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Israel vive dilemas de sociedade murada 65 anos depois de fundação

O país, apesar de vigoroso e sólido, vive complexas e profundas contradições desde sua fundação, em 14 de maio de 1948











Foto: Wikicommons



do Opera Mundi

O aeroporto Ben-Gurion, principal porta de entrada para Israel, fica encravado no meio do caminho entre Jerusalém e Tel Aviv. Uma auto-estrada ampla, de quatro pistas, asfaltada com requinte, conduz os recém-chegados para qualquer um dos lados. A leste, para quem se destina ao centro religioso do planeta. A oeste, para uma cidade mediterrânea e cosmopolita.

Cidade israelense cresceu, na última década, a um ritmo médio de 3,4% ao ano. Fotos: Mikhail Frunze/Opera Mundi

Quase dez anos após a onda de ataques executados por homens-bombas, o ambiente da principal cidade judaica do mundo pouco faz lembrar um dos mais longos e tensos conflitos do pós-guerra. Ou de que se está em um Estado confessional, no qual a religião desempenha função primordial de identidade e regulação da vida privada.

Novos edifícios, vários de alto luxo, nascem como espigões no chão de Tel Aviv, a maioria destinada a estrangeiros, especialmente judeus ricos, que buscam um rincão da terra prometida, mas de frente para o mar. Bulevares arborizados recortam movimentadas avenidas e servem de passarela para observar o quase onipresente acervo arquitetônico de estilo Bauhaus. O branco toma conta da paisagem. Restaurantes elegantes e bem decorados parecem sempre cheios.

Moças de vestido curto e shorts, rapazes de calças jeans ou bermudas, aproveitando o tempo quente e seco da primavera, inundam as ruas centrais. Raramente se encontra um rabino ou sequer alguém usando quipá. Salpicam alguns recantos históricos, como os mercados a céu aberto ou a cidade árabe de Jaffo, incorporada como distrito depois de 1948. Mas Tel Aviv, com região metropolitana superior a três milhões de habitantes, exala um hálito de modernidade.

Jovens israelenses em Tel-Aviv, cidade mais cosmopolita do país, caracterizada por seus arranha-céus.

O município é a locomotiva de uma economia que cresceu, na última década, a um ritmo médio de 3,4% ao ano, apesar da crise internacional que abalou os Estados Unidos e a Europa a partir de 2008. Israel passou a receber crescentes investimentos diretos em suas plantas industriais.

As principais empresas dessa escalada produtiva são companhias de alta tecnologia, concentradas em informática, equipamentos militares e produtos farmacêuticos. As chamadas hi-tech respondem por quase 50% das exportações do país. Instaladas majoritariamente no cinturão periférico de Tel Aviv, viraram a meca das pessoas que se formam nas universidades e sonham em fazer seu pé-de-meia.

Ao atrativo da pujança econômica, somou-se o reforço das condições de segurança, depois que os territórios palestinos ocupados foram fisicamente isolados. As contas externas também são beneficiadas por recursos destinados a Autoridade Palestina passarem obrigatoriamente pelo Banco Central israelense, onde dólares e euros são convertidos em schekels. As reservas cresceram aceleradamente, valorizando a moeda nacional e criando oportunidades para empresários locais expandirem suas atividades no exterior.

Custo social

Esse dinamismo, contudo, teve pesado custo social. Além das despesas com as forças armadas representarem cerca de 30% do orçamento nacional, esse item também sobrecarrega as importações, provocando saldos negativos na balança comercial. Mesmo com os EUA arcando, a fundo perdido, com 20% dos gastos em segurança (aproximadamente 3,5 bilhões de dólares anuais), Israel só sai do vermelho atraindo novos capitais.

Enormes subsídios e isenções fiscais são concedidos, com esse propósito, para o mundo dos negócios. A contrapartida, para combater o déficit interno, é uma forte redução das verbas alocadas em programas sociais e serviços públicos, agravada pela desregulamentação de direitos trabalhistas. A economia cresce, mas a riqueza se concentra e a pobreza se expande.

