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O papa Francisco que eu conheço

O papel de Bergoglio na Argentina provoca polêmica, mas agora Francisco pode recomeçar com um novo nome e um atestado limpo de saúde moral


Margaret Hebblethwaite

Existem dois pontos de vista sobre o cardeal Jorge Mario Bergoglio, agora Papa Francisco. O mundo se entusiasmou com o primeiro papa latino-americano, cuja eleição rachou o eurocentrismo da Igreja Católica e que surgiu na sacada como alguém muito humilde, muito genuíno, muito santo. Mas isso não é tudo o que se pode dizer.

Nos últimos 10 anos em que eu tenho acompanhado esse papável argentino, eu ouvi duas opiniões opostas. Uns o veem como alguém humilde, outros como autoritário. Alguns como progressista e aberto, outros como conservador e severo. Quando eu o conheci em Buenos Aires, em 2004, ele me disse que não dava entrevistas para a imprensa. Mas ele concordou em se sentar nos bancos da igreja comigo, após a sua missa de domingo, e ter uma conversa amigável de bastidores. Ele pareceu ser um homem que era não só apaixonadamente comprometido com o evangelho da pobreza, mas também muito inteligente e culta.

Estivemos em contato algumas vezes desde então, e, quando ele estava em Roma para o conclave de 2005, eu deixei uma carta para ele. Ele respondeu prontamente telefonando-me no meu hotel e dando-me dois excelentes contatos: um jornalista argentino bem informado em Roma e o seu então secretário de imprensa, Guillermo Marcó.

Como fomos lembrados na última quinta-feira, o nome Bergoglio estava conectado com a guerra suja nos anos 1970 na Argentina. Foi algo injusto? Estou convencido pela garantia de Marcó que foi uma “calúnia muito grave”. De 1973 a 1979, como jesuíta provincial, Bergoglio teve um confronto com um par de padres, Orlando Yorio e Francisco Jalics, que estavam vivendo em um bairro pobre e realizando um perigoso trabalho contra a ditadura militar. Eles se sentiram traídos por Bergoglio, porque, em vez de endossar o seu trabalho e protegê-los, ele exigiu que eles deixassem o bairro. Quando eles se recusaram, eles tiveram que deixar a ordem jesuíta. Depois, quando eles “desapareceram” e foram torturados, pareceu a muitos que Bergoglio havia sido apoiado a repressão. Era o tipo de situação complexa que é capaz de múltiplas interpretações, mas é muito mais provável que Bergoglio estivesse tentando salvar as suas vidas.

Quando falei com colegas jesuítas de outros países sobre as perspectivas de Bergoglio se tornar papa, fiquei surpreso com a sua antipatia. Ele era duro e disciplinador, diziam eles, e nunca foi visitar sua irmãos jesuítas na Cúria em Roma. De acordo com Marcó, o afastamento entre Bergoglio e os jesuítas era um espinho na sua carne que ele suportava com paciência silenciosa.

Por causa de questões como essa e seus confrontos com o governo argentino em torno de questões como o casamento entre pessoas do mesmo sexo, ele foi classificado como um conservador. Mas uma imagem diferente foi retratada por um dos amigos de Bergoglio, uma feminista radical e católica chamada Clelia Luro, que está o máximo possível à esquerda no espectro eclesial. Ela se casou com um bispo proeminente e respeitado, Jerónimo Podestá – um dos líderes das reformas progressistas que se seguiram ao Concílio Vaticano II – e às vezes era visto concelebrando a missa com ele, o tipo de coisa que faz com que o cabelo de um clérigo católico fique em pé. Mas Bergoglio reagiu diferentemente.

Luro falou comigo longamente sobre o seu amigo, sobre quem ela tem a mais alta opinião, e me contou que ela escrevia para ele quase semanalmente, e ele sempre respondia telefonando para ela e tendo uma conversa curta. Quando Podestá estava morrendo, Bergoglio foi o único clérigo católico que foi visitá-lo no hospital, e, quando ele morreu, foi o único que mostrou reconhecimento público pela sua grande contribuição à Igreja argentina.

Agora que ele é papa, podemos esperar que Francisco possa começar não só com um novo nome, mas também com um atestado limpo de saúde moral, e que o mundo possa fazer o seu próprio julgamento sobre o tipo de homem que ele é – não com base em equívocos que vêm de momentos dolorosos e difíceis do passado, mas respondendo ao seu apelo da sacada de São Pedro por “fraternidade, amor e confiança entre nós”.

Eu acredito que ele não vai nos decepcionar e será um farol de pobreza e simplicidade franciscanas em um Vaticano que ainda opera como uma corte medieval.

A reportagem é de Margaret Hebblethwaite, publicada no sítio do jornal The Guardian, 14-03-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.