Brasil de Fato

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Quem matou Olívia Ribeiro?

Em entrevista, os autores de Sabor Brasilis falam sobre a HQ e o mercado editorial brasileiro











Foto: Divulgação



Aldo Gama

da Redação

“Olívia Ribeiro está com os dias contados”, avisa a resenha de Sabor Brasilis, a telenovela de maior audiência no Brasil. O assassinato dessa personagem, uma das principais do folhetim, desperta a curiosidade do país com relação à identidade do autor ou mandante do crime. O problema é que essa ansiedade é dividida pela equipe de redatores da novela – que não têm qualquer ideia de como resolver a questão mantendo a integridade da trama em meio às suas próprias crises pessoais.

Como num jogo de espelhos, a novela dentro da novela se desenvolve paralelamente à disputa entre produtores, patrocinadores, criadores e telespectadores. E é claro, nós, leitores. Autores dessa intrincada trama, os roteirista Hector Lima e Pablo Casado e os desenhistas Felipe Cunha e George Schall, falam com o Brasil de Fato, entre outras coisas, sobre teledramaturgia em HQ (história em quadrinhos), nerds e mercado editorial desta arte que nem sempre é devidamente reconhecida.

Brasil de Fato – Sabor Brasilis é uma história em quadrinhos, uma novela em quadrinhos ou uma novela dentro de uma novela em quadrinhos?

Hector Lima – É uma história em quadrinhos sobre a novela que são os bastidores de uma novela e que teve sua própria novela pessoal.

Como surgiu a idéia de uma HQ com o tema de novela?

Pablo Casado – A ideia veio de usar um tema que remetesse a algo brasileiro, e a novela estava lá, intocada. Era até uma opção bem óbvia, e seguimos com a história dos bastidores de uma telenovela de sucesso do horário nobre tendo como protagonistas os roteiristas da mesma.

Como funcionou a divisão de tarefas, já que o roteiro e a arte são assinados por duas pessoas?

George Schall – Nos dividimos de forma que cada artista fizesse uma cena e os estilos ajudassem a situar o leitor com a troca de lugares. O Felipe (Cunha) fez praticamente todas as cenas da novela, o que já ajuda também.

História em Quadrinhos quer ultrapassar barreira “nerd”

Vale destacar em Sabor o fato de se tratar de um quadrinho com uma linguagem brasileira, algo que é um problema para boa parte da produção nacional. Isso foi uma preocupação durante a execução do projeto?

Pablo – Sim, a história e a arte tinham que ter algo que gerasse empatia tanto para o leitor habitual como para o não leitor de quadrinhos. O reconhecimento dos lugares, do jeito de falar, das situações tinha que acontecer.

Que tipo de público vocês pretendem ou esperam atingir?

Hector – Todo o possível (risos). Uma coisa boa que percebemos é que não só os leitores costumeiros de HQ estão lendo, mas também quem gosta de novela. E isso é ótimo porque é difícil um quadrinho sair do nicho.

Qual a “novela” por trás da criação da Sabor? Quais foram os caminhos percorridos desde a criação até a publicação?

George – Primeiro nós decidimos trabalhar juntos, os quatro, em uma HQ nossa. Quem surgiu com o tema foi o Pablo, e fomos digerindo em cima dele. Tendo uma boa ideia do projeto e personagens, preparamos um documento explicando o projeto e um preview, que foi distribuído no FIQ 2011, a fim de encontrarmos uma editora para publicá-lo. Neste momento já estávamos concorrendo ao edital Proac de quadrinhos daquele ano, no qual fomos contemplados entre os ganhadores. O Claudio da Zarabatana Books nos contatou em seguida, oferecendo um contrato para publicarmos com a editora, e iniciamos o processo de produção da revista, que durou mais de seis meses em 2012. A revista começou a ser vendida em Janeiro deste ano e agora é lançar e esperar um bom retorno!

Como a crítica está reagindo ao trabalho?

Hector – Até o momento tem sido ótima a reação da crítica. Estamos compilando as críticas em nossa fanpage (http: //facebook.com/saborbrasilis).

Como está sendo o relacionamento com a editora?

Pablo – O nosso trabalho com o Claudio e a Zarabatana foi muito tranquilo. Ele nos deu liberdade e confiança para desempenharmos a nossa parte e toda a burocracia da coisa ficou por conta dele.

