Brasil de Fato

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O papa e a ditadura argentina

A eleição de Bergoglio como Papa Francisco acirrou os ânimos ao extremo. Para muitos não passa de uma jogada da direita, estratégia de poder do Vaticano, uma afronta à Igreja Libertária da América latina e a seus mártires, além de uma série de acusações sobre seu comportamento nos tempos da ditadura argentina








Roberto Malvezzi (Gogó)

A eleição de Bergoglio como Papa Francisco acirrou os ânimos ao extremo. Para muitos não passa de uma jogada da direita, estratégia de poder do Vaticano, uma afronta à Igreja Libertária da América latina e a seus mártires, além de uma série de acusações sobre seu comportamento nos tempos da ditadura argentina. A temática dos mártires é particularmente sensível a um vasto setor da Igreja que foi sacrificado, ou viu seus irmãos serem crucificados, muitas vezes sob o silêncio dos que ocupavam cargos de autoridade.

Outros preferem prestar atenção na sua vida simples já tanto citada, na cruz que preferiu agora de lata e não ouro ou prata, que sonha “com uma Igreja dos pobres e para os pobres”, que cita um ancião indo se confessar ao contrário de fazer um discurso racional sobre a reconciliação, que disse caber nos aposentos papais “mais de 300 pessoas”, que recusou sua capa de couro de animais em extinção afirmando que “o carnaval acabou”.

O discernimento sempre foi considerado uma qualidade para os filósofos: o bom filósofo sabe distinguir. Mas é também um dom do Espírito Santo. Vamos tentar um discernimento em meio a essa situação tensa que se estabeleceu, sobretudo no sul da América do Sul.

1) Bergoglio não era o cardeal de Buenos Aires nos tempos da ditadura argentina. Ocupou esse cargo somente em 2001. Tanto é que D. Arns apoiou grupos de defesa de direitos humanos na Argentina e isso deu conflito com a arquidiocese de S. Paulo. Vale lembrar que a ditadura argentina durou oficialmente de 1966 a 1973. Nesse período o arcebispo de Buenos Aires chamava-se Antônio Caggiano. Porém, o período chamado de “Guerra Suja”, vai de 1976 a 1983, quando houve um verdadeiro “genocídio” na Argentina, com a eliminação de dezenas de milhares de argentinos. Nesse período o Arcebispo de Buenos Aires era Juan Carlos Aramburu.

27º Jorge Mario Bergoglio 1998-2013 - Eleito 266º papa com o nome Francisco

26º Antonio Quarracino 1990-1998

25º Juan Carlos Aramburu 1975-1990

24º Antonio Caggiano 1959-1975

2) O catolicismo é religião oficial do Estado na Argentina. Bispos são remunerados pelo Estado. Portanto, é uma Igreja atrelada no seu todo, não apenas alguma figura isolada.

3) Quando estive em Buenos Aires no encontro sobre as “Espiritualidades da América Latina”, Bergoglio esteve presente. Em conversa com os padres argentinos, me pareceu que o comportamento dele na ditadura foi semelhante a Eugênio Salles no Brasil. Não confrontou, não denunciou, mas tentava ajudar os presos por sua influência, que não era tanta.

No Brasil, D. Eugênio deu proteção e vazão a muita gente, mas não confrontou o regime. No Brasil quem confrontou foi dom Hélder, dom Paulo, Tomás, Pedro, dom José Rodrigues aqui em Juazeiro e tantos outros. Claro, milhares e milhões de leigos, ateus, marxistas, gente de boa vontade fizeram o mesmo, etc. Entre essas duas posturas nunca houve consenso no Brasil. Vale lembrar que dom Hélder foi integralista na juventude – fascismo brasileiro – e mais tarde, em tom de arrependimento, dizia que tivera os telefones de todas as grandes autoridades brasileiras.

4) Esquivel disse que Bergoglio foi omisso, não colaborador. O mesmo uma senhora que preside uma espécie de “Comissão da Verdade” lá da Argentina. Ela sequer é católica. São vozes, portanto, respeitáveis que precisam ser consideradas.

5) Quanto aos confrades jesuítas, tudo parece ambíguo. O padre que está vivo disse que “já se reconciliou com ele”. A irmã do já falecido disse que “esmurrou as paredes” quando soube que ele era o novo papa.

6) Finalmente, uma “avó da praça de Maio” disse que ele carregará esse passado como “uma sombra”. Seja lá qual for o tamanho de sua responsabilidade, tomara que sim. Recordo-me de uma frase de Paulo Suess que li uma vez e jamais me esqueci: “no começo de um homem, sempre encontrei um abismo”. Que esse carma, como uma penitência, o torne sensível no papado contra toda forma de injustiça e omissão. É o possível daqui para frente.