo dia, ele e um grupo de amigos brincavam na rua, quando chegou um comando da PM que cercou e deteve os jovens. Escolheram um dos amigos de T., que surraram e contra o qual desencadearam todo tipo de violência na presença dos companheiros. Depois do episódio, T. entrou em sucessivos estados de depressão, culminando com uma síndrome de pânico. Tratou-se, melhorou. No início deste ano, entrou num pesado surto de esquizofrenia. Enquanto se tratava, a mãe tirou licença no emprego, para acompanhá-lo. Um dia, porém, T. disse à mãe que ia fumar um cigarro no quintal. Como demorava um pouco mais que de costume, a mãe foi até o quintal. T. Havia se enforcado.

Carlos Alexandre e T. se suicidaram em decorrência de um mesmo fator: o terror de Estado. O primeiro, em consequência do terror de Estado da ditadura. O segundo, do terror de Estado da democracia.

Que democracia é esta, na qual os mais pobres (maioria absoluta da nossa população) não gozam dos mesmos direitos dos demais?

Quando começaremos a processar e punir os responsáveis pelo terror de Estado do período da ditadura e do pós-1964?

A impunidade dos terroristas de ontem é o que alimenta o terrorismo de hoje.

Texto originalmente publicado na edição 521 do Brasil de Fato.