O número de pessoas cuja renda é inferior a 40% do salário médio subiu, desde 2003, de 7,8 para 12,1%. Abaixo de 50%, de 15 para 19,8%. Se o corte for de 60%, de 23,3 para 26,8%. Os dados são da OCDE (Organização para Cooperação Econômica e Desenvolvimento). Há 15 anos, 16% dos israelenses viviam abaixo da linha da pobreza, segundo relatório do Instituto Nacional de Seguros, órgão governamental. Atualmente 23,9% dos cidadãos vivem com menos de 27 dólares diários, apesar da taxa de desemprego estar em 6,3%.

A onda de protestos que varreu Tel Aviv e outras cidades, em 2011, foi uma resposta a essa situação. Mais de 500 mil pessoas participaram de protestos, cuja reivindicação principal era a redução dos aluguéis e preço das moradias. A renda média dos israelenses dificilmente suporta o custo habitacional, em um mercado imobiliário que se voltou para o topo da pirâmide.

Cerca étnica

O muro social vai ficando cada vez mais alto, mas ainda não compete com a cerca étnica. Os árabes-israelenses representam cerca de 22% da população nacional, de 7,5 milhões. O salário médio entre esse grupo, de 1,5 mil dólares mensais, é 32% inferior ao de trabalhadores judeus. Mais de 53% das famílias palestinas vivem na pobreza, entre as quais o desemprego passa dos 10%. Das 40 cidades israelenses com maior quantidade de moradores sem trabalho, 36 são de maioria árabe.

Nos territórios ocupados da Cisjordânia e Jerusalém Oriental as cifras são ainda mais severas, ainda que as estatísticas sejam inexatas ou contraditórias. O problema se agrava, contudo, porque essas populações não possuem sequer direitos civis e eleitorais. Essas áreas foram isoladas por um sistema de muralhas e alambrados, sob a justificativa de deter a onda de atentados em solo israelense.

Aparentemente esse objetivo foi alcançado, apesar do lançamento de mísseis provenientes da Faixa de Gaza continuar desafiando a segurança do país. Mas o custo econômico e social para os palestinos é estrondoso. Não podem mais buscar empregos nas fronteiras oficiais do Estado sionista. Sua mobilidade está fortemente limitada. As perdas de propriedades e plantios são expressivas.

Esse cenário estabeleceu uma parede entre Israel e a comunidade internacional. As Nações Unidas consideram ilegais tanto a ocupação destes territórios quanto o sistema de segregação espacial. Resoluções recentes também condenam o processo de colonização judaica dessas áreas, que deveriam pertencer ao Estado palestino. Assentamentos na Cisjordânia são oficialmente estimulados, recebem subsídios e têm sua guarda garantida pelo exército, além de serem encapsulados pelo muro da separação.

Alguns intelectuais e líderes sionistas mais à esquerda passaram a declarar, nos últimos anos, que Israel estava perigosamente caminhando para um modelo inspirado pelo apartheid sul-africano, por conta da estratégia que conduz em relação à questão palestina. As correntes mais à direita, atualmente no governo, rejeitam a comparação e afirmam que as medidas respondem apenas às necessidades de combate ao terror.

Os críticos desse ponto de vista afirmam que a solução para a paz não está no erguimento de muros, mas na negociação de um acordo permanente para a existência de um Estado palestino viável e autônomo. A maioria das lideranças relevantes, incluindo o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, discursa a favor dessa saída. Mas há muitas dúvidas se alguns dos protagonistas não estão apostando em fazer, do transitório, uma eternidade.

O fato é que Israel chega aos 65 anos de sua independência, celebrados nesse 14 de maio, como uma nação vigorosa e sólida, mas espetada por contradições. Exibe vitalidade econômica e poderio tecnológico. Vive, contudo, os conflitos de um sistema que produz desigualdade social, discriminação étnica e tentação colonial.