E a questão da distribuição?

Hector – A distribuição ainda não está completa, mas a Sabor Brasilis está chegando aos poucos nas livrarias e em algumas lojas online. Estamos compilando os links no site do projeto www.saborbrasilis.net).

Quando vocês começaram a se interessar por quadrinhos?

George – Desde criancinha. Lia muito “almanacão” e Turma da Mônica em geral. Na adolescência, colecionava revistas do Homem-Aranha e super-heróis, e depois dos 20 comecei a ler mais HQs sobre cotidiano e a vida em geral. Sempre foi um hobby, mas as temáticas mudaram de acordo com o meu crescimento também.

Felipe – Meu interesse começou como colecionador. Queria ter o maior número de revistas possível e, até certo ponto, tive uma estante bem “gorda”, na maior parte material do Mauricio de Sousa. Não demorou muito pra querer eu mesmo produzir minhas HQs e, na escola, aos nove anos, fiz meu primeiro fanzine. Daí a coisa não parou mais e seguiu um curso natural. Comecei a ler Disney quando fiquei um pouco mais velho e depois segui pros “supers”. A coisa ficou um pouco mais séria quando descobri quadrinhos independentes e procurei uma variedade maior de estilos e histórias, algo que enriqueceu muito meu trabalho e foi o aprendizado mais valioso pro material que produzo hoje em dia.

Pablo – Aos 12 anos, quando comecei a colecionar quadrinhos. Já havia lido Turma da Mônica e algumas coisas da Disney que abriram uma brechinha da porta, mas foi quando comprei um exemplar do Homem- Aranha que eu disse: eu quero trabalhar com isso. Hector – Aprendi a ler com Turma da Mônica, Disney, Marvel e DC. Não consigo lembrar idade exata, é difícil pensar quando HQ não esteve na minha vida. Antes de saber ler eu refazia cenas de filmes, HQs e animações a que assistia como painéis em folhas de A4, com todos os personagens juntos ao mesmo tempo.

Estar envolvidos com o mundo das HQs na idade adulta ainda é exclusividade dos “nerds”?

George – Não acho que seja exclusividade dos “nerds”, até porque existem HQs para adultos cujas temáticas passam longe desse universo. Mas é definitivamente um hobby de nicho. HQs incrivelmente bem sucedidas no mercado internacional alcançam por volta de 1 milhão de vendas, valor que para qualquer mídia de grande abrangência (cinema, videogames) não é sinônimo de sucesso. Não sei se algum dia HQs serão tão populares quanto gostaríamos. Parece existir uma barreira cultural (até pelo comportamento do tal “nerd” de quadrinhos) que impede que elas sejam mais acessíveis ao grande público.

Como se comporta o mercado editorial brasileiro com relação à produção nacional?

Felipe – Ainda não existe um mercado no sentido de haver demanda por parte dos leitores, de modo que os autores tenham trabalho suficiente para garantir seu sustento. Atualmente vivemos um bom momento, temos bons autores, bons trabalhos e boas editoras se aventurando por esse caminho, coisa que não víamos poucos anos atrás. Acredito que, mantendo um crescimento no mesmo ritmo, podemos um dia ter um mercado rentável. Mas isso é coisa de médio a longo prazo, muito difícil de saber onde vamos de fato.

Mauricio de Sousa é uma exceção dentro do mercado?

Hector – Ele é no sentido de ter conseguido não só sobreviver no mercado, mas de ser o mais bem sucedido homem de negócios do meio no Brasil, por ter entendido como licenciar os personagens para vários produtos. Existem muitos que tentaram seguir esse modelo, mas ninguém com o mesmo sucesso – por não ter a visão dele nem personagens tão carismáticos como a Turma da Mônica e tantos outros.

Quais são os maiores autores nacionais e internacionais de HQs? Quais características tornam suas produções relevantes?

Felipe – O Laerte com certeza é um dos nossos grandes. Ele vem da nossa tradicional leva de cartunistas dos anos 70 e 80 que fizeram um barulho e se estabeleceram como referência inabalável. Destaco o Laerte porque ele é o que mais se aventurou por caminhos diferentes e explorou linguagens com maior eficiência, não se prendendo às charges e tiras. Tem uma fase dos Piratas do Tietê na Chiclete Com Banana em que ele extrapola toda as limitações daquilo que ele estava acostumado a fazer e produziu uma narrativa com páginas dinâmicas, quadros grandes, arte sangrada, alto contraste nos moldes de Frank Miller e (Mike) Mignola. Até hoje ele continua sendo original, usando um texto forte e honesto, como poucos ainda conseguem. Fábio Moon e Gabriel Bá abriram portas, levaram nossa produção pro resto do mundo e isso é muito importante. Lá fora temos Will Eisner como, provavelmente, o maior pioneiro. Foi ele quem enxergou o potencial que tinha em mãos com as histórias em quadrinhos e levou isso para o grande público.

Muitos brasileiros estão conseguindo destaque internacional como desenhistas para editoras como Marvel e DC. Existe algo produzido aqui, com características nacionais, que seja publicado fora do país?

Pablo – Acho que só o fato de ter um artista brasileiro trabalhando lá fora já leva um pouco daqui. De alguma maneira, você vai ver algo no trabalho do Ivan Reis, novo desenhista da Justice League, que remeta à base e formação dele enquanto brasileiro. E puxando pela memória, creio que o trabalho mais recente e que é 100% nacional publicado lá fora, foi o Daytripper, do Gabriel Bá e Fábio Moon. Inclusive, foi publicado primeiro nos Estados Unidos e depois saiu aqui.

Existe alguma novidade em termos de movimento ou autores/ desenhistas no Brasil?

Hector – No momento há uma pequena movimentação para a criação de uma lei de cotas para a publicação de HQs nacionais, mas não há grandes novidades nesse sentido pelo que sei. Mas sem dúvida a maior e melhor novidade é a quantidade de projetos que conseguiram financiamento coletivo através do www.catarse.me sem depender de editoras.

De acordo com os autores, Sabor Brasilis é “uma história

em quadrinhos sobre a novela que são os bastidores de

uma novela e que teve sua própria novela pessoal”

Quais são seus novos planos? Algum novo projeto em andamento?

George – No momento, trabalho com a editora americana Dark Horse Comics em projetos pessoais, mas não posso revelar muito mais que isso por enquanto.

Felipe – Estou trabalhando em um projeto novo com o Pablo, vamos divulgar imagens e mais detalhes depois do lançamento oficial da Sabor. Tem também uma webcomic com o George, que sai ainda esse ano (uma retomada quase ‘reboot’ da nossa série Schematics), e por fim algo com o Rodrigo Alonso. Ele foi meu parceiro de fanzines por vários anos e queremos retomar a parceria.

Pablo – Tenho um novo projeto com o Felipe que pretendemos lançar na edição deste ano do FIQ [Festival Internacional de Quadrinhos] – que também deve ser o lugar para lançamento de outro projeto que está em gestação no momento. Hector – Em breve, finalmente sai a coletânea Inkshot, que organizei com o apoio desses três cavalheiros. Estou trabalhando em alguns roteiros curtos e em dois projetos mais longos: a história de crime, Macaco-Rei e a de mistério Um Homem Prevenido.

Por que criamos uma tradição de cartunistas mas não de quadrinistas?

George – Porque é o mais próximo de se trabalhar com quadrinhos no Brasil e ainda ganhar alguma quantia interessante. Isso e o fato de o Brasil ser sempre muito ligado em humor, o que nos faz o maior mercado de quadrinhos do gênero. Pro desenhista, pelo menos, a ilustração sempre foi o caminho mais rentável. Os quadrinhos no jornal e revistas tinham demanda, coisa que não há para graphic novels. Começamos a desenvolver um mercado para isso recentemente. A demanda é baixa ainda (o selo Barba Negra de HQs da editora Leya foi fechado, por exemplo), mas estamos crescendo exponencialmente. A boa qualidade e venda dos quadrinhos da Cia das Letras e Zarabatana Books prova isso.

Para terminar: quem matou Olívia Ribeiro?

Hector – Esta informação é confidencial, mas posso revelar que está contida na última página de Sabor Brasilis.

<Serviço>

Site oficial: http://www.saborbrasilis.net/

Editora: Zarabatana

Autores: Pablo Casado e Hector Lima (roteiro) e Felipe Cunha e George Schall (arte).

Número de páginas: 128

Preço: R$ 45